domingo, 18 de novembro de 2012

TIPOS URBANOS DA GRANDE CIDADE...

Depois de séculos voltei a ler quadrinhos, mais precisamente graphic novels. E nada melhor que o mestre na especialidade, Will Eisner.

"Nova York, a vida na grande cidade" é uma coletânea de tipos e situações urbanas protagonizados por personagens singulares. As histórias reunidas neste livro registram momentos às vezes irônicos, às vezes trágicos, da vida dos habitantes da metrópole, revelando muito mais do que "um acúmulo de grandes edifícios, grandes populações e grandes áreas".


"Nova York: A grande cidade" e "Caderno de tipos urbanos" são compostos de vinhetas que registram, a partir do cenário da cidade, aspectos do dia a dia de seus habitantes.Esses breves vislumbres iluminam com delicadeza desde as situações mais cotidianas até as reviravoltas mais trágicas.

O olhar agudo que se revela nas vinhetas ganha em "O edifício" e "Pessoas invisíveis" aspecto mais sombrio. Nessas histórias, que são sobretudo biografias de personagens solitários e esquecidos, Will Eisner põe em xeque o isolamento e a indiferença impostos pela metrópole.

Verdadeira obra-prima dos quadrinhos, "Nova York" é um registro impressionante não só da sensibilidade de seu autor mas da vida que se esconde por trás de toda grande cidade".

 (reprodução de texto Cia. das Letras)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

MEMÓRIAS...

Greenville, estado da Carolina do Sul, EUA, doze anos atrás. Noite invernal, um frio de rachar os ossos. Saio de casa na vã esperança de achar um boteco aberto aquela hora da noite a fim de tomar uns grogues. Inútil, na brancura da paisagem , somente os flocos de neve me fazem companhia. Quase desistindo encontro um bar com fachada de madeira, numa viela do centro da cidade. Há uma grande janela de vidro e, através dela, posso ver um trio de piano-baixo-bateria, liderados por uma bela crooner loira, que se esforça para atrair a atenção da parca clientela desatenta.

Não é tarde, cerca de 11 horas da noite e faço menção de entrar. Um negro alto, magro  e bem vestido me impede, não estão aceitando novos clientes devido ao adiantado da hora. A noitada aqui acaba pelo jeito cedo. Fico então alguns minutos do lado de fora, exposto à intempérie, apreciando os últimos números do quarteto.



Compadecida talvez da minha inesperada audiência, a loira resolve oferecer a última música da noite "àquele rapaz ali do lado de fora, que insistiu em nos ouvir, apesar deste tempo de merda". A música era "What a Difference a Day Makes", grande sucesso de Nina Simone, que assim passou a fazer parte da minha história. Apenas mais uma lembrança de rostos e lugares do passado.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

E EMMANUELLE SE FOI...

A atriz holandesa Sylvia Kristel (60 anos) morreu ontem enquanto dormia, vítima de um câncer no esôfago que a perseguia nos últimos meses. Foi revelada para o cinema depois de sagrar-se Miss Europe em 1972. No ano seguinte, Silvia Kristel celebrizou-se ao interpretar "Emmanuelle", um clássico do cinema erótico francês que marcou época. Chegou a ser exibido por 15 anos em um cinema de Paris. Atuou em mais de 50 filmes, entre eles  "Lady Chatterley" adaptação do romance homônimo de D. H. Lawrence e "Mata Hari", este último sobre a famosa espiã alemã da I Guerra Mundial.



Na segunda metade dos anos 70 Sylvia Kristel teve problemas com drogas e álcool e em 2003 descobriu um câncer de garganta, do qual conseguiu se recuperar. Atuou em mais algumas produções sem maior destaque, passando a viver modestamente em  Amsterdam, onde dedicou-se à pintura.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A DOCE VIDA....

Um dos meus filmes de cabeceira, "La Dolce Vita"  é considerado um clássico do cinema e a obra prima do genial Federico Fellini, juntamente com "8 1/2". Foi rodado em 1960 e aclamado pela crítica especializada e por alguns cinéfilos como um dos melhores filmes de todos os tempos, igualado a "Cidadão Kane", outro clássico do cinema sobre o jornalismo sensacionalista.

O filme passa-se em Roma e conta a história de Marcello Rubini (Marcello Mastroiani), um jornalista especializado em histórias sensacionalistas sobre estrelas de cinema, visões religiosas e a aristocracia decadente, que passa a cobrir a visita da atriz hollywoodiana Sylvia Rank (Anita Ekberg), por quem fica fascinado.



Através dos olhos deste personagem, Fellini mostra uma Roma moderna, sofisticada, mas decadente, com os sinais da influência americana. O repórter é um homem sem compromisso, que se relaciona com várias mulheres: a amante ciumenta, a mulher sofisticada em busca de aventura, e a atriz de Hollywood, com a qual passeia por Roma, culminando no ponto alto do filme, a famosa sequência da Fontana di Trevi.

Outra sequência famosa do filme é a da abertura, na qual o jornalista, num helicóptero que transporta uma estátua de Jesus até o Vaticano, encontra uma mulher tomando sol numa cobertura e pergunta pelo seu número de telefone. O barulho dos motores impede que ambos possam se entender. A temática da falta de comunicação se repete ao longo de todo o filme.

Dentre os momentos mais importantes do filme, está aquele na qual duas meninas atraem uma multidão, ao fingirem ver uma aparição da Virgem Maria nos subúrbios de Roma; e quando o personagem Steiner  (Alain Cuny), um intelectual e colega de Marcello, que vive com a sua família numa aparente harmonia, comete o assassinato dos seus próprios filhos (um casal de crianças) e se suicida em seguida. Após a morte de Steiner, Marcello embarca numa vida de orgias e, numa destas ocasiões, pela manhã, caminha pela praia em busca de um monstro marítimo morto, o final simbólico do filme.

Algumas curiosidades sobre "La Dolce Vita": a presença no elenco de Anouk Aimée que se tornaria célebre no filme "Um homem, uma mulher", de Claude Lelouch (1966), e de Lex Barker, o ator americano que sucedeu a John Weissmuller no papel de Tarzã.

(consulta de texto Wikipedia/ reprodução)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

PARA SEMPRE, ECKSTINE...

Podem me chamar de jurássico, pouco me importa. Mas que hoje em dia não se fazem mais cantores como antigamente, é um fato incontestável. É só ouvir o inigualável Billy Eckstine, o Mr. B.,  que argumentos contrários caem por terra. O timbre do barítono lírico, o controle do vibrato, a emissão de voz, ritmo, divisão musical, dicção, tudo remete à perfeição.



 E a banda que o acompanha é um time pra lá de respeito: Art Blakey (bateria), Sonny Stitt (saxofone), Kay Winding (trombone), Dizzy Gillespie (trumpete) e Bobby Tucker ao piano. A gravação é de 1972 e engloba dois grandes sucessos, começando por uma das minhas favoritas, "I Apologize".

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

"QUANDO ME AMEI DE VERDADE..."


"Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato.E então, pude relaxar. Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima.

Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passava de um sinal de que estava indo contra minhas verdades. Hoje sei que isso é...Autenticidade.

Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.Hoje chamo isso de... Amadurecimento.

Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo. Hoje sei que o nome disso é... Respeito.

Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início minha razão chamou essa atitude de egoísmo. Hoje sei que se chama... Amor-próprio.

Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro. Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo. Hoje sei que isso é... Simplicidade.

Quando me amei de verdade, desisti de querer sempre ter razão e, com isso, errei muito menos vezes.Hoje descobri a... Humildade.

Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de me preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece. Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... Plenitude.

Quando me amei de verdade, percebi que minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.

Tudo isso é... Saber viver!!!"

(Charlie Chaplin)

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

LIBERTANGO...



"Libertango", de Astor Piazzolla. Para se ouvir de olho rútilo e lábio trêmulo...

domingo, 12 de agosto de 2012

O MESTRE DA LUZ....

Descobri recentemente as pinturas do artista russo Mstislav (ou Misti)Pavlov, um verdadeiro mestre impressionista no uso da luz e dos pincéis. Seus óleos retratam sempre figuras femininas e de crianças, criando em torno delas um ambiente romântico e usando a luz e o apuro na técnica do desenho e da paleta de cores para destacar a beleza de suas personagens e o ambiente que as circundam. Suas pinturas ganham vida e para o observador estão em constante mudança, permitindo assim sempre um novo olhar e as descobertas que as telas insinuam.


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

'UM DESERTO DE POSSIBILIDADES..."

"A partir das primeiras cenas do filme “Bagdá Café”, do diretor alemão Percy Adlon, o espectador percebe que se encontra diante de uma obra incomum. Cortes secos, câmera inclinada, filtros cromáticos e personagens caricaturais são algumas das escolhas estilísticas do diretor para a composição de um dos filmes mais aplaudidos pela crítica mundial.

No deserto do Mojave, próximo a Las Vegas, encontra-se o complexo de estabelecimentos “Bagdá”: um posto de gasolina, um pequeno hotel e um café. A música interpretada por Javetta Steele expressa a atmosfera do local e das pessoas que ali residem. “Há uma estrada que vai de Vegas para nenhum lugar, um lugar melhor do que onde você já esteve”.“Bagdá Café” oferece uma narrativa rica nos programas do drama e da comédia, especialmente devido a peculiar atuação de CCH Pounder, que interpreta Brenda, uma mulher amargurada e áspera que sustenta, dois filhos, um neto, dirige um bar decrépito e ainda ‘suporta’ os lapsos de um marido acomodado.

Brenda luta pela mínima sobrevivência da sua propriedade e já não acredita mais que sua vida pode romper as barreiras das dificuldades e dos dissabores. Os recursos cinematográficos de enquadramento são fundamentais para que o apreciador possa usufruir das emoções vivenciadas pelos personagens. O super-close e os planos de detalhe são intensamente utilizados, os planos são curtos e o texto ganha um ritmo harmônico, assim como as músicas tocadas por Sal Jr., filho de Brenda, um indivíduo que compõe o universo artístico do Café.



A trilha sonora é basicamente composta pela melancólica “I´m calling you”, com algumas intervenções clássicas estilizadas pelo piano nervoso de Sal Jr. e pela fiel reprodução da clássica “Ave Maria”, de Gounod. A obra utiliza alguns elementos do programa musical da Broadway, em cenas que, esteticamente, se assemelham aos tradicionais musicais que apresentam mulheres vestidas de homem, com cartolas e bengalas...e com a participação da platéia do Café nas composições.

O Café na beira da estrada funciona como um ponto de interseção na vida de sete personagens: Brenda, a desleixada proprietária do Bagdá Café, uma filha espirituosa e vulgar, um filho músico incompreendido em sua arte, um pintor cenografista hollywoodiano (interpretado pelo memorável Jack Palance), uma mulher que faz tatuagens, um jovem aficionado por boomerangs e uma forasteira enigmática... Jasmin Muenchstettner (Marianne Sagebrecht), uma alemã observadora, impossível de ser decifrada num simples contato superficial.

É preciso conhecê-la e compartilhar do seu café forte e amargo e das suas mágicas. Deixar-se embalar pela sua alma solidária e atenta. Trata-se de uma mulher singular, que consegue captar aquilo que há de melhor em cada indivíduo que compõe a família do "Café Bagdá". Uma criatura que através da mágica executa a maior das peripécias humanas: desvelar o enigma das personagens que dão vida àquele insólito ambiente. A proprietária da simplória cafeteira que proporciona o impulso para as reviravoltas na vida daqueles que ali residem.

O conjunto “Bagdá” é um estabelecimento incomum. Um estranho café que, inicialmente quase nada tem para oferecer aos seus clientes. Os quartos do hotel são simples. O posto de gasolina parece mais seco do que os carros que, eventualmente, por ali passam. Não há lucro financeiro, apenas uma possibilidade de sobrevivência. O espaço subsiste à espera de um milagre, como um ato de mágica que poderia revolucionar aquele quadro caótico e estéril.

A fotografia assume um caráter do beleza perante a aridez. Um eterno crepúsculo celeste, contemplado por dois notáveis pontos de luz, resultado do reflexo dos espelhos sobre o centro solar. Há um calor confortável, sustentado pela utilização de filtros amarelos e avermelhados nas lentes das câmera. Algumas cenas em slow motion proporcionam a contemplação da riqueza fotográfica.

A Jasmin, pouco feminina do início do enredo esbarra-se com a Brenda “masculinizada” nos entulhos do "Café Bagdá". Há uma clara transformação e feminilização na vida destas personagens, que ganhou corpo com a superação das adversidades através do trabalho e da convivência. A figura do homem torna-se pífia perante a auto-suficiência destas duas mulheres, que descobrem que as perdas podem oferecer a verdadeira liberdade para a fruição integral da vida, em toda a sua plenitude".

(texto original Carina Rabelo, blog Cinerelax)

segunda-feira, 30 de julho de 2012

"O CIÚME", POR GUILHERME DE ALMEIDA...

"Minha melhor lembrança é aquele instante no qual
Pela primeira vez, me entrou pela retina
Tua silhueta, provocante e fina
Como um punhal

Depois, passaste a ser unicamente aquela
Que a gente se habitua a achar apenas bela
E que é quase banal

E agora que tenho em minhas mãos e sei
Que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos
E os teus sentidos são cinco brinquedos
Com que brinquei

Agora que não mais me és inédita
Agora que eu compreendo que tal como te vira outrora
Nunca mais te verei

Agora que de ti, por muito que me dês
Já não podes dar a impressão que me deste
A primeira impressão que me fizeste
Louco, talvez

Tenho ciúme de quem não te conhece ainda
E, cedo ou tarde te verá, pálida e linda,
Pela primeira vez..."

( reprodução "Evening Toilet", de Mistilav Pavlov)

sexta-feira, 27 de julho de 2012

DIAMANTES ENFERRUJADOS...

Sou fã de carteirinha de Joan Baez, para mim uma das maiores vozes da canção americana. Guardadas as devidas proporções (é uma cantora eminentemente folk) eu a coloco no mesmo panteão de Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Billie Holyday, minha santíssima trindade das vozes femininas americanas. Ok, posso incluir também Janis Joplin, Anita O´Day, mas aí é uma discussão paralela.



A canção "Diamonds and Rust" foi composta em 1975 e remete-se ao relacionamento de Joan Baez com Bob Dylan, dez anos antes. Há várias referencias na letra da canção que falam de um "telefonema de uma cabine no Meio-Oeste", de um "fantasma do passado" ou de uma "noite num hotel ordinário da Washington Square" (Greenwich Village, Nova Iorque).


Apesar da cantora mais tarde ter desmentido esta versão dizendo que havia sido composta a música para o marido, David Harris, que se encontrava na prisão, todos sabiam a quem de fato se referia Joan Baez."Diamonds and Rust" no meu entender é uma das melhores canções folk de todos os tempos e se ajusta à perfeição à voz e interpretação de Joan Baez.

(foto reprodução)

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O SOM DO CHICAGO...

Uma de minhas bandas favoritas o período 1968-1971. O grupo foi formado em 1967 na cidade homônima. A primeira formação do grupo, inicialmente chamado de The Big Thing, incluía Walter Paraider no saxofone, Lee Loughnane no trompete, Terry Kath na guitarra e voz, Danny Seraphine na bateria, James Pankow no trombone e Robert Lamm no órgão e voz. No começo, a banda não tinha baixista, mas, em Dezembro de 1967, o baixista e vocalista Peter Cetera juntou-se a eles, vindo da banda rival "The Exceptions"

Em 1969, foi editado o seu álbum de estréia, "Chicago Transit Authority", que vendeu mais de 2 000 000 de cópias e colocou quatro singles nas paradas musicais, fato que se repetiria ao longo da sua carreira e nos álbuns seguintes, cada um deles com uma ligeira variação na capa, na qual, ao lado do logotipo da banda, era acrescentada a numeração do respectivo disco. A música do Chicago era uma mistura de estilos, desde o rock até a música pop,incorporando elementos do jazz e da música clássica. Mas, depois do tema de Cetera "If You Leave Me Now" se tornar disco de ouro e chegar ao primeiro lugar das paradas em 1976, o grupo começou a compor mais baladas românticas.



No vídeo acima, a faixa "I´m a Man", de 1970,  a pegada forte  do rock do Chicago e a guitarra pulsativa de Terry Kath que tinha entre seus maiores fãs ninguém menos que...Jimi Hendrix !

terça-feira, 3 de julho de 2012

'MADAME BOVARY", DE GUSTAVO FLAUBERT...

" Entrementes, as chamas se acalmaram, seja porque a própria provisão se tivesse esgotado ou porque a acumulação fosse por demais considerável. 


O amor pouco a pouco apagou-se com a ausência, o pesar foi abafado pelo hábito; e aquele luminosidade de incêndio que tingia de púrpura seu céu pálido cobriu-se com maiores sombras e apagou-se gradualmente.


No entorpecimento de sua consciência, tomou mesmo a repugnância pelo marido como aspirações pelo amante, os ardores do ódio como reaquecimento da ternura; mas, como a tempestade continuava soprando e como a paixão se consumiu até as cinzas e como não chegou nenhum socorro, como nenhum sol apareceu, foi noite completa em toda parte e ela permaneceu perdida num frio que a trespassava."

Madame Bovary - Gustave Flaubert - Pag. 119

(Descaradamente "apropriado" do Facebook do brother Cezar Fittipaldi/foto reprodução)

segunda-feira, 25 de junho de 2012

AO 'BOCA DO INFERNO', MEUS RESPEITOS...

Um dos meus poetas favoritos, Gregório de Mattos Guerra deveria ser passagem obrigatória e merece uma revisita, ainda mais nesses tempos bicudos de pouca moral politica e ética social altamente questionável que ora atravessamos.

"Poeta barroco brasileiro, nasceu em Salvador/BA, em 20/12/1623 e morreu em Recife/PE em 1696. Foi contemporâneo do Pe. Antônio Vieira. Amado e odiado, é conhecido por muitos como "Boca do Inferno", em função de suas poesias satíricas, muitas vezes trabalhando o chulo em violentos ataques pessoais. Influenciado pela estética, estilo e sintaxe de Gôngora e Quevedo, é considerado o verdadeiro iniciador da literatura brasileira.

 De família abastada (seu pai era proprietário de engenhos), pôde estudar com os jesuítas em Salvador. Em 1650, com 14 anos, abala para Portugal, formando-se em Direito pela Universidade de Coimbra em 1661. É nomeado juiz-de-fora em Alcácer do Sal (Alentejo) em 1663. Em 1672 torna-se procurador de Salvador junto à administração lisboeta. Volta ao Brasil pouco depois de 1678. Quarentão e viúvo, tenta acomodar-se novamente na sociedade brasileira, tarefa impossível. Apesar de investido em funções religiosas, não perdoa o clero nem o governador-geral (apelidado "Braço de Prata" por causa de sua prótese) com seu sarcasmo.

Mulherengo, boêmio, irreverente, iconoclasta e possuidor de um legendário entusiasmo pelas mulatas, pôs muita autoridade civil e religiosa em má situação, ridicularizando-as de forma impiedosa. Provocando a ira de um parente próximo do governador-geral do Brasil, foi embarcado à força para Angola (1694), pois corria risco de vida. Na África, curte a dor do desterro, espanta-se diante dos animais ferozes, intriga-se com a natureza, dá vazão ao seu racismo e se arrisca à perda da identidade. Sua chegada à Luanda coincide com uma crise econômica e com uma revolta da soldadesca portuguesa local. Gregório interferiu, pacificou o motim, acalmou (ou traiu?) os revoltosos e, como prêmio, voltou para o Brasil, para o Recife, onde terminaria seus dias.

 Sua obra poética apresenta duas vertentes: uma satírica (pela qual é mais conhecido) que, não raro, apresenta aspectos eróticos e pornográficos; outra lírica, de fundo religioso e moral. Ao contrário de Vieira, Gregório não se envolveu com questões magnas, afetas à condução da política em curso: não lhe interessavam os índios, mas as mulatas; não o aborreciam os holandeses, mas os portugueses; não cultivou a política, mas a boêmia; não "fixou a sintaxe vernácula", mas engordou o léxico; não transitou pelas cortes européias, mas vagabundeou pelo Recôncavo.

 É uma espécie de poeta maldito, sempre ágil na provocação, mas nem por isso indiferente à paixão humana ou religiosa, à natureza, à reflexão e, dado importante, às virtualidades poéticas duma língua européia recém-transplantada para os trópicos. Ridicularizando políticos e religiosos, zombando da empáfia dos mulatos, assediando freiras e mulatas, ou manejando um vocabulário acessível e popular, o poeta baiano abrasileirou o barroco importado: seus versos são um melting pot poético, espelho fiel de um país que se formava.

Finalmente, o que muitos não devem saber é que Gregório também é considerado antecedente do nosso cancioneiro, pois fazia "versos à lira", apoiando-se em violas de arame para compor solfas e lundus. O lundu, criado nas ruas, tinha ritmo agitado e sincopado, e melodia simples com resquícios modais, sendo basicamente negro. Do lundu vieram o chorinho, o samba, o baião, as marchinhas e os gêneros de caráter ritmado e irreverente."

 Um porreta, esse Gregório...

(foto reprodução/texto biografia Jornal de Poesia)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O BOM BAURU...

O leitor Rubens Leal Casses foi quem deu a dica: o Ponto Chic, bar onde foi inventado o sanduíche Bauru (ou lanche como chamam agora...) completou 90 anos este ano. Inaugurado em 24 de março de 1922 - em plena Semana de Arte Moderna, portanto - o Ponto Chic logo se tornou ponto de encontro de trabalhadores, artistas, intelectuais, políticos. Numa noite de 1936, atrasado para uma partida de sinuca, o então radialista Casimiro Pinto Neto pediu ao sanduicheiro que improvisasse um lanche.



“Era um dia que eu estava com muita fome. Cheguei para o sanduicheiro Carlos e falei para abrir um pão francês, tirar o miolo e botar um pouco de queijo derretido dentro. Depois disso o Carlos já ia fechando o pão eu falei: 'calma, falta um pouco de albumina e proteína nisso'. Eu tinha lido em um opúsculo livreto de alimentação para crianças, da Secretaria de Educação e Saúde, escrito pelo ex-prefeito Wladimir de Toledo Pisa, também frequentador do Ponto Chic , que a carne era rica nesses dois elementos. Então falei para botar umas fatias de rosbife junto com o queijo. E já ia fechando de novo quando eu tornei a falar: falta vitamina, bota aí umas fatias de tomate. Este é o verdadeiro Bauru”, disse Casemiro em depoimento publicado enquanto vivo. Ele morreu em dezembro de 1983, aos 69 anos.

A aprovação da nova receita do bar partiu de um amigo de Casimiro. “Quando estava comendo o segundo sanduíche chegou o ‘Quico’, Antônio Boccini Júnior, que era muito guloso e pegou um pedaço do meu sanduíche e gostou. Aí ele gritou para o garçom: me vê um desses do Bauru”, relatou o criador do lanche. Outras pessoas experimentaram e o nome foi ficando. O tradicional bauru, além de pão sem miolo, rosbife, queijo derretido e tomate, também incluiu orégano e picles em rodelas e sal.

De acordo com o proprietário do Ponto Chic, José Carlos de Souza, o sanduíche teve um papel fundamental na vida do bar.

“Desde sua criação se tornou o carro-chefe do cardápio e contribuiu para que o bar se tornasse ponto de encontro de jornalistas, políticos, esportistas, entre outros profissionais, provocando ainda mais a reunião de pessoas formadoras de opinião que ajudaram a escrever a história da cidade de São Paulo.

A divulgação do nome Bauru teve reflexos colaterais também na situação econômica da região noroeste do estado de São Paulo, principalmente para o município de Bauru”.

(foto reprodução/texto original Alan Schneider/G1)

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O KIR ROYALE...

Já foi um dos meus drinques favoritos - ok, vá lá, coquetel - mas hoje raramente peço por dois motivos: um, soa até meio gay; dois, dificilmente acho alguém que saiba fazer o mix perfeito, o que faz toda a diferença. Já bebi muito kir royale (alguns preferem a grafia royal...) como aperitivo antes das refeições ou mesmo no fim de tarde, quando era mais chegado às libações etílicas.

Consta que foi inventado por Félix Kir, um prefeito da cidade francesa de Dijon, como medida de incentivo a venda de dois produtos de sua região, o creme de cassis e o vinho branco tipo Burgundy. Originalmente a receita se fazia com vinho tinto mas durante o período da 2a. Guerra Mundial (1939-1945) o estoque de vinho tinto da região foi confiscado pelos soldados alemães. Após o conflito, adotou-se também o espumante (champagne) como também alternativa ao drinque e assim foi como sepopularizou.

A receita é muito simples e aqui vai a proporção que acho ideal: Numa taça tipo flüte coloque uns 15 ml de creme de cassis, adicione uns 90 ml de bom champagne tipo brüt ou o espumante de sua preferência e está feita a festa. Uma variação interessante é colocar umas duas ou três blueberries (ok, mirtilo para os francófilos...), dá um sabor diferente e um charme especial ao seu drinque.
Tim, tim...

quarta-feira, 4 de abril de 2012

COMENDO UMA "FRANCESINHA"...

"Já comeu uma francesinha ?" A pergunta feita assim à queima roupa me pegou de surpresa e fiquei bem constrangido, confesso. Afinal, eu visitava uma amiga angolana cuja mãe, uma senhora de origem portuguesa já de alguma idade, estava sentada bem à minha frente, aparententemente pouco interessada nas minhas eventuais aventuras amorosas. Antes que eu me refizesse do susto e, se dando conta de meu mal estar, a senhora se pôs a explicar.


"Francesinha" é o nome de um sanduíche muito famoso lá pelas bandas do Norte de Portugal, principalmente na cidade do Porto. Consta de pão de forma com recheio de linguiça, salsicha, presunto, um bife de carne de gado ou lombo de porco assado e fatiado, encimado por uma porção generosa de queijo derretido. Como guarnição, pode vir acompanhado de um molho feito de tomate, cerveja e pimentões, dois ovos estrelados por cima e batatas fritas.

Diz-se que o acepipe teve origem ainda na invasão napoleônica a Portugal quando o soldados franceses juntavam duas fatias de pão e preenchiam com toda a espécie de carne encontrada e queijo. A contribuição portuguesa veio com a adição do tal molho. Outros atribuem o crédito a um tal Daniel David Silva, empregado do restaurante A Regaleira, ainda nos anos 50, após ter trabalhado em Paris e se inspirado no sanduíche croque- monsieur francês. Hoje, a francesinha se tornou uma verdadeira instituição na cidade do Porto, dando margem ao aparecimento de recheios de várias versões como cogumelos, frango, bacalhau, atum, vegetais, etc.

Isso posto e devidamente esclarecido, dediquei-me então à agradabilíssima tarefa de "traçar convenientemente uma francesinha", comme il fault. Pas mal, pas mal...

(foto reprodução)

quarta-feira, 14 de março de 2012

A REPÚBLICA LIVRE DO BOTEQUIM...

Quem é fã deve concordar: boteco bom é aquele perto da sua casa onde pode-se ir a pé, vestido como se quer. O dono é seu velho conhecido e o garçom - quando existe, é claro - o conhece de nome e sabe de cor seus gostos, manias e idiossincrasias.

Boteco de respeito é aquele lugar onde seres humanos normais, como eu e você, vão para beber, comer e principalmente bater papo, jogar conversa fora. Botequim não é lugar para conversa séria. Mesmo quando falamos de futebol, política ou mulheres, não necessariamente nesta ordem...

Boteco que se preze é o território livre onde se misturam - de preferencia em partes iguais - homens, mulheres (bonitas, charmosas, interessantes e disponíveis, se possível...) e a quota habitual de vadios, sóbrios e bebuns. Num boteco de responsa jamais se encontrará coisas do tipo salmão ao molho de maracujá salteado na manteiga e alcaparras, fettucine al limone siciliano ou risoto de funghi aux bordeaux.

Negatoviskái... a experiência gastronômica do boteco é, digamos, mais heterodoxa. O menu pode reservar surpresas como bolinhos de bacalhau e aipim (também conhecido como mandioca ou macacheira, em certos meios), torresmo, bolinho de feijoada, casquinha e sopa de siri, caldinho de feijão ou sururu, bolinhos de aipim recheados de catupiry e camarão, o escondidinho de carne seca, por exemplo.

Também são concorridos a costelinha de porco com goiabada, o miolo de boi à milanesa, jiló frito, sardinha marinada, cabrito no bafo, joelho de porco à pururuca, angu com frutos do mar, pastel de angu com recheio de ovo, torresmo e bacon, iscas de fígado bovino, músculo ou mocotó com mandioca (aipim, para os mais chatos...), frango a passaralho (isto é, puxado ao alho), entre outros acepipes.

Enfim, as possibilidades são infinitas. E tudo isso servido em porções faraônicas que se come a dois ou três, sentado em tímidas mesas ou em pé mesmo, escornado com os totovelos no balcão, disputando espaço com as moscas azuladas de estimação da casa. Mas jamais cometa a gafe (imperdoável, diga-se) de pedir a "carta de vinhos" no botequim. Corre o risco de ser corrido dali aos pescoções a bem do bom andamento do serviço e da paz local.

No boteco, a bebida por excelência é a cerveja, servida de preferencia nas diversas gradações de temperatura conhecidas popularmente como "véu de noiva", "estupidamente gelada" ou "cu da foca". No caso do chope, noblesse oblige, manda a boa tradição que se instrua ao garçom pelo menos a espessura desejada do colarinho, servido em caneca ou tulipa, de acordo com o hábito do lugar.

No mais, são aceitos o conhaque barato, a cachaça de boa extração (não se esqueça neste caso de derramar no chão algum "para o santo", como prescrevem a etiqueta e superstição dos bebuns...) ou o traçado (vermute tinto com cachaça). Uísque não é muito recomendável. Neste campo raramente se acha algo cujo sabor não o remeta a uma estranha mistura de mertiolate com metanol.

Reza a lenda que a origem do botequim remonta às tascas espanholas ou bodegas portuguesas sendo que essas últimas eram pequenos armazéns no final do século passado, onde se vendia um pouco de tudo, de remédios a produtos alimentícios. Os clientes iam para as bodegas, faziam suas compras, tomavam umas e outras e colocavam o papo em dia. Logo alguns proprietários começaram a oferecer alguns petiscos a seus clientes, uma vez que não ficava bem aos gentis senhores da época frequentarem bares, tascas ou assemelhados.

A idéia pegou tanto que mesmo quando não faziam compras, as bodegas se tornaram uma alternativa e se converteram em ponto de encontro de "homens de familia" que ali diariamente paravam para saber das novas e tomar uma para "matar o bicho". As bodegas alastraram-se pelas cidades, notadamente no Rio de Janeiro, então capital federal, desaguando mais tarde no conceito do boteco, muito embora a palavra botequim tenha advindo de "botica", neste caso as antecessoras das farmácias.

Popularizados sob a gestão de proprietários portugueses, os lusitanos introduziram em seu cardápio iguarias da terrinha como os tremoços, o bolinho de bacalhau, a linguiçinha, os caldos, as sardinhas fritas e, por que não dizer, os famosos ovos cozidos coloridos que fizeram fama e folclore desses lugares. Hoje, verdadeira instituição nacional, há botecos e botequins de todos os tipos e configurações: o chique, o conceitual, os falsos - elegantes e caros -, o pé sujo, o autêntico, etc, etc...

Enfim, há botecos para todos os gostos e bolsos. Em qualquer esquina, beco, travessa ou rua você encontrará um que atenda a sua necessidade. E vida longa à república livre do botequim. Evoé, Baco...!

(fotos reprodução

quinta-feira, 1 de março de 2012

PERY, PARA SEMPRE, PERY...

Um dos meus cantores favoritos, PeryRibeiro se foi no último dia 24 em plena ressaca de carnaval, aos 74 anos de um enfarto fulminante, em Niterói. Filho de dois grandes nomes da MPB dos anos 40 e 50, a eterna diva Dalva de Oliveira e do compositor Herivelto Martins.

Pery Oliveira Martins, seu nome de batismo, nasceu no Rio de Janeiro em outubro de 1937 e iniciou sua carreira artística aos três anos de idade, participando da dublagem de filmes de Walt Disney, ao lado de sua mãe Dalva de Oliveira, que interpretava Branca de Neve, o pequeno Pery dava a voz ao anão Dengoso.

Em 1941, com quatro anos de idade, apresentou-se no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Aos 5 anos, em 1942, participou de “It’s All True”, o filme inacabado de Orson Welles, escrito e dirigido por Orson e filmado no Brasil, durante o período da Campanha de Boa Vizinhança dos EUA com os países aliados na 2a. Guerra. Atuou, em 1944, no filme "Berlim na batucada", de Luís de Barros.

Mais tarde nos anos 50, passou a adotar o nome artístico de Pery Ribeiro, por sugestão do radialista César de Alencar. O primeiro disco foi gravado em 1960 mesmo ano em que estreou como compositor com a música "Não Devo Insistir", com Dora Lopes. Em 1961, foi o intérprete de "Manhã de Carnaval" e "Samba de Orfeu", ambas de Luis Bonfá e Antono Maria.

Pery gravou a primeira versão comercial da canção "Garota de Ipanema" sucesso em todo o mundo, além de 12 discos dedicados à Bossa Nova. A partir da década de 70, desenvolveu trabalhos mais jazzísticos, ao lado de Leny Andrade viajando pelo México e Estados unidos, onde atuou também ao lado do conjunto de Sérgio Mendes


Entre os 50 troféus e 12 prêmios que ganhou, estão o troféu Roquette Pinto, o Troféu Chico Viola e o troféu Impeensa. Foi apresentador de programas de televisão e participou de alguns filmes no cinema nacional. Tinha seis irmãos (quatro por parte de pai, um de pai e mãe, e uma irmã adotiva, por parte de mãe). Foi um grande admirador da obra artística de seus pais, e através deles conseguiu se decidir e apreciar a música, seguindo a carreira de cantor.

Por muitos anos alternou residência engtre sua casa em Miami e um apartamento no Rio de Janeiro, retornando em 2011 definitivamente para o Brasil. Em 2006, Pery Ribeiro lançou o livro “Minhas duas Estrelas”, pela editora Globo, escrito com a colaboração da sua esposa, onde conta como foi sua vida em meio ao conturbado relacionamento dos pais Dalva de Oliveira e Herivelto Martins. Com o prefácio de Ruy Castro, o livro vem sendo aclamado como um dos marcos da literatura sobre a vida de artistas brasileiros.

Desde o início do ano, Pery Ribeiro encontrava-se internado num hospital em Niterói para tratamento de uma endocardite. Faleceu aos 74 anos de idade.

(foto reprodução)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O CHITLIN´ CIRCUIT

O Chitlin´circuit era o nome de um circuito onde se apresentavam artistas negros para um público também de negros. Na sua maioria pobres, criado quando a segregação racial atingia seu auge por obra e graça da lei Jim Crow nos anos 30 e 40, que proibia o acesso e convívio entre brancos e negros em locais públicos, principalmente no Sul dos EUA.

Na realidade, o tal circuito teve origem ainda no final do século 19 e durou até meados dos anos 60 do século 20, como uma alternativa viável de sobrevivência para músicos, comediantes, atores e performers negros.

Incluiam night clubs, bares, cafés, restaurantes e espeluncas de beira de estrada, os honky tonk. O termo chitlin´ deriva de chitterlings (ou intestinos de porco fervidos), comida dos negros escravos americanos e que depois se tornou a base alimentar da população negra pobre do sul dos EUA.

Historicamente, Baltimore foi a primeira cidade do chitlin´circuit que depois espalhou-se por todo o sul, derivando para o leste do Texas, daí subindo para Chicago e Detroit através do Deep South (Alabama, Mississippi, Missouri), até atingir Nova Iorque. Teatros famosos dessa época são o Royal Peacock in Atlanta; o Carver Theatre em Birmingham, Alabama; o Cotton Club,o Small´s Paradise e o Apollo Theatre em Nova Iorque.

Outros eram o Robert´s Show Lounge, o Club DeLisa e o Regal Theatre em Chicago. O Howard Theatre em Washington, D.C., o Uptown Theatre na Philadelphia, o Royal Theatre em Baltimore, o Fox Theatre em Detroit, o Victory Grill em Austin, Texas, o Hippodrome Theatre em Richmond, Virginia e o Ritz Theatre em Jacksonville, Florida, eram casas bem concorridas no circuito.

O vibrafonista Lionel Hampton no Memphis´Hippodrome, 1955.


O chitlin´circuit foi de fundamental importância para a divulgação do blues, jazz, do R&B e qualuer manifestação da arte negra americana. Artistas do porte de Count Basie, George Benson, Cab Calloway, Ray Charles , Dorothy Dandridge, Sammy Davis Jr., Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Jackson 5, Aretha Franklin, Jimi Hendrix, Billie Holyday, John Lee Hooker, Lena Horne, Etta James, B. B. King, Gladys Knight & The Pips, Wilson Pickett, Otis Redding, Little Richard, Smokey Robinson, Ike & Tina Turner, The Four Tops, The Supremes, The Temptations, Tammi Terrell, Muddy Waters e tantos outros fizeram seus nomes no chitlin´circuit.

Com a campanha pelos direitos dos negros americanos no meio da década de 60, e consequentemente o acesso a áreas públicas comuns, o chitlin´circuit foi caindo em desuso, mas ainda chegou a ser usado por algumas estrelas do rock em ascensão. Hoje é apenas uma vaga lembrança de um tempo de resistência da raça negra.

(fotos reprodução)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ÍCONES DA MÚSICA...

Steely Dan -

"Steely Dan é uma banda americana de jazz fusion centrada na dupla Walter Becker e Donald Fagen. O grupo ganhou popularidade nos anos 70, quando fez sete álbuns juntando elementos do jazz, rock, funk, R&B e pop. Inicialmente no rock, suas canções absorviam complexas estruturas e harmonias com influências do jazz.

O nome da banda se refere a um livro de William Burroughs. Além de Fagen (piano, teclados e vocal) e Becker (baixo e guitarra), a banda original tinha Denny Dias (guitarra), Jeff ¨Skunk" Baxter (guitarra e percussão), Jim Hodder (bateria) e David Palmer (vocal). O grupo fez turnês de 1972 a 1974, mas de 1975 a 1980 se retirou dos palcos para trabalhar unicamente em estúdio.
Depois de uma pausa que durou até 1993, e atendendo a pedidos, Fagen e Becker voltaram a se reunir e a se apresentar nos EUA, lançando um disco Alive In America em 1994. Em 2000, a dupla lançou Two Against Nature, primeiro disco com inéditas em 20 anos, ganhando quatro Grammys em 2001.

Can´t Buy a Thrill (1972)

Produzido por Gary Katz nos estúdios da ABC, o álbum de estréia, Can't Buy A Thrill, foi lançado em 1972, causando uma imediata impressão com os hits "Do It Again" e "Dirty Work", cantados por Palmer, e "Reeling In The Years", que apresenta um aclamado solo de guitarra de Elliott Randall.



Devido à relutância de Donald Fagen em cantar, David Palmer assumiu a maioria dos vocais no palco. O baterista Jim Hodder também cantou em uma faixa: "Midnight Cruiser". Palmer, irritado com o perfeccionismo de Fagen e Becker, deixou a banda durante a gravação do segundo álbum e foi trabalhar com Carole King, com quem escreveu o hit Jazzman.

Countdown to Ecstasy (1973)

O segundo álbum foi Countdown to Ecstasy (1973). Seguindo a mesma linha de Can't Buy A Thrill, foi gravado em meio a turnês, trazendo clássicos como "Show-Biz Kids", "My Old School" e "Bodhisattva".

Pretzel Logic (1974)

O Steely Dan manteve-se em evidência com seu terceiro LP, Pretzel Logic, no início de 1974, produzindo um outro grande hit, "Rikki Don't Lose That Number" - que foi direto para o Top Ten dos EUA.

Pretzel Logic também tem a única canção de um outro compositor - uma canção de Duke Ellington: "East St Louis Toodle-oo". A faixa título e "Any Major Dude Will Tell You" também se tornaram favoritas dos fans. Durante a turnê de lançamento do álbum, a banda passou a contar com um jovem baterista, Jeff Porcaro (mais tarde membro do Toto), que na época trabalhava com a dupla Sonny e Cher. Outro que chegou foi o cantor e tecladista Michael McDonald.

O álbum também marca a primeira vez que Walter Becker faz algumas inserções de guitarras nas canções do Steely Dan. A decisão de Fagen e Becker de deixar de lado as turnês para se concentrarem em trabalhos em estúdio gerou um racha na banda. Descontentes, Baxter (cada vez mais envolvido com os Doobie Brothers e Hooder caíram fora. Michael McDonald (que também foi para os Doobie Brothers posteriormente) e Denny Dias ainda iriam continuar nas sessões de estúdio dos álbuns seguintes.(1975)

Katy Lied (1975)

No LP de 1975, Katy Lied, o duo usou um grupo diversificado de músicos, incluindo Porcaro e McDonald, bem como o Elliott Randall, os saxofonistas Phil Woods Wilton Felder, o vibrafonista Victor Feldman, o tecladista Michael Omartiam e o guitarrista Larry Carlton Os destaques são "Black Friday", "Bad Sneakers", "Rose Darling", "Dr. Wu" e "Chain Lightning".

The Royal Scam (1976)

The Royal Scam foi realizado em 1976 e é considerado o disco mais dirigido à guitarra que o grupo produziu, em parte pela colaboração do guitarrista Larry Carlton. Outra presença importante é o lendário baterista Bernard "Pretty" Purdie. Destacam-se no álbum "Kid Charlemagne", "The Fez" (na qual o tecladista e jornalista Paul Griffin tem uma rara co-autoria). Também populares são "Don't Take Me Alive", "Sign in Stranger", "Haitian Divorce", "Caves of Altamira" e a suingadíssima "Green Earrings". Este também foi um disco no qual Fagen (que cantou) e Becker pouco tocaram seus instrumentos, dedicando-se à produção, composições e arranjos.

Aja (1977)

O sexto LP, Aja (1977), teve Becker e Fagen usando os serviços de músicos top de linha do jazz, jazz-rock e da soul music, incluindo Larry Carlton, o saxofonista Wayne Shorter, os bateristas Steve Gadd, Rick Marota e Bernard "Pretty" Purdie e o baixista Chuck Rayney além de Denny Dias. Aja é considerado o mais requintado álbum da banda e, de fato, um dos melhores discos de todos os tempos. Ironicamente, um disco recheado de jazz tornou-se um clássico do rock.


O premiadíssimo Aja atingiu o Top Five dos EUA, e vendeu 1 milhão de cópias graças a canções como "Peg" (com o proeminente backing vocal de Michael McDonald), "Josie" e "Deacon Blues". O LP consolidou a reputação da dupla Becker e Fagen como compositores e reafirmou o seu perfeccionismo dentro do estúdio. A história de Aja foi documentada em um episódio de TV e lançada em DVD pela série Classic Albums. Depois do sucesso do disco, o duo contribuiu com a canção "FM" para a trilha do filme de mesmo nome. O filme foi um fracasso, mas a canção foi um grande sucesso.

Gaucho (1980)

Becker e Fagen passaram 1978 fora de cena, antes começaram a escrever canções para o novo trabalho, que seria marcado por problemas técnicos, legais, pessoais e que culminariam na interrupção de uma parceira de muitos anos. Em março de 1979, a ABC (gravadora do Steely Dan) foi vendida para a MCA e pelos próximos dois anos a dupla teve problemas contratuais que dificultaram a gravação do álbum.

Becker e Fagen planejaram deixar a ABC pela Warner Brothers, onde queriam realizar o trabalho, mas a MCA declarou-se proprietária do material já gravado e impediu-os de levá-lo para outro estúdio. A primeira faixa gravada foi The Second Arrangement, da qual Becker e Fagen ficaram muito orgulhosos. Mas numa noite, um engenheiro de som apagou acidentalmente uma fração da faixa gravada e os produtores do disco nada puderam fazer. No outro dia, ao ser notificado, Fagen simplesmente saiu caminhando do estúdio sem dizer uma palavra. As tentativas de regravar o som foram frustrantes e a canção foi abandonada.

Mais problemas não faltaram. A namorada de Becker na época, Karen Stanley, foi encontrada morta no apartamento que dividiam. Becker sofreu acusações mas foi absolvido. Também teve problemas com álcool e drogas e, pouco tempo depois, ao atravessar uma rua em Manhattan, foi atropelado por um táxi, quebrando a perna direita em várias partes, sendo obrigado a usar muletas por um tempo.

Na mesma época, O compositor de jazz Keith Jarret recorreu a justiça dizendo que faixa título do novo disco era baseada em uma de suas composições, intitulada "Long As You Know You're Living Yours". Fagen admitiu que havia se apaixonado pela canção e ela o teria influenciado fortemente. Jarret acabou ganhando a co-autoria, assim como os direitos comerciais da canção. Gaucho foi finalmente concluído e lançado em novembro de 1980. Apesar dos problemas, o disco foi o maior sucesso e "Hey Nineteen" chegou ao topo das paradas. Em 1981, Becker e fagenanunciaram a suspensão de sua parceria.

E segue a história

Em 1982, Fagen lançou seu disco solo The Nightfly, juntando material não-utilizado nos dois álbuns anteriores do Steely Dan e um cover de Leiber e Stoller, "Ruby Baby". Depois ficou sem gravar por vários anos. Ocasionalmente, assim como Becker, produziu trabalhos de outros artistas.

Dois eventos contribuíram para uma possível volta do Steely Dan. O primeiro foi em 1991, quando Becker participou do concerto com a então banda New York Rock and Soul Revue fundada por Fagen e pela produtora e cantora Libby Titus (mais tarde esposa de Fagen). O segundo evento foi a a presença de Becker como produtor segundo ábum solo de Fagen, Kamakiriad, em 1993. Fagen nominou-o como a mais sofisticada experiência em sua carreira. Retornando o favor, Fagen co-produziu o único disco solo de Becker, 11 Tracks of Whack (1994).

Em 1993, a MCA lançou Citizen Steely Dan uma caixa que reúne os 7 álbuns da banda, o single FM (1978), mais as faixas Here at the Western World (lançada em uma coletânea em 1978), e as inéditas "Bodhisattva" (ao vivo, 1974) e uma versão de "Everyone's Gone to the Movies" (1971).

Alive In America (1994)

Estes eventos conduziram finalmente à reativação da banda. A excursão norte-americana em 1993 para apoiar o álbum de Fagen (que vendeu pouco, embora os concertos tivessem bom público). Com Becker na guitarra, eles reuniram uma banda que incluiu um tecladista, um baterista, um baixista, três vocalistas e uma seção de sopro. Viajaram com grande aclamação de 1993 a 1996 executando canções antigas da banda e canções de álbuns solo. Alive in America registra gravações de vários concertos.(2000)

Two Against Nature (2000)

Em 2000, eles lançaram o primeiro álbum de estúdio em vinte anos, Two Against Nature. Mais do que um rotorno, o CD foi um dos sucessos e a surpresa do ano. No verão de 2000, eles caíram na estrada para outra excursão nos EUA seguida por uma excursão internacional. Em 2001 de fevereiro, o CD ganhou quatro Prêmios Grammy.(2003)

Everything Must Go (2003)

Em 2003, o Steely Dan lançou um novo álbum, Everything Must Go, e fez nova turnê pela América. Depois de anos, Walter Becker assumiu todos os baixos do disco e algumas guitarras. Em 2006, a banda promoveu a turnê Steelyard "Sugartooth" McDan and The Fab-Originees.com Tour, com a participação de Michael McDonald. Os shows ajudaram a divulgar o ótimo álbum solo de Fagen, Morph the Cat, lançado em 2006. A turnê de 2007 se chamava Heavy Roller Tour, nome inspirado em um trecho da canção Gaucho".

(fotos reprodução/texto Wikipédia)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

OUTRAS FUMAÇAS...

Há algum tempo tenho o costume de degustar um charuto ao menos uma vez por semana. Muito embora tenha feito a escalada tabagística ao contrário - isto é, iniciei nos charutos ainda bem moço, passei para o cachimbo e terminei no cigarro, mau hábito que deixei há 14 anos. Mas, talvez por causa disso, alguns parentes e amigos mais próximos me considerem um expert na matéria. Nada mais falso, apenas aprecio ocasionalmente um bom charuto e o faço normalmente sozinho, nao gosto de ostentação.

Já tive os meus dias de Cohibas, Romeos y Julietas, Montecristos ou Partagas, muito antes de se tornar moda e aparecerem "especialistas" cheios de normas e regras, que tiram toda a graça e a espontaneidade do simples ato de se fumar um bom charuto. Ok, reconheço que o modismo e o aumento da renda da classe média brasileira na última década disponibilizou marcas de preços até então proibitivos - caso dos "puros cubanos" - ao mesmo tempo que melhorou substancialmente a qualidade dos produtos nacionais. Também o aparecimento de tabacarias com pessoal especializado ajudou a popularizar o hábito de fumar charutos, coisa que felizmente parece ser irreversível.

Deixando de lado os modismos e os tiques dos deslumbrados, degustar um bom charuto é de uma simplicidade franciscana. Mas que exige um mínimo de conhecimento, como tudo no mundo. Portanto, para quem se inicia na "nobre arte" o mínimo que se necessita saber para aproveitar bem um bom charuto é o seguinte:

Capa: fundamental na escolha de um charuto. Feita de uma ou mais folhas de tabaco, deve ter uma aparência lisa, viçosa, levemente brilhante. Atenção para rachaduras e fissuras na capa, indica charuto já velho ou de qualidade inferior. Se tiver alguns buraquinhos, dispense imediatamente: o "impuro" está contaminado pela lasioderma serricone, mal que pode ser detectado por um pequeno pó que sai da cabeça do charuto (a parte arredondada).

Enchimento (filler):
charutos, em última análise, nada mais são que folhas de tabaco previamente tratadas, fermentadas e enroladas à mão (de preferência) ou industrialmente. O que interessa saber é se são long fillers (enchimento feito com folhas inteiras de tabaco) ou short fillers, estes últimos preenchidos com sobras picotadas ou não dos charutos long fillers. É o que vai dar sabor e "alma" ao seu charuto.

Bitolas: é o comprimento versus diâmetro do charuto. Hoje existem um sem número de bitolas que atendem a todos os gostos, felizmente. Mas basicamente o que o iniciante deve conhecer são as tradicionais:

Churchill - com o o nome indica é uma homenagem ao ex-primeiro ministro inglês, fã incondicional do charuto. É uma peça grande, tem em média de 18 a 20 cm de comprimento por cerca de 2 cm de diâmetro. Leva em média uma hora ou pouco mais para ser consumido com calma. Preferido de muitos antigos charuteiros.

Double Corona - Quase do mesmo tamanho do Churhill, varia de 16 a 18 cm, com 1,9 cm em média de diãmetro. Normalmente de sabor suave.

Corona - Minha bitola de preferência. Mede em média de 13 a 16 cm, com diâmetro variando em torno de 1,8 cm. Leva uns bons 40 minutos de puro prazer.

Robusto - Variam entre 12 e 14 cm por 2 cm de diâmetro. Normalmente são de sabor mais encorpado, mas há exceções. Excelente para após as refeições, duram em média de 45 a 50
minutos.

Graduado: - Bitola bem próxima do Corona, diferencia-se pelo diâmetro em torno de 2 cm.

Claro está que as dicas acima são mais do que básicas e, por charutos serem feitos à mão - pelo menos as marcas melhores - os tamanhos e diâmetros podem variar. Existem outras denominações: panatelas, belicosos, compactos, pirâmides ou torpedos, e por aí vai. Mas isso é coisa que o iniciante vai descobrindo aos poucos, à medida que vai conhecendo melhor o fascinante mundo dos charutos.

Pois bem, você escolheu seu charuto e chegou a hora de acender o bicho. O que fazer ? Esqueça as firulas a vamos para o básico, novamente. Primeiro o corte: mantenha a guilhotina firme (cortador) e corte a uns 3 mm da cabeça do charuto (a ponta arredondada, lembre-se...)- normalmente no limite do acabamento da folha e da cabeça. Mas cuidado ! Se cortar demais a capa começará a se soltar. Se de menos, a "puxada" não será boa. Com o tempo, pega-se a manha com facilidade.

Para acender use um palito de fósforos longo, ou melhor, um corriqueiro isqueiro a gás (JAMAIS um desses a fluido como o laureado Zippo ou assemelhados). Mantenha a ponta do charuto a uns 5 a 7 cm de distância da chama. Gire seu charuto lentamente próximo à chama, sem sugá-lo, até que ele queime uma parte. Leve-o à boca e puxe suavemente até formar a primeira parte da brasa. Daí em diante o charuto queima fácil, se for um de boa procedência.

Deixe-o queimar bem, dando "puxadas" de 20 em 20 segundos em média. Verifique sempre a brasa até ela queimar por inteiro na ponta. Lembre-se que em charutos, assim como nos cachimbos, não se traga. Charutos pedem introspecção e desfrute bem devagar. Normalmente um charuto "fala" ao que veio a partir do segundo terço do seu comprimento, mas isso não é regra absoluta. Aliás, se falando em charutos nada é...

Um dos segredos do bom charuto é sua queima e isso se vê pela cinza. O bom charuto tem uma cinza clara, regular e de aparência estriada, ao contrário dos inferiores que são mais escuras e em flocos. Ao contrário da crença popular, charutos de alta qualidade (premium) seguram pouco as cinzas, em média coisa de 3 a 5 cm antes de cair. Mas há quem se habitue a segurar ao máximo a cinza do charuto (eu, por exemplo)...

Charutos são diferentes de cigarros, não se traga em absoluto. Existem os que apreciam inalá-lo e soltar pelo nariz, e isso não se traduz em falta de etiqueta, apenas é questão de hábito. Nisso, a "puxada" é fundamental. Normalmente se puxa a cada 25 ou 30 segundos, mas aí é questão de costume. A fumaça - de preferencia, densa e de bom fluxo - deve percorrer a boca e ser expelida em pequenos halos. Há quem goste de fazer anéis de fumaça, nada contra. O sabor residual que persiste na boca é que vai determinar seu grau de satisfação.

Há quem tenha paladar treinado (não é o meu caso) para identificar traços de couro, madeira, café, terra úmida, noz moscada, óleos essencias, etc. Honestamente, só consigo sentir se é mais apimentado, suave, encorpado ou não. Isso em charutos normais, não consumo aqueles artificialmente flavorizados, que considero de baixa qualidade.

Enfim, para quem começa desaconselho charutos cubanos ou dominicanos, sem dúvida os melhores. Mas há muitos nacionais que não fazem feio numa faixa de preço que varia de 14 a 20 reais e que atendem à perfeição aos desejos dos iniciantes. Pessoalmente, dos nacionais gosto muito do Dona Flor, Alonso Menendez, Da Matta, Danneman e Diógenes Puentes, sempre na bitola Corona. Muitos deles superam em qualidade de construção e sabor a muitos cubanos que degustei anteriormente. E, além do mais, ninguém vai se dar ao trabalho de falsificá-los, como é comum nos "puros" cubanos.

Mas aí é questão de escolha pessoal. Boas fumaças...!

(fotos reprodução internet)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

ELEGIA À BAIXA GASTRONOMIA...

Há uns bons anos que deixei de ir a restaurantes estrelados, desses que depois de duas horas de congestionamento de trânsito, paga-se uma nota pelo estacionamento, espera-se uma hora em pé ou mais por um lugar numa mesa apertada para comer porções mínimas de uma comida estranha que aparenta ser um monumento ao movimento expressionista e cujas porções são tão pequenas, suficientes somente para alimentar um canário belga.

Muitas vezes saí desses lugares me sentindo depenado no meu rico dinheirinho, com uma vontade enorme de parar numa trattoria ou num rodízio de carnes para matar realmente a fome. Alguns mais deslumbrados com a cultura da haute cuisine (seja lá o que isso signifique) me dirão que, antes de mais nada, isso é o preço (salgado, diga-se) a pagar por uma "experiência gastronômica". Pois bem, que fiquem com ela.

A verdade é que hoje em dia come-se mal. E paga-se muito. Esquecem os senhores restauranteurs que o que interessa, ao fim e ao cabo, é a satisfação do seu cliente e não atender à sua vaidade pessoal ou ao ego inflamado dos "chefs", que é como se chamam hoje os cozinheiros de antigamente. Descontado o trivial variado do dia a dia, comer, antes de mais nada, requer atração pela aventura, requer entrega total, abandono.

Cozinheiros existem em qualquer lugar, variam somente o gosto e a matéria prima. Já vi neguinho metido a gastrônomo recuar horrorizado frente a uma maniçoba paraense, um pato no tucupi, picadinho de muçuã (pequena tartaruga amazônica).

Ou a um barreado paranaense, uma moqueca baiana nadando em azeite de dendê, um sarapatel bem salteado na pimenta, ou até a uma prosaica sopa paraguaia (prato típico do Mato Grosso, que na verdade é uma torta). Ora, ora, dirão alguns, isso aí também já é exagero, comida de degredados ...

Ah, é ? E o que dirão os de estômagos mais sensíveris ao saber que no Japão, por exemplo, se come sashimi feito com o peixe ainda vivo ? Ou no Laos que se serve barata (não batata) frita ? Na Argélia se serve gafanhotos na brasa, um must ao cair da tarde. No Alasca, território americano, remember..., os nativos lambem os beiços com intestinos cru de foca. Na Noruega, língua e bochecha de bacalhau é a pedida. No México, fritada de grilos. Sem falar no Vietnã, onde se come qualquer coisa que ande, nade, voe ou rasteje. E a coisa por aí vai...

Portugal, nosso avôzinho, é um manancial de surpresas quando o assunto é "boa mesa". Dispense as obviedades à base de bacalhau ou as sardinhas na brasa, batatas ao murro e quejandos. Delicie-se com o menos trivial jaquinzinhos e pitingas (pequenos peixes fritos que se comem inteiros, com cabeça e tudo e às bateladas, a exemplo da pratiqueira paraense...), os pipis - nada mais que fígados e moelas de galinha com um molho pra lá de especial -, ou as bifanas, pão com bife de porco.

Segundo o jornalista e escritor Ruy Castro - meu consultor gastronômico ao escrever este post no seu artigo "Viagens ao redor do estômago" - há "algo de transcendental no porco português que não se consegue explicar".

E ele segue sugerindo pezinhos de porco à coentrada (pé de porco cozido ao molho de coentro, incluindo as unhas do bicho, ressalte-se), sandes de coirato (sanduíche de pão com couro de porco grelhado em chapa quente).

Ou os túbaros de porco (testículos do animal guisados e servidos em pires, cortados aos cubos). Ainda segundo Ruy Castro, há outras opções além do porco nas tascas portuguesas. Uma seria as caracoletas, aqueles caracóis comuns de jardim, servidos com palitinhos para cutucar o bicho.

Mas, o autor recomenda cuidado ao pedir um prato em Portugal. Bobó de camarão é um perigo, bobó em terras lusas significa boquete. E moqueca pode ser confundido com queca, isto é, "dar uma rapidinha". Portanto, todo cuidado é pouco devido às dificuldades naturais da língua ( se me permitem o trocadlho infame...).

Hoje em dia prefiro a simplicidade de restaurantes comuns feito para gente comum, como eu e você. Nada de lugares da moda, onde vão para ver e serem vistos, ou tirar uma de descolados. Assim, quando quero massas vou a uma trattoria, pizza a uma pizzaria, carne somente em grills ou churrascarias, peixes e crustáceos em especializados em frutos do mar e por aí vai. Claro, existem os "temáticos", mas desses passo longe. Só não me dou bem com restaurante japonês. Lugar onde a comida vem crua e o guardanapo cozido não é para meu bico....

Bon apéttit...!

(fotos reprodução)

sábado, 21 de janeiro de 2012

O NÉCTAR DA DEUSA...

Conheci a beberagem quando morei nos sul dos EUA, há priscas eras atrás. É uma espécie de licor feito originalmente de uma mistura de bourbon, baunilha, limão, canela, alho, cerejas, suco de laranja e mel.

Um coquetel infernal, servido aos incautos numa graduação alcoólica de 50 % em volume.

Reza a lenda que foi criado por um barman chamado Martin Wilkes Heron, em 1874 numa tal McCauley´s Tavern localizada no French Quartier, New Orleans. Com o passar dos anos e caindo no gosto popular, a bebida hoje é apresentada em várias versões mais palatáveis e com menos graduação alcoólica.

Serve como base para alguns coquetéis americanos populares como o Alabama Slammer, ou o Scarlett O´Hara, este último uma clara alusão ao lançamento do filme E o Vento Levou (Gone With Wind), em 1939.

Dizem que era o drink favorito de Janis Joplin, pelo menos nos seus primeiros anos de bebedeira. Tomava hectolitros, antes, durante e após suas apresentações. Talvez por ser um grande fã de Janis Joplin isso tenha me chamado a atenção.

Mas não me caiu muito bem ao gosto. Talvez por que não seja muito chegado a licores ou o tal Conforto Sulista tenha um sabor muito exótico para o meu paladar, não me "confortando" tanto assim.

Mas há quem aprecie. Eu, não.

(fotos reprodução)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

QUEM SE LEMBRA DE....

Marie Laforêt... ?

Nascida com o nome de Maïténa Marie Brigitte Doumenach, em 05 de outubro de 1939 em Soulac-sur-Mer, Maïténa ingressou no mundo artístico em 1959, quando foi levada às pressas para uma rádio para substituir a irmã num concurso de novos talentos chamado "Naissance d'une étoile" e ganhou.

No mesmo ano o diretor Louis Malle estava procurando uma jovem para atuar no seu novo projeto, "Liberté". E como Marie se enquadrava perfeitamente no perfil da personagem que estava procurando, ele a escalou para o papel, mas complicações nos bastidores fizeram com que ela desistisse do filme por outro chamado "O Sol Por Testemunha" (Plein Soleil). A película foi a primeira adaptação do livro "O Talentoso Ripley", da escritora Patricia Highsmith e ainda hoje é considerada a melhor versão da obra.

Como a sua performance anterior havia sido muito elogiada, ela foi convidada para estrelar o filme "Saint Tropez Blues". No longa ela interpretou a canção que deu título ao filme. Logo os produtores perceberam que ela tinha talento também para a música. Seu primeiro hit "Les Vendanges de l'Amour", foi um sucesso na época porque suas canções elaboradas por grandes letristas como André Popp e Pierre Cour representavam uma espécie de alternativa ao rock que havia invadido a França desde o final da década de 50.



Suas canções tinham um tom intimista e arranjos sofisticados que criavam uma variedade de sons ora medievais e barrocos, ora modernos, mas sua gravadora queria que suas canções fossem mais simples e alegres para torná-la uma artista pop como seu contemporâneo Johnny Hallyday. Ela tinha potencial para isso e foi assim que Marie Laforet enveredou pelo Folk Rock no final da década de 60.

Para se adaptar as novas tendências,começou interpretando algumas canções do Bob Dylan (aliás foi ela quem o popularizou na França ao cantar Blowin 'in the Wind, em francês) e Simon e Garfunkel. Mas, apesar de ela ter se ajustado ao novo gênero foi com as canções dos compositores Francis Lai, Michel Jourdan e André Popp que ela entrou para a história, dando um tom próprio para cada composição. Jourdam disse uma vez que quando Laforet cantava uma de suas músicas parecia que cada palavra tinha sido feita para ela e aquilo a ufanava.

Em 1978, não podendo mais conciliar sua estética pessoal com as exigências da sua gravadora, decidiu se afastar da carreira musical e mudar-se para Genebra, onde vive até hoje. No mesmo ano, ela inaugurou uma Galeria de Arte na mesma cidade. Na vida pessoal Marie Laforet é mãe da também atriz Lisa Azuelos.

(Texto Luziangela Lima/Foto reprodução)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A ERA DE OURO DOS FESTIVAIS DA CANÇÃO...

A coroação da MPB.

"Houve um momento em que o Brasil inteiro cantava. Nas escolas, nas ruas, campos e construções. Geraldo Vandré ainda não havia sequer rascunhado os versos em que falaria de flores, mas o país caminhava, dançando conforme a música. Eram sambas, marchinhas, bossas, modas de viola. Até iê-iê-iê se assoviava.

Nem o golpe militar de 1964, que mal havia mostrado todos os dentes, parecia capaz de estancar o ânimo dos brasileiros para a cantoria. As melodias ocupavam bares, teatros, o rádio e a televisão. Nas grandes cidades, onde a força da TV já se impunha, o povo se dividia entre “disparados” e “bandidos”, os fiéis torcedores daquilo que realmente importava: “A Banda” ou “Disparada”. Qual canção merecia vencer? Era outubro de 1966, e o júri convocado pela TV Record, temendo uma tragédia, decidiu pelo empate.



Venceu Chico Buarque de Holanda com “A Banda”, cantada por Nara Leão. Venceram também Geraldo Vandré e Théo de Barros com “Disparada”, interpretada por Jair Rodrigues. Mais que uma disputa, foi uma festa – e com trilha sonora da melhor qualidade. A cultura dos festivais da canção se consolidava naquela final, tão eletrizante quanto justa. Começava ali um novo ciclo da música brasileira, cujo apogeu criativo se daria no ano seguinte.

Em 1967 entrou em vigor a Lei de Segurança Nacional, em que a ditadura militar apertava o cerco sobre o país – entre os crimes previstos estava o de “guerra psicológica”, no qual poderiam ser enquadrados aqueles que discordassem publicamente do governo. Mesmo assim, uma safra raríssima de compositores e intérpretes não se intimidou.



Foi à TV em outubro defender com sangue, suor e lágrimas um repertório capaz de mudar o país. “Ponteio”, “Domingo no Parque”, “Roda Viva” e “Alegria, Alegria” foram as quatro primeiras colocadas em um festival que chegou ao fim com Roberto Carlos na quinta posição.

Ainda hoje, a força daquele momento reverbera nas canções que o tempo não cala. Mas, se parece inimaginável que Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Edu Lobo possam competir entre si, o fato é que 40 anos atrás isso aconteceu. Foi exatamente assim que nasceu a MPB.

Da TV para o disco

É verdade que a sigla para “música popular brasileira” já existia àquela altura. Ela batizava inclusive o grupo que acompanhou Chico Buarque em “Roda Viva” e outras canções, o MPB-4. Só que as três letrinhas serviam para abreviar um baita nomão, que soma dez sílabas e que era usado indistintamente para todo tipo de música cantada no país, da chula dos pampas ao baião nordestino. Tudo o que não fosse erudito era música popular brasileira.

A chegada da geração de compositores da qual hoje fez parte até um ministro da Cultura, Gilberto Gil, deu outro significado àquela sigla. Produto de seu tempo, a MPB se depurou intuitivamente a partir da convergência dos vários elementos sonoros que perpassavam todo o cancioneiro nacional. Até que virou um gênero autônomo.

Ao contrário de significar qualquer coisa, a MPB tornou-se, na segunda metade dos anos 60, um estilo bem definido em termos de música e letra. Uma sonoridade tão identificada com a cultura popular que pôde tomar esse nome emprestado. Tão além do regional que fez sucesso em todo o país. Era música. Era popular. Era brasileira. E foi legitimada junto ao público graças ao sucesso das canções apresentadas nos festivais de 1966 e 1967.

Com eles, em vez de chegar ao público pelo rádio, a música entrava na casa das pessoas pela TV, e só depois pelo disco. Junto com cada nova canção vinha a imagem de uma época: Elis Regina com seus braços ensandecidos subindo e descendo enquanto ela cantava “Arrastão”; os Mutantes em figurino psicodélico.


Sérgio Ricardo e sua famosa “violada” no auditório. Aquilo era excitante, transgressor.

Mesmo que o termo tenha ficado datado, a forma da MPB urdida naqueles festivais dura até hoje. Que outra nomenclatura poderia servir à obra de Djavan, à de Lenine ou à de Chico César? O que eles fazem, ainda que a partir de influências distintas, é MPB, e deriva em grande parte daquele som que se cristalizou nos bastidores da TV Record em fins dos anos 60. Disso não há dúvida.

O que pouca gente sabe, contudo, é que quem nos presenteou com a invenção da MPB foi Solano Ribeiro, o homem por trás dos festivais e que com eles se confunde. Sua vida está contada na autobiografia "Prepare seu Coração". O livro explica, entre outras coisas, como a TV foi fundamental para que o Brasil conhecesse o melhor de sua música. Mais ou menos o oposto do que ocorre hoje.

O maior Ibope

A televisão abriu espaço para a música porque ela dava audiência, como já havia ficado claro em programas como Brasil 60, apresentado por Bibi Ferreira na Excelsior, e O Fino da Bossa, com Elis Regina, na Record – o maior sucesso da TV naquela época. Mas o casamento, mesmo por interesse, foi feliz. A música, da velha à jovem guarda, conseguiu ocupar seu espaço na telinha. Isso ficaria ainda mais evidente quando o produtor Solano Ribeiro, que trabalhava na Excelsior, teve a idéia de reproduzir a fórmula já consagrada na Itália pelo Festival de San Remo, do qual Roberto Carlos havia sido vencedor, em 1968, com “Canzone per Te”.

Ao contrário do italiano, o festival de Solano não teria qualquer participação das gravadoras ou editoras de música. “Minha estratégia era colocar no mercado uma porção de músicas, cantores, cantoras e conjuntos musicais, e as gravadoras que se servissem, de acordo com a sua agilidade e competência”, recorda Solano. Bastou essa sacada para renovar radicalmente a música brasileira.

O festival era a grande oportunidade para que novos talentos pudessem “se vender”. Mas sua contribuição para a música foi bem maior. A TV, querendo ou não, virou a plataforma de lançamento da tropicália, que jamais teria feito o barulho que fez se ficasse longe das câmeras. Por mais que Caetano e Gil tenham entrado para a história como criadores daquele movimento, o tropicalismo não existiria sem algumas das cabeças que trabalhavam nos bastidores dos festivais, entre elas o próprio Solano Ribeiro, além dos maestros Júlio Medaglia e Rogério Duprat.

Foi Solano quem deu um empurrãozinho para que Caetano compusesse “Alegria, Alegria”, como ele mesmo recorda: “Eu tinha uma visão clara da música no Brasil e no mundo. O rock dos Beatles e dos Rolling Stones estava aí. Por outro lado, vi que a música brasileira precisava sair do binômio mar/campo. A juventude estava ligada no mundo urbano, até nas cidades do interior do Brasil, onde havia vida universitária. Percebi que a música precisava de temática urbana”, diz. “Em um encontro com Caetano, falei para ele que era preciso inventar uma nova estética.



Dias depois o Guilherme Araújo, que o empresariava, apareceu e disse: ‘Meu querido, você não acredita. O Caetano fez uma música sensacional, coerente com tudo o que você disse. O nome é "Alegria, Alegria’”. O refrão, que indaga “Por que não? Por que não?” foi o ponto de partida para o que viria depois. Mas o choque que a canção representou começava logo nos primeiros acordes, escritos pelo maestro Júlio Medaglia. “A grande surpresa no arranjo de ‘Alegria, Alegria’ era o fato de ser uma marcha-rancho bem convencional tocada por instrumentos eletrônicos”, explica o maestro. “Quando o Caetano entrou com aquelas guitarras elétricas, o público vaiou imediatamente. Só que no decorrer da música ele convenceu – e acabou aplaudido.”

O mesmo não aconteceu no festival do ano seguinte, quando Caetano apresentou “É Proibido Proibir” e foi vaiado do começo ao fim. “O Caetano foi vanguarda”, afirma Júlio Medaglia. “Sua postura no festival de 1968 representou uma tomada de posição importantíssima. O tropicalismo significava uma abertura para todos os tipos de linguagens, de idéias e de componentes não-musicais que integrariam a música brasileira a partir dali.

E a ala mais reacionária, inclusive dos estudantes, estranhou aquilo tudo. Esse reacionarismo fora do comum deu ainda mais força para o movimento, a ponto de o Caetano encerrar sua apresentação com aquele discurso tão contundente, resumido na frase ‘"e vocês forem para política como são para estética nós estamos feitos!’”

Ainda que as grandes controvérsias, inclusive no palco, tenham eclodido no festival de 1968, que durou dois meses, entre novembro e dezembro, o de 1967 permanece cotado como o mais importante do ponto de vista musical. As canções nele apresentadas continuam no gosto popular, e a audiência da Record ainda é a maior de todos os tempos: com 97 pontos no Ibope, a final entrou para o Guiness Book e nunca mais foi superada.

A participação de Solano Ribeiro e Júlio Medaglia na definição do que viria a ser a MPB não se limitou a encorajar Caetano Veloso para que hasteasse a bandeira tropicalista. Junto com os demais jurados dos festivais, coube a eles fazer a triagem do que merecia espaço na TV e o que deveria ficar de fora. A pré-seleção das canções inscritas foi feita na edícula da casa em que Júlio Medaglia morava com os pais, num pequeno espaço transformado em estúdio. “Naquele quartinho é que nós fazíamos as análises. Ninguém sabia que a gente estava lá. O assédio em relação ao júri do festival era tão grande que só dessa forma nós podíamos trabalhar sossegados”, afirma Júlio, recordando que seu pai costumava servir caipirinhas para animar os trabalhos.

Os jurados eram, entre outros, Décio Pignatari, Augusto de Campos, Roberto Corte Real, César Camargo Mariano e Amílton Godoy, “gente de primeiríssima qualidade”, como diz o maestro. Com milhares de canções para ouvir, essa turma teve o mérito de fazer uma seleção inquestionável. Claro que muita gente chiou por ter sido descartada – e a Record, considerando o apelo dos que se diziam injustiçados, fez um festival só com os desclassificados. Um dia após as canções dos “sem festival” terem sido apresentadas, o Jornal da Tarde estampou na capa a manchete definitiva: “O júri tinha razão”. Quase 40 anos depois, o veredicto continua valendo."

(texto Celso Masson/Aventuras na História/vídeos reprodução)