quinta-feira, 30 de junho de 2011

CRUZANDO OS EUA...(4)

Sábado, acordamos no final da manhã com o sol forte invadindo o interior da Camper. Foi só o tempo de fazer a higiene pessoal, engolir um rápido café e botar novamente os carros na estrada. Louise inicialmente planejava descer até Roswell, aquela cidadezinha perdida no sul do Novo México onde dizem que caiu um OVNI com alguns ocupantes alienígenas, em julho de 1947. Mas parece que a noite passada a fez mudar de planos e ela resolve seguir até o Arizona, onde pretende fotografar o Painted Desert (Deserto Pintado), um parque natural na região fronteiriça ao Novo México.

Temos então coisa de uns 600 km pela frente até a fronteira com o Arizona. Reabasteço o Mazda (US$ 1,61 o galão, um abuso!) e almoço um magro sanduíche frio acompanhado de um horroroso refrigerante chamado Mountain Dew, uma porcaria feita de essência de cereja. Minhas parcas finanças são então drenadas em mais 28 dólares, me deixando agora restrito a somente US$ 72. Uma ninharia, eu sei, mas é o que tenho.

Perdi ao skylane do Texas na noite passada mas não deve ser muito diferente do que vejo agora, grandes extensões de terra e finalmente gado pastando um capim ralo. À distância, pelos longos chifres, parecem ser Texas longhorn, a variedade que fez a fortuna dos barões do gado no final do século 19 e a fama do Velho Oeste.

Aqui e ali também bombas de petróleo, perfurando incessantemente o solo. Mais adiante, uma termoelétrica alimentada a diesel, com seus cones característicos encimados por eternas nuvens cativas da condensação do calor. Li em algum lugar que 82% da energia gerada nos EUA é feita por termoelétricas, 12% por usinas nucleares e somente 6% por hidrelétricas, o que explica em parte a tremenda dependência deste país do petróleo importado, apesar de ser um dos maiores produtores de óleo do mundo !

Avançamos tarde adentro, ultrapassando Albuquerque e só aí me dei conta que desde o Oklahoma estávamos sobre o antigo leito da famosa Route 66, a estrada-mãe, ou aquilo que dela sobrou no que agora chamam de Historic Route 66. Construída em 1926, ligando Chicago a Los Angeles e com uma extensão total de 3.940 Km, cruzava os estados de Illinois, Missouri, Kansas, Oklahoma, Texas, Novo México, Arizona e Califórnia.

Esta era a principal rota leste-oeste e que durante os anos da Grande Depressão (1930) foi percorrida por milhares de famílias de agricultores, em busca de trabalho nos campos da Califórnia, vítimas do Dust Bowl, o que gerou até uma expressão, "okies", pois a maioria vinha do estado de Oklahoma.

Esta epopéia foi relatada pelo escritor John Steinbeck no seu livro "As Vinhas da Ira" de 1939, e celebrizada no cinema por Henry Fonda. A estrada também serviu de inspiração para uma longa série televisiva de grande sucesso nos anos 60 , Rota 66, interpretada pela dupla George Maharis e Martin Milner, que a percorriam a bordo de uma Corvette Stingray.

Mas não fui só eu que descobriu que estávamos na Route 66, Louise também. E aí começou o festival de paradas para fotografias, a compra de pequenas bugigangas de recordação, o que atrasava significativamente a viagem. O pior é que após Albuquerque nós entramos numa área de reservas indígenas, o que só complicou ainda mais minha programação pessoal. O fato é que somente chegamos na divisa do Arizona à uma da manhã de domingo, o que quase me levou ao desespero, pois ainda tinha uns bons 600 km até Tucson, meu destino final.

Por fim, acabamos dormindo mais uma vez numa rest area, desta vez em Sanders, às portas do famoso Painted Desert. Amanhã, daqui por diante, seria cada um para seu lado. Louise subiria em busca do Monument Valley em Utah, enquanto eu rumaria direto até Flagstaff e de lá para Phoenix e finalmente Tucson, se tudo corresse bem...

(fotos reprodução)

terça-feira, 28 de junho de 2011

CRUZANDO OS EUA....(3)

Apesar do susto e do imenso cansaço, acordei uma hora e meia depois com a Louise batendo no vidro da janela do Mazda. São cerca de sete e meia da noite, ainda muito claro, e em volta de nós o cenário é de completa desolação: postes quebrados, telhas de zinco, estilhaços de vidro, pedaços de madeira e destroços por todos os lados. Um clima de guerra, com carros de bombeiros, guindastes e guinchos trabalhando a todo vapor, felizmente sem vítimas fatais ou feridos graves.

Faço uma vistoria rigorosa no Mazda e miraculosamente tudo aparenta estar bem. Já na Camper da Louise algumas mossas na lataria da pick-up ficaram como lembranças do vendaval. Vamos então até a cafeteria do posto que funciona precariamente à luz de lampiões. Várias pessoas estão ali reunidas comentando os detalhes do ocorrido. Descobrimos então que estamos no coração do que aqui chamam de "tornado alley" (passagem de tornados, numa tradução livre), uma região meio difusa que sobe do Texas passa pelo centro de Oklahoma e vai se perder nos confins do Kansas e que o auge da estação dos tornados vai de maio a junho. Exatamente onde estamos, na mesma hora e canal!

Apesar da minha pressa - tenho que me apresentar na Bombardier na segunda de manhã - não há muito o que fazer. Temos que esperar o pessoal da Defesa Civil e as autoridades locais limparem a área até liberar como adequadas para o tráfego. Na beira da estrada já se alinha uma fila incalculável de carros e caminhões. Como não há muito o que fazer, aproveito para tomar um banho de água quente na Camper da Louise. Na seqüencia, compro algumas coisinhas na loja de conveniência e improviso para os dois uma massa à bolonhesa, a primeira refeição "decente" nos últimos dias. Ainda há tempo hábil para um pequeno cochilo no pequeno sofá da Camper enquanto Louise se arranja na cama maior.

Por volta das 21:00 horas, já noite fechada, finalmente liberam a estrada. Dou uma checada no Road Atlas e confiro que ainda faltam uns 250 Km até a fronteira do Texas, coisa que dá pra fazer numas três horas em condições normais. Resolvo viajar toda a noite, esperando já estar no Novo México quando chegar a manhã. É um plano meio arriscado com ameaças de outros tornados pelo caminho mas, mesmo a contragosto, Louise resolve me seguir.

Após reabastecermos a Camper, botamos novamente o pé na estrada. Vou fazendo contas, pois só me restam 90 dólares no bolso, descontando as últimas despesas. É só o suficiente para chegar a Tucson se nada de excepcional acontecer nos últimos 1.500 quilômetros da viagem. Como vou sobreviver nos próximos quinze dias é outra história.

Seguimos dentro da noite escura sem maiores sobressaltos somente parando próximo de Amarillo, Texas, para reabastecer a Camper que não faz mais de 400 quilômetros com um tanque de gasolina. Já no Mazda, vou economizando o máximo que posso, minha previsão de reabastecer é somente no Novo México. A viagem rende bem e por volta das quatro da manhã cruzamos o Texas, parando para dormir numa rest area próximo de Tucumcari, Novo México.

Para Louise, nova-iorquina de quatro costados, tudo aqui é wild and exciting, e ela resolve comemorar o fim da "grande aventura noturna" em grande estilo, abrindo uma garrafa de vinho, que divido com ela. Aí, ao longo do papo, o álcool começa a fazer efeito, lá vem as confidências, começam a surgir as fragilidades e vamos unindo nossas carências, desejos e medos e acontece o inevitável. Acabamos nos amando até com uma certa sofreguidão, descontando toda a apreensão e tensão represadas nas últimas horas. O sol nascia e terminamos por dormir abraçadinhos, como dois antigos namorados.

Lá fora o sábado amanhecia e a vida seguia seu curso normal...

(foto reprodução)

domingo, 26 de junho de 2011

CRUZANDO OS EUA...(2)

Acordei na manhã seguinte, quinta feira, já dia claro, após uma noite miserável no banco traseiro do carro. Na rest area (área de descanso) somente uma camionete Dodge Camper me faz companhia. Corro a fazer minhas abluções matinais no único banheiro disponível antes que os viajantes da Camper tomem conta do lugar. Mas, para minha surpresa, há somente um ocupante.

No caso, uma mulher que está às voltas com a bateria da camionete descarregada. Pelo jeito ela exagerou no aquecimento na noite passada e acabou com o restante tentando dar a partida. Vou em seu socorro, fazendo uma "chupeta" (não entendam mal, por favor...) utilizando os cabos corretos de bateria que tenho de reserva no Mazda . Funcionou muito bem e, por garantia, saímos juntos da rest area até o próximo posto de gasolina. Em agradecimento ela insiste em me pagar o breakfast e na penúria que ando qualquer ajuda e economia são bem vindas.

Louise Browning tem uns 30 anos, é nova-iorquina e trabalhava como assistente numa corporação financeira em Wall Street. Com o divórcio, resolveu fazer uma viagem de "auto-conhecimento". Comprou uma camionete Dodge Camper e vem cruzando os States sozinha, tirando um ano sabático enquanto vai consumindo suas economias. Nada mais americano...

Estamos em Forrest City, a uns cinquenta quilômetros depois da fronteira do Tennessee. A Interstate 40 cruza o Arkansas por 457 Km e isto quer dizer que tenho pela frente umas 5 a 6 horas atrás do volante cruzando uma paisagem monótona de imensas retas e planícies a exasperantes 55 ou 60 (88/96 km/h) milhas por hora, que é o máximo que se permite por aqui. Louise me propõe seguirmos juntos, não se sente muito segura na condução da pick-up Dodge depois do destempero desta manhã.

Sem grandes incidentes cruzamos o Arkansas, terra natal de Bill Clinton, após uma breve parada em Forth Smith para reabastecimento e almoço, por volta das 13:00 horas. Continuo contando os centavos uma vez que aqui o combustível é mais caro - 21 dólares para encher o tanque de 52 litros (US$ 1,52 o galão, um roubo!) - e o motor de 2.2oo cc de 115 HP do Mazda 626 queima um litro a cada 12 quilômetros, o que em princípio me dá uma autonomia de uns 620 Km.

Entramos no Oklahoma no meio da tarde e o Road Atlas me conta que teremos ainda 533 Km cortando o estado bem ao meio. Continua a paisagem monótona, plana e retas imensas o que só aumenta meu sono e cansaço. O carro vai literalmente no piloto automático, o rádio tocando baixinho umas músicas country e vou ali cabeceando de sono de vez em quando, os olhos grudados na traseira da Dodge Camper da Louise que segue à frente.

Foi no final da tarde que se deu a quase tragédia. Já estávamos próximos a Oklahoma City quando o tempo subitamente mudou. O horizonte à nossa frente se encheu de nuvens plúmbeas, fomos sacudidos por rajadas violentas de vento. A Dodge da Louise balançava perigosamente de um lado para o outro, enquanto eu sentia dificuldades em manter o Mazda na pista mesmo tendo diminuído a velocidade para umas 40 milhas (65 Km/h). De repente, me dei conta que não havia mais outros carros ou caminhões na auto-estrada, somente Louise e eu lutávamos contra a ventania.

Vi quando ela deu uma guinada no volante e se precipitou para a próxima saída, quase capotando a pick-up, no que a segui imediatamente, tendo enorme dificuldade em controlar o Mazda. O violento vento contrário não me deixava evoluir agora mais do que uns 40 Km/h mesmo tendo reduzido duas marchas manualmente. Com muito esforço alcançamos um posto de gasolina, todo fechado àquela altura por folhas de compensado nas janelas envidraçadas. Paramos junto às bombas de combustível e ainda pude ver a figura de uma mulher dentro da loja de conveniência nos acenando vigorosamente para que saíssemos dali.

Manobramos com dificuldade até o extenso parking lot atrás do posto onde estavam estacionadas duas carretas. A esta altura voavam em volta de nós tudo o que não estava firmemente preso: latões de lixo, restos de placas, pedaços de telhas metálicas, baldes, escovões, etc, tudo evoluindo em meio a uma poeira difusa que subia em círculos. Estacionamos entre as duas carretas, um perigo é claro, mas pelo menos conseguimos diminuir um pouco o efeito devastador da ventania.

Jamais vira em toda minha vida tal manifestação das forças da natureza. Incrédulo e aterrorizado, eu ouvia o som metálico de coisas se chocando contra a baú das carretas, um estrondo atrás do outro. No íntimo, apesar do perigo daquelas carretas desabarem sobre nós, eu me congratulava pela idéia de estacionar ali. Se estivesse em campo aberto não sei o que seria de nós.

Apesar de protegidos, o vento canalizado balançava impiedosamente os dois carros, tornando nossa posição cada vez mais desconfortável. A despeito do medo eu estava exausto, sujo, faminto e sonolento, com os nervos em frangalhos.

Decidi não mais lutar contra a natureza e deixá-la seguir seu fluxo normal. Assim, rendi-me finalmente ao cansaço e caí num sono profundo. Se tivesse que morrer ali seria pelo menos dormindo.

Isso veríamos no dia seguinte...

(fotos reprodução)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

CRUZANDO OS EUA (1)

Atendendo a pedidos, aqui vai mais um trecho extraído dos "Diários do Auto Exílio":

"Saio aos primeiros raios de uma manhã de quarta feira, meados de maio de 2000. Tinha pela frente uns 3.000 km cruzando um trecho da Carolina do Norte e os estados do Tennessee, Arkansas, Oklahoma, Texas, Novo México e finalmente o Arizona.

Como companhia apenas o valente Mazda 626 de antigas andanças e magros 200 dólares no bolso. Era tudo que tinha para cruzar os EUA e ainda me manter por uns 15 dias, até receber meu primeiro salário no novo emprego na Bombardier. Melhor cair logo na estrada, então.

Pego a estadual 25 , cruzando por Hendersonville, já na Carolina do Norte. Lugares muito queridos, tenho andado por aqui tantas vezes que essas estradas já me são tão familiares. Paradinha rápida num posto de gasolina em Asheville (NC) para um breve breakfast com sabor amargo de despedida.

Viajo com um nó na garganta; no fundo há uma sensação de insegurança. É a primeira vez que me lanço realmente no desconhecido, sem o amparo de parentes ou amigos. É um salto no escuro sem direito a rede de proteção. Se errar o pulo, me arrebento por inteiro. Mas são riscos que a gente tem que encarar, portanto nada de melodramas.

Sigo até cruzar a intersecção da Interstate 40 descendo as Smoky Mountais, parte da cadeia dos Montes Apalaches.; do outro lado já é o Tennessee. A paisagem, ainda conhecida, ajuda a combater a sensação de vazio e solidão. Aproveito para apreciar o belo panorama das montanhas e florestas, enquanto a I-40 deflete para oeste, rumo Knoxville.

Tenho agora uns 730 km pela frente, atravessando as três principais cidades do Tennessee, incluindo Nashville e Memphis, terra de Elvis, the Pelvis. É a maior extensão da I-40 num só estado, percorrendo as três Divisões (East, Middle e West), todas geologica e culturalmente bem diferentes.

A East Division, onde estou no momento, é bem influenciada ainda pela cadeia dos Apalaches e dá para notar pelo relevo, composto de pequenos montes cobertos de luxuriante vegetação. É primavera e as árvores aqui se revestem de amarelo, vermelho, branco ou lilás, com uma ou outra casa de fazenda aparecendo em meio ao colorido geral. Simplesmente maravilhoso !

A paisagem vai mudando para uma planície, estou cruzando o Cumberland Plateau, o que denuncia a mudança para a Middle Division, a umas duas horas de Nashville, onde pretendo parar para reabastecimento e almoço.

É o que faço em torno das 12:30, parando num posto de gasolina vagabundo (19 dólares para encher o tanque de gasolina) e um restaurante de beira de estrada. A grana anda curta e o caminho é longo, portanto nada de aventuras gastronômicas. Me contento com um gorduroso prato de salsichas grelhadas, purê de batatas e duas fatias de pão, a módicos 7, 50 dólares. Empurro tudo com a a juda de um copázio de chá gelado e seja lá o que Deus quiser.

De novo na estrada. Este trecho agora da I-40 é conhecido como The Music Highway, uma alusão à "terra do country" Nashville até Memphis, última morada do King Elvis Presley. Chego enfim a Memphis no início da noite, morto de cansado e pouco inclinado a conhecer as delícias etílicas e musicais da terra do country e blues.

Assim, atravesso o silencioso e escuro Rio Mississippi, entrando no estado de Arkansas, terra natal de Bill Clinton. Paro num posto de gasolina, velho conhecido de uma viagem anterior a Blytheville, somente a tempo de comer um hamburguer com fritas e me dirigir a uma rest area ali perto para passar a noite.

Balanço do dia: foram cerca de mil quilômetros e 12 horas atrás do volante, gastei em torno de 40 dólares de meus parcos 200 iniciais entre combustível, comida e cafés. Economia é a palavra de ordem, ainda tenho uns 2.200 quilômetros pela frente, vou me arrumando por aqui mesmo. Motel nem sonhar, deito no banco traseiro do carro em meio à bagagem, puxo o cobertor até as orelhas, me preparando para a longa noite.

Lá em cima tremeluzem as estrelas na noite escura e fria, indiferentes ao mundo dos homens. Amanhã é outro dia, melhor dormir agora.

(fotos reprodução)

domingo, 12 de junho de 2011

DISCOTECA BÁSICA...

Laura Fygi...

Filha de um executivo da Phillips e de mãe egípcia, a holandesa Laura Fygi (nasceu em Amsterdan, em 1955) passou os oito primeiros anos de sua vida no Uruguai. Daí talvez sua identificação com a música latina e em especial com a bossa nova.

De volta à Holanda, já na idade adulta, de 1984 a 1991, Laura fez parte de uma banda de garotas chamada Centerfold, que se apresentavam vestidas apenas de lingerie. A banda fez muito sucesso na Holanda, em partes da Europa e até no Japão.

Mas em 1992, após breve passagem por uma obscura banda chamada The Backlot, Laura Fygi foi convidada a gravar um disco solo chamado Introduction, que tinha como um dos acompanhantes o famoso gaitista holandês Toots Thielemans.

Com forte pegada jazzística, este disco foi o início de uma longa e vitoriosa carreira que ao longo dos anos já flertou com o pop, o jazz, o latino, os grandes standard americanos e a bossa nova. Poliglota, ao contrário das celebradas cantoras americanas, Laura Fygi desfia seu talento naturalmente em idiomas tão distintos como o inglês, o francês, espanhol e português.



No vídeo acima, uma de minhas canções favoritas, That Old Feeling, composição de 1937 da dupla Sammy Fain e Lew Brown, onde Laura Fygi passeia tranquilamente entre o andamento do jazz e a bossa nova com incrível facilidade.

(foto reprodução)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

TRAÍDOS PELO DESEJO...

Pode um filme de baixo orçamento, sem grandes astros nos papéis principais, sem efeitos visuais ou cenas de pancadaria explícita com os brutamontes de plantão se tornar um dos filmes mais comentados entre 1992 e 1993 entre os os mais fiéis cinéfilos?

Pode, se este filme é "The Crying Games" (no Brasil, "Traídos pelo Desejo") e seu diretor o talentoso mas pouco conhecido irlandês Neil Jordan.

Indicado a seis Oscar e vencedor do Melhor Roteiro Original, o grande mérito de "Traídos pelo Desejo" é o de saber contar uma boa história. O filme inicia com o sequestro de um soldado inglês de folga na Irlanda (Jody, papel de Forrest Whitaker) por integrantes do IRA, o exército revolucionário irlandês.

Enquanto aguardam o atendimento de suas exigências pelo governo, Fergus (interpretado pelo excelente Stephen Rea, indicado ao Oscar de melhor Ator) inicia uma espécie de amizade e empatia pelo soldado cativo, sem o conhecimento dos outros sequestradores

Trocam impressões e confidências e Fergus descobre a paixão que Jody nutre por uma namorada cabeleireira que deixara em Londres. O desenlace do sequestro acaba mal, Jody morre quando tentava escapar e Fergus, corroído pela culpa e desencantado com a luta armada, tenta construir uma nova vida trabalhando como operário da construção civil.



Neste meio tempo, ele se aproxima da cabeleireira Dil (magnificamente interpretada por Jaye Davidson) e acabam se apaixonando.
Depois de uma impactante revelação - que afeta a visão de Fergus e da plateia em relação à moça - o passado do rapaz volta para o atrapalhar. Sua ex-colega de luta armada, Judy (protagonizado pela fabulosa Miranda Richardson) vem á sua procura a fim de que ele participe de uma nova missão.

O final é surpreendente, imprevisível até.
Longe de um roteiro água com açúcar hollywoodiano, ou as manjadas cenas de ação de filmes do gênero, Neil Jordan conduz o filme com mão firme e inteligência. As variações do roteiro, as situações inesperadas, tudo ocorre no momento exato e da forma correta. O elenco, afiadíssimo, parece estar no melhor de sua forma. É um filme que não envelheceu com o tempo e que melhora a cada revisita.

Como em todo bom cinema...

(foto reprodução)