quinta-feira, 19 de maio de 2011

QUEM SE LEMBRA DE....

...Wallace Collection ?

"O Wallace Collection pode ser considerado uma pérola da psicodelia brega do final dos anos 60. A banda surgiu na Bélgica e tinha como curiosidade, uma habilidade incrível para mesclar melodias pop com guitarras, passagens jazzísticas e fragmentos de música erudita. Na formação do grupo, dois jovens cuidavam dos violinos e violoncelos, Raymond Vincent e Jacques Hamotte, que eram também membros da Orquestra Filarmônica Belga! O restante do pessoal era Marc Herout (pianista com bagagem Jazz), Sylvain Vanholme na guitarra, Christian Janssen no baixo e Freddy Nieuland na bateria e vocais. Antes de formarem o Wallace, esses garotos já haviam tocado em diversas bandas belgas como o Sylvester’s Team, o 16th Century e o Stradivarius.


Partem para Londres em 1968, onde começam a gravar um disco nos estúdios da EMI, com produção de David Mackay. Durante as sessões, num momento de folga, durante a visita a um museu, adotam o nome Wallace Collection. O nome da estréia em LP é Laughing Cavalier, que junto ao compacto de “Daydream” colocou a banda nas paradas de sucesso em mais de 20 países, inclusive aqui no Brasil, onde o compacto da música foi lançado em 1969, impulsionando até um show dos caras por aqui no Festival Internacional da Canção!


Um concorrido concerto no templo da música erudita inglesa, o Wigmore Hall, deixou a platéia boquiaberta e a reputação do grupo não poderia ser melhor quando lançaram seu segundo álbum, Serenade, que também saiu por aqui em 1970 pela Odeon, com capa sanduíche, mono e com o nome de Wallace Collection.

São convidados para a MIDEM 70, feira anual da indústria fonográfica realizada em Cannes, no sul de França, e mais uma vez arrancam elogios da imprensa e de produtores musicais do mundo inteiro. Na ocasião gravam uma trilha sonora, chamada La Maison.

Um crítico inglês chegou a declarar que o Wallace Collection estava quilômetros à frente de bandas como o Moody Blues, Procol Harum e o Deep Purple, no quesito mescla de rock com música erudita, uma tendência bastante utilizada no final da década de 60.

Apesar de tanta badalação, o grupo sofria bastante com a pressão da gravadora em exigir um outro hit com o mesmo impacto de “Daydream”. Isso foi minando a resistência da banda, que veio a encerrar as suas atividades em 1971. O baterista e vocalista Freddy Nieuland, detinha os direitos de uso do nome, e continuou gravando como Wallace Collection. Raymond Vincent formou o Esperanto, outra banda de sucesso em muitos países. Já Sylvain Vanholme tornou-se um renomado produtor na Bélgica.

(Texto de Bento Araújo/publicado em Poeira Zine no. 4)

terça-feira, 10 de maio de 2011

FRASE DA SEMANA...

"Esta semana beatificamos um papa, casamos um príncipe, fizemos uma cruzada e matamos um mouro. Bem vindos à Idade Média....!"

(foto reprodução)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O DRAMA DE ANGÉLICA....

Tive um tio que era a figura acabada do bon vivant. Solteirão empedernido, amante da boa vida, ganhava o sustento no pano verde, seja na mesa de sinuca, no carteado ou na roleta. Frequentador assíduo tanto dos melhores salões como dos lupanares e prostíbulos de baixa extração da cidade, tinha voz de tenor e uma habilidade inusitada para a música. Multi-instrumentista autodidata, seu "instrumento musical" predileto era o ... serrote, que tocava à perfeição.

Não era muito bem visto pela minha mãe, que abominava aquele estilo de vida, mas como todo bom malandro era um dândi no vestir e um lorde nas maneiras. Bom de papo, tinha um estoque de piadas quase inesgotável. E em certas tardes de domingo quando aparecia para filar o almoço dominical, sacava do serrote e saía com uma de suas canções favoritas.

De tanto ouvir, aprendi de ouvido e recitava com a maior facilidade. Nunca me dei ao trabalho de saber de quem era aquela música tão gozada. Os anos se passaram, meu tio foi assassinado numa roda de poquer quando tentava defender uma pobre prostituta de uma agressão, a vida foi se encaminhando e muitas coisas caíram no esquecimento.

Alguns anos atrás eu ouvi a canção novamente. Minha filha chegou em casa com um CD do grupo satírico gaúcho Tangos & Tragédias. E lá estava a canção... Daí fui descobrir que se tratava do Drama de Angélica, composição de Alvarenga e M.G. Barreto, gravado em 1943 no selo Odeon, sob o curioso epíteto de "canto tétrico" pela dupla caipira Alvarenga e Ranchinho.

O curioso é que, muitos anos antes da muito celebrada música "Construção" de Chico Buarque (1971), Alvarenga já usava o recurso dificilimo de compor as rimas em proparoxítonas, dividindo a obra ainda em quatro atos, como numa peça teatral.



Curtam o vídeo acima- dica do nosso querido Pé de Chumbo - e acompanhem na letra abaixo. Um primor, uma obra de arte da nossa música popular. Nada a ver com pagodinhos insossos e funks cabeludos.

O Drama de Angélica
(Alvarenga/M.G. Barreto)
Ato 1

Ouve meu cântico
Quase sem ritmo
Que a voz de um tísico
Magro esquelético
Poesia ética
Em forma esdrúxula
Feita sem métrica
Com rima rápida

Amei Angélica
Mulher anêmica
De cores pálidas
E gestos tímidos
Era maligna
E tinha ímpetos
De fazer cócegas
No meu esôfago

Em noite frígida
Fomos ao Lírico
Ouvir o músico
Pianista célebre
Soprava o zéfiro
Ventinho úmido
Então Angélica
Ficou asmática

Ato 2

Fomos ao médico
De muita clínica
Com muita prática
E preço módico
Depois do inquérito
Descobre o clínco
Um mal atávico
Mal sifilítico

Mandou-me célere
Comprar noz vômica
E ácido cítrico
Para o seu fígado
O farmacêutico
Mocinho estúpido
Errou na fórmula
Fez despropósito

Não tendo escrúpulo
Deu-me sem rótulo
Ácido fênico
E ácido prússico
Corri mui lépido
Mais de um quilômetro
Num bonde elétrico
De força múltipla

Ato 3

O dia cálido
Deixou-me tépido
Achei Angélica
Já toda trêmula
A terapêutica
Dose alopática
Lhe dei em xícara
De ferro ágate

Tomou num folêgo
Triste e bucólica
Esta estrambólica
Droga fatídica
Caiu no esôfago
Deixou-a lívida
Dando-lhe cólica
E morte trágica

O pai de Angélica
Chefe do tráfego
Homem carnívoro
Ficou perplexo
Por ser estrábico
Usava óculos:
Um vidro côncavo
Outro convexo

Ato 4

Morreu Angélica
De um modo lúgubre
Moléstia crônica
Levou-a ao túmulo
Foi feita a autópsia
Todos os médicos
Foram unânimes
No diagnóstico

Fiz-lhe um sarcófago
Assaz artístico
Todo de mármore
Da cor do ébano
E sobre o túmulo
Uma estatística
Coisa metódica
Como Os Lusíadas

E numa lápide
Paralepípedo
Pus este dístico
Terno e simbólico:
"Cá jaz Angélica
Moça hiperbólica
Beleza helênica
Morreu de cólica!"