terça-feira, 2 de junho de 2015

APENAS UMA AVENTURA BANAL.

Sejamos honestos, tem palavrinha mais desgastada ultimamente do que “aventura“? Talvez só rivalize mesmo com “superação”, aspas minhas. Há hoje uma supervalorização e superexposição das tarefas ou das ações mais básicas e cotidianas.  Seja um passeio de bicicleta dominical no parque ou um prosaico banho de cachoeira à beira de uma estrada de asfalto, tudo se converte em “aventura” ou “superação”. Se bem que com o perigo que hoje representam nossos espaços públicos ou até mesmo um passeio de fim de semana, reconheço que há  uma certa dose de coragem para frequentá-los.

Etimologicamente, o termo aventura deriva do latim ad venture e significa literalmente “o que vem pela frente”.  Assim, podemos inferir que quem se arrisca numa aventura deve estar preparado para o que der e vier. Outro significado, este latu sensu, seria o de entregar-se à ventura, ao acaso, à própria sorte. Mas atuando em ambiente controlado dos riscos existentes, pelo menos em princípio. Diferencia-se portanto da atividade radical onde os riscos não podem ser controlados. Um exemplo, andar de moto na cidade implica riscos, é claro. Mas que podem ser administrados ou diminuídos pela habilidade de condução, experiência do piloto, equipamento de segurança apropriado, capacidade de se antecipar a situações perigosas, etc. Já numa competição de motocross os riscos não são todos controláveis, há sempre o imponderável a cada salto ou curva. É uma atividade radical. E por aí vai...

O americano Joshua Slocum, o primeiro a circunavegar a terra em solitário de barco.(1895-98)

No Brasil há uns 30 anos atrás começou essa história do culto à aventura; no mundo um pouco mais. Não que ela não existisse, sempre esteve por aí.  Dezenas ou centenas de verdadeiros aventureiros cruzaram os céus em mambembes artefatos aéreos, navegaram por oceanos em barcos que eram potenciais naufrágios iminentes, percorreram desertos e infinitas highways nos mais diversos veículos  de duas e quatro rodas que desafiaram o bom senso.

Mas o que mudou mesmo foi a ideia de profissionalização e, consequentemente com ela, veio a industrialização da aventura, cujo maior responsável foi a tecnologia. De repente, e estamos falando da aventura long range, de longo alcance, se estabeleceu a cultura que uma grande viagem de moto só seria possível com uma big trail  recheada de equipamentos, caríssimos, pneus especiais e sobrecarregada de malas, mochilas e roupas de grifes especializadas. Uma travessia marítima requeria barcos especialíssimos, construídos de materiais sofisticados como ligas de alumínio ou composites de última geração, e de caríssimos equipamentos de navegação eletrônicos.

Viagens por terra passam a requerer Land Rovers quase vergados ao peso de tantos equipamentos próprios para “expedições”: para choques, guinchos, peitos de aço, pneus off road, bagageiros, faróis de milha, rádios e instrumentos de navegação por terra, etc. E assim por diante em qualquer outra atividade como cicloturismo, aviação ultraleve, etc, etc.


A abordagem  cult dos “new adventurers” e a proliferação dos profissionais da área promoveram o aparecimento da indústria da aventura. Equipamentos de localização como GPS e trackers, celulares por satélite e localizadores de  emergência; roupas especiais para altas altitudes ou calor extremos, alimentação desidratada e balanceada, por exemplo,  deram segurança e incentivo a que mais e mais gente se lançasse aos seus desafios pessoais, agora em ambiente hostil mais controlado e dotado de mais conforto. Atualmente, cegos já subiram ao topo do Everest, outro deu a volta à Terra em solitário num veleiro,  adolescentes de 15 anos já pedalaram volta ao mundo. Pequenas aeronaves ultraleves e balões circundaram o planeta; mergulhadores já chegaram aos quase limites do fundo do oceano. Ciclistas já cruzaram todos os continentes, motobikers já deixaram seus rastros por todas as estradas do mundo; voadores de todas as espécies já deram mais colorido aos céus.

Sinal dos tempos ou não, num mundo cada vez mais globalizado, interconectado, e com um vastíssimo avanço tecnológico, sobrou muito pouca coisa – ou quase nada hoje em dia – a ser conquistado. A industrialização desmistificou e democratizou o acesso a equipamentos e acessórios, tornando a conquista mais uma questão individual do que uma expectativa coletiva. A tecnologia banalizou a aventura.

(fotos reprodução)


Um comentário:

regi nat rock disse...

Até se aventurar pela amazônia ( o que fiz profissionalmente) perdeu a graça.

E era inebriante meu caro. Sem cojones, era melhor nem pensar no assunto....