quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O WOODSTOCK BRASILEIRO...

"Nelson Rodrigues diria o seguinte: “Dez anos, amigos, não são dez dias!” Portanto, todos os descontos devem ser dados a “Ritmo Alucinante” (1975), filme-registro do longínquo festival de rock realizado no campo do Botafogo, sob o patrocínio dos cigarros Hollywood, em fevereiro de 1975.

Quase dez anos exatos antes do primeiro Rock in Rio (janeiro de 85) colocar milhares de pessoas assistindo a dezenas de shows nacionais e estrangeiros, o modesto festival de 75 não poderia ser mais improvisado: somente artistas nacionais, um espaço pequeno encravado na Zona Sul do Rio, e uma sensação de heroísmo no ar, do tempo em que Rita Lee dizia que “roqueiro brasileiro tinha cara de bandido”.


Bandidos ou não, lá estavam a própria Rita, na flor dos 27 anos – com o grupo Tutti Frutti –, a banda Vímana (de Ritchie, Lobão e Lulu Santos, quase imberbes), Erasmo Carlos, Celly Campello, O Peso e, finalizando, Raul Seixas, em uma performance espetacular.

As lendas que envolvem a preparação e execução do projeto são inúmeras. Nos quatro sábados em que durou o espetáculo aconteceu de quase tudo: um desabamento no palco, uma chuva torrencial e, principalmente, o longo e heróico discurso de Raul a favor da Sociedade Alternativa, em pleno governo autoritário do general Ernesto Geisel.

Grande parte disso foi registrada no filme e está pronta a ser apreciada. Uma óbvia inspiração de “Woodstock” – o documentário de Michael Wadleigh, feito seis anos antes – é evidente, e a chuva deve ter contribuído ainda mais para que o ouriço fosse lembrado. Mas não se iludam: o que “Ritmo Alucinante” mostra é a luta comovente de jovens do terceiro mundo, em um país fechado e paranóico, na tentativa de respirarem vida e criarem uma cultura única, de referências globais mas com o sabor de coisa local, bem brasileira.

Essa questão acentua-se nas entrevistas que permeiam os números musicais, quando Scarlet Moon (futura esposa de um dos músicos presentes, Lulu Santos), conversa com os artistas e busca contextualizá-los para o espectador. Erasmo Carlos, por exemplo, surge reclamando da censura, de chapéu negro e cabelos compridos, sentado no meio do campo da Rua General Severiano. Logo depois Celly Campello está ao lado dele, ainda com um ar jovial de boa moça, contando um pouco da sua carreira para uma atenta (e também muito mocinha) Scarlet.

A parte principal é ocupada pelas apresentações: Rita Lee aparece como um Ziggy Stardust renascido, inclusive nos trejeitos; o Peso e Vímana estão na sintonia do público; e Celly e Erasmo não ficam mal em roupagem setentista. Mas quase tudo parece uma preparação para Raul Seixas – quando o filme termina apoteótico.

Somente por adendo, algumas fontes citam que o Terço e os Mutantes (de Sérgio Dias) se apresentaram, mas eles não são mostrados – ao menos não na antiqüíssima versão lançada em Vhs que possuo. Uma boa razão para isso pode ter sido a chuva, que espantou técnicos e público do local no segundo sábado de shows – e que quase fez com que a continuação na semana seguinte fosse cancelada.

Dirigido por Marcelo França, realizado com duas câmeras (uma fixa e outra em movimento) e imagem muito granulada, “Ritmo Alucinante” talvez seja o mais importante registro do rock brasileiro nos anos 70. Depois maiores e menores festivais vieram até que, em 1985, o país entrasse definitivamente na rota mundial deles. Só que os tempos eram outros e não coube ao cinema, mas à televisão, registrar o momento histórico.

E sob a perspectiva de 2011, quando o Brasil exporta seu know-how na realização de mega-eventos e até os Rolling Stones se apresentam em plena Praia de Copacabana, vale a pena lembrarmos da época em que – no bairro vizinho, Botafogo – tudo foi tão mais difícil e incerto. Graças ao faro documental de alguns, a história começava a ser contada, para deleite dos sortudos presentes e das futuras gerações."

(
Texto de Andrea Ormond, publicado originalmente em Estranho Encontro)

(fotos reprodução)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

SOL DE PRIMAVERA, CHEIRO DE MATO



Nada demais, não. Só uma maravilhosa manhã de primavera, e uma imensa alegria por sentir feliz e confortável comigo mesmo. Uma pequena celebração à vida, "Cheiro de Mato", com a Fátima Guedes. Só isso...

terça-feira, 4 de outubro de 2011

COMFORT FOOD...

Mais uma vez o conceito vem dos EUA: comfort food, que numa tradução livre pode ser resumida como "comida confortável". Nada mais é que aquele tipo de comida preparada tradicionalmente, com um enorme apelo nostálgico ou sentimental. Ou algo que nos remeta a um dado de uma cultura específica.

O conceito é antigo, remonta ao final dos anos 70 e vem de encontro aos modismos da chamada "haute cuisine" e a ditadura de celebrados chefs. Também serve de contraponto para a sensaboria do fast food, ou a cultura da comidinha light que grassou no mundo nas últimas décadas.

Pois, basicamente, a comfort food é aquela comida farta, saborosa, facilmente comestível, agradável à visão e de consistência macia. Se você pensou naquela feita pela mamãe ou vovó nos doces anos da infância, bingo ! acertou em cheio. Comfort food é isso aí, na sua melhor versão.

Mas como quase tudo na vida se resume a business, já há algum tempo alguns renomados chefs de cuisine, principalmente americanos, tem pesquisado as raizes da cozinha local e investido mais neste nicho de mercado, apresentando a comfort food sob uma roupagem mais elaborada onde se ressalta maior cuidado na preparação, a apresentação dos pratos tradicionais e a utilização de ingredientes orgânicos frescos. Mas, (com o perdão do trocadilho infame) como não existem refeições grátis, a preços bem mais elevados.

Mas nem tudo são flores no campo da comfort food. Americanos tem tempo, dinheiro e disposição para pesquisar essas coisas e algumas mais recentes a apontam como uma das grandes vilãs da síndrome de obesidade que acomete atualmente os americanos. Mas, teorias e pesquisas à parte, quem resiste a um bom arroz com feijão soltinho e bem temperado, uma boa canja de galinha, carne de sol com mandioca (ou aipim, ou macacheira, depende da região...), frango com polenta (ou quiabo, que adoro...!), macarrão ao alho e óleo, ao sugo, a bolonhesa, seja lá o que for ? E o que falar de uma baba de moça, um quindim, pudim de leite, bombas de chocolate ? E por aí vai...

E você, qual é a comida que o conforta ?

(foto reprodução)

domingo, 2 de outubro de 2011

FELLINI NA SUA MELHOR FORMA...

"Noites de Cabíria" (1957) é um filme extraordinariamente belo e humano. Se tivesse sido o único filme realizado por Fellini, seria suficiente para provar sua genialidade. É uma obra-prima do início ao fim e um dos melhores filmes já produzidos em todos os tempos.

Além de contar com a magistral direção de Fellini, o papel principal é interpretado pela fabulosa Giulietta Masina, na época esposa de Fellini. Ela dá um show de interpretação. Com seus olhos graúdos e suas expressões faciais, ela consegue transmitir tanta emoção que não precisaria dizer uma só palavra.

Cabiria é uma prostituta que leva uma vida simples em sua casa de um quarto nos arredores de Roma na era pós-guerra. Um dia, quando ela passeia toda feliz com um namorado, às margens do Tibre, este a ataca a a joga no rio, fugindo em seguida com sua bolsa contendo 40.000 liras. Ela é salva por alguns garotos locais e, ao recobrar a consciência, corre para sua modesta casa sem querer aceitar a idéia de que seu namorado a tenha realmente roubado.

Ingênua, ela sonha com o amor perfeito e acredita na bondade das pessoas. Embora tenha seu mundo de fantasias, ela se apercebe da necessidade de voltar 'à vida' que a sustenta. Assim, ela volta à Via Veneto, onde os clientes são de uma melhor classe. Lá, ela presencia uma briga entre o ator de cinema italiano, Alberto Lazzari, e sua bela namorada.

Quando esta vai embora, ela é convidada a entrar no carro de Lazzari e, quando se dá conta, verifica que se encontra na mansão do ator. Em sua ingenuidade, ela logo pensa que ele vai passar a cuidar dela. Entretanto, pouco depois, a namorada de Lazzari chega à mansão e ela é obrigada a passar a noite trancada no banheiro, com o cachorro dele, olhando o casal através do buraco da fechadura.

No dia seguinte, ela se junta a um grupo de prostitutas e cafetões, numa romaria aos subúrbios de Roma, onde dizem que o rosto de Nossa Senhora tem aparecido. Depois, perambulando pelas ruas, ela vai ter a um show de variedades. Lá, é hipnotizada por um mágico que a faz acreditar que ela se encontra em companhia de um homem que a ama profundamente e que vai cuidar dela pro resto de sua vida. Entretanto, ao sair do estado de hipnose, é ridicularizada pelos presentes e se sente mais uma vez enganada.

Um dia, Cabíria conhece Oscar, um contador, que lhe declara amor com tanta veemência que ela não pode recusar seus avanços. Ele passa a cortejá-la de tal forma que ela se convence do seu verdadeiro amor. A ingênua Cabíria abre seu coração, contando-lhe todo o seu passado, depois do que ele lhe propõe casamento. Ela, então, vende tudo o que tem, inclusive sua casa, fecha sua conta bancária e pega um ônibus para se encontrar com Oscar. Os dois caminham através de um bosque, onde Oscar se transforma num outro homem, que a enganou apenas com o intuito de roubar tudo o que ela tinha.



Ao sair, sozinha, do bosque, ela caminha por uma estrada, completamente desolada e arruinada. Entretanto, quando um grupo de alegres adolescentes, a caminho de um festival, a encontram, vê-se um sorriso de esperança iluminar seu rosto, pois, acima de tudo, ela é uma eterna otimista. "

(fotos reprodução/sinopse 70 Anos de Cinema)