terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A VIDA EM DUAS RODAS...

Quem foi adolescente ali pelo final dos anos 60 passou também por um diferente rito de passagem. Além de todas as transformações políticas, culturais e sociais típicas daquela época, essa geração foi a primeira verdadeiramente motorizada no Brasil. Foram os primeiros a desfilar em carros, motonetas ou motos próprias, abrindo mão do "carrinho do papai".

Foi a época também em que começou a invasão das "japonesas", motos de pequena cilindrada conhecidas genericamente como "cinquentinhas", muito embora a capacidade cúbica dos motores pudesse variar de 65 a 90 cc. Essas motos foram o sonho motorizado de muito garotão, substituindo as obsoletas e caretas Lambrettas e Vespas, que mais se adaptavam aos gostos dos "rebeldes" remanescentes dos anos 50, e que já estavam se tornando respeitáveis senhores de família.

Não sei por que cargas d´agua sempre andei na contra mão da história. Falta de dinheiro ou oportunidade, talvez. Assim, minha primeira moto nunca foi e nem jamais me sentei aos comandos de uma "cinquentinha". No capítulo motocicleta, em toda minha vida tive dois exemplares, cada um mais raro que o outro. A primeira foi por mero acaso, obra e graça de um tio jogador inveterado que a ganhou numa mesa de pôquer e que a deixou estacionada em minha casa por vários meses.

Era nada menos que uma BSA A7 Star Twin, hoje uma motocicleta clássica. Bicilíndrica, 500 cc, quatro marchas com mudança no pé direito e freio no esquerdo. Preta, como convinha a uma moto inglesa e detalhe cromado no tanque, ressaltando o logo de fábrica em vermelho. Linda, absolutamente impecável. Mas naquela época, 1969, já soava como uma raridade jurássica frente aquelas mais modernas enceradeiras japonesas que circulavam na cidade nas mãos da moçadinha irresponsável.

No início, foi dificil me entender com a enorme (na época) BSA. Partida no pedal, demandava uma certa técnica ao puxar o afogador, atrasar o ponto da ignição, dar umas pedaladas básicas até o pistão atingir o ponto morto superior. Daí, uma pisada firme no kick starter e rezar para que o motorzão de dois cilindros acordasse na primeira tentativa. Caso contrário, o jeito era se livrar logo do contragolpe na canela, efeito da elevada taxa de compressão que produzia ainda o famoso som que lhe valeu o apelido onomatopaico de "Massachussetts..."

Afora o drama de acionar corretamente o motor, a BSA era só alegria para um moleque de 16 anos. Eu a usava todas as manhãs para ir ao colégio, e depois vagabundear pelas ruas da pequena cidade, azarando a saída das garotas da escola, ou fazendo tipo com os inseparávéis jeans, blusão luvas e botas de couro negro, encimados por uns antigos óculos escuros Ray Ban Aviador.

Perto das esquálidas "cinquentinhas" japonesas, o porte altivo e o pou-pou-pou sincronizado do ronco dos dois cilindros revelavam-se à distância e não demorou muito para que todas as belas meninas do local se candidatassem a uma voltinha pelos arredores, montadas na garupa da BSA, para desespero dos adeptos das pequenas e insossas asiáticas.

Mas a inglesinha tinha lá também suas idiossincrasias. Na estrada era uma delícia, cruzava fácil a 140 Km/h, mas os freios a tambor eram deficientes e nas curvas mais rápidas o temperamento instável da BSA 500 demandava alguma atenção. Tinha o péssimo hábito de assinalar sua passagem com manchas de óleo que vazava abundantemente pelas juntas do motor e câmbio.



Logo me cansei da vida urbana e descobri os prazeres das pequenas viagens, visitando as atrações das cidades interioranas do Planalto Central ou mesmo Brasilia, um dos meus destinos favoritos de fim de semana naqueles tempos.

Para essas incursões mais longas nós usávamos como carro de apoio um valente Jeep Willys 1951, que num futuro bem próximo seria meu primeiro carro. O saco era ter que aguardar as "cinquentinhas" que esgoelavam os motores para andar a meros 90 km/h enquanto eu andava a apenas meio acelerador á mesma velocidade.

Na época, a BSA 500 era somente rivalizada em desempenho na cidade por uma Ducati 250 cc de dois tempos, um furacão italiano impertinente que andava mais que notícia ruim, ou em porte majestático por uma superada Harley Davidson 1949 de três marchas, câmbio manual. E minha despedida da amada BSA se deu por conta de um desses estúpidos pegas desnecessários em que somos pródigos em nos envolver na juventude.

A gente voltava de um fim de semana acampados na Chapada dos Veadeiros (êpa, êpa...) quando caí no canto de sereia do meu amigo dono da Ducatti 250. Nas longas retas que antecediam a chegada a Brasilia resolvemos "puxar o cabo no tapetão", isto é, abrir todo o acelerador no asfalto, a fim de descobrir quem tinha a melhor velocidade final. Fomos juntos por um certo tempo quando senti o motor ameaçando travar.

Foi só o tempo de debrear la machina, quando sentir um leve tranco e o motor morreu de repente, travado. Por muito pouco não levei um chão monumental, com consequencias imprevisíveis. A duras penas, colocamos a BSA na traseira do valente Jeep 51 e na segunda feira a levanos a um mecânico de confiança.Um rápido exame não deixou dúvidas: varetas do comando de válvulas quebradas, para meu desconsolo.

Apesar de todo esforço de meu tio, que me cedera a moto numa espécie de comodato informal, não foi possivel encontrar as benditas varetas para reparar o motor. Vendeu assim mesmo para o mecânico, que a desmontou e manteve o restante como peças de reposição. Voltei assim à minha vida de pedestre, apenas assistindo impotente ao desfile dos antigos companheiros em suas inquebráveis "cinquentinhas".

Mas o vírus da motorização individual já tinha me inoculado. Minha segunda moto - ou a primeira, depende do ponto de vista - só viria dois anos depois, uma pouco conhecida Honda 175 cc bicilindrica, partida elétrica. Aí, é outra história que conto depois...

(foto reprodução)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

BOAS FESTAS...

A todos aqueles que nos acompanharam por todo 2010, meus votos de Boas Festas, e um Feliz e muito próspero Ano Novo, cheio de saúde e pleno de realizações.

Que todos tenhamos o 2011 que merecemos...

(foto reprodução)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

"A UTOPIA DO TANGO"...

"Es (el tango) un pensamiento triste que se baila" - Enrique Santos Discépolo

Ao enlaçar sua parceira na pista de dança, não é a alegria que o move, nem a ele, nem a ela. Os passos felinos e o apuro duvidoso do par anunciam aos presentes um acontecimento quase que metafísico: bailarão um tango!

O dançarino por vezes nem tira o chapéu que lhe vai inclinado na cabeça. Um lenço qualquer lhe envolve o pescoço. Ela, bela, com os cabelos presos, rodopia numa saia justíssima, onde abre-se uma generosa fenda.

O ritmo sincopado e malevolente que escutam ao fundo é de um bandoléon soluçante, de um violino e de um piano. Executam então os dois o mais lascivo dos balés que se conhece. Se a melodia é chorosa, as letras, antigamente cantadas em lunfardo - o latim dos marginais portenhos - são heterogêneas e devastadoras. É a lírica de vidas destroçadas por traições e falsidades, por desilusões e crimes. Mulheres pérfidas e amigos tramposos são o sal da dramaturgia tanguista: - "Mi china fue malvada, mi amigo era un sotreta".

É a estética de um mundo canalha e ressentido. E não é para menos. Filho do lupanar e do boliche, da taverna da periferia de Buenos Aires, o tango nasceu em meio a duelos de garrucha e de punhais, travados nas sombras malditas do subúrbio, que lhe salpicaram os cueiros de pólvora e sangue. Teve como escola as então perigosas barrancas do Rio da Prata com seu intenso tráfico de carnes.

Atribuem-lhe, como à maioria dos bastardos, muitos pais, todos ilegítimos. Resultou ele de um curioso sincretismo: a milonga nativa, argentina pura, misturou-se de malgrado com as cantorias italianas, sicilianas e napolitanas, trazidas pelos milhares de imigrantes peninsulares "invasores", que chegaram a Buenos Aires há bem mais de um século atrás.

Não há entre os argentinos quem não palpite ou divague sobre o tango.
Juan Pablo Echegüe por exemplo só viu sexo nele, um retorço de obscenos. E não está longe da verdade. Afinal os parceiros são uns fingidos. Ele, em trajes de rufião, aparenta protegê-la quando de fato a explora. A bailarina não lhe fica atrás. Simula entregar-se por amor e não por medo.

Para E. Martinez Estrada, o grande ensaísta do Pampa, vê nele apenas automatismo, a robotização dos movimentos. O tango, assegura ele, é um "baile sem expressão, monótono, com o ritmo estilizado de um ajuntamento. Não tem, diferente das demais danças, um significado que fale aos sentidos, com uma linguagem plástica, tão sugestiva, ou que suscite movimentos afins no espirito do espectador, pela alegria, ou entusiasmo.

É um baile sem alma, para autômatos, para as pessoas que renunciaram às complicações da vida mental e se recolhem ao nirvana. É deslizar-se. Baile de pessimismo, ....baile das grande planícies sempre iguais de uma raça esgotada, subjugada, que a percorre sem fim, sem um destino, na eternidade do seu presente que se repete. A melancolia provém dessa repetição, do contraste que resulta ver corpos dois corpos organizados para os movimentos livres submetidos a uma fatídica marcha mecânica de animal maior." (Radiografia de la Pampa, 1933, pag.162)



Já Ernesto Sábato sente profunda candura pelo tango. "É uma sublimação", disse, "uma busca desesperada pelo verdadeiro amor. Nauseados pelo sexo mercenário, pelo proxenetismo descarado que os cerca, homem e mulher encenam, ainda que com arabescos eróticos, o que lhes ocorre ser, na sua imaginação de desesperados, uma autentica e pura paixão". Daí aquela seriedade ensimesmada dos bailarinos: En mi vida tive muchas, muchas minas, pero nunca una mujer!"- eis ai a utopia do tango: encontrar um amor genuíno.

A mistura entre o criollismo e o gringuismo - entre seus inventores encontra-se um Poncio e um Zambonini -, fez com que uns intransigentes, uns xenófobos, negassem sua natureza argentina. Não tinha para eles o aroma saudável do pampa. Ao contrário, o tango transpirava a perfume de mundana, a suor forte, carcerário, do compadrito mal encarado, gente estranha à verdadeira platinidade.

Não foi esta opinião de Jorge Luis Borges para quem a prova mais evidente e irrefutável do argentinismo do tango é que nenhum outro maestro, ou outro músico - em todos os cantos do planeta por onde escutou-se o lamento do seu acordeão - conseguiu despertar o mesmo sentimento que qualquer tanguero platino provoca.

A universalização do tango - imortalizado por Carlos Gardel nos anos vinte, seduzindo os bem-nascidos e chiques que tomaram-no como exemplo de elegância - assemelhou-se ao sucesso da valsa no século 19. Impressionante metamorfose. Como no conto de fadas, o sapo virou príncipe.

A opereta do bordel do arrabalde arrebatou o Teatro Colón. E não só isso! Perante a esta maré montante que faz anos que nos assola, a do rock anglo-saxão - tribal, autista, ensurdecedor -, o tango, tão bem lembrado por Carlos Saura em seu filme Tango (1998), passou a ser a última esperança de um dançar civilizado na cultura ocidental."

(fotos e vídeo reprodução/texto Cultura e Pensamento)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

MOJITO, O CUBANO POR EXCELENCIA...

Cuba, a bela ilha caribenha tomada há cinquenta anos pelos barbudinhos de Fidel Castro, não exportou somente revoluções socialistas. De seus famosos bares Bodeguita Del Medio e o La Floridita, ambos em Havana, saíram dois famosos coquetéis hoje tidos como clássicos: o daiquiri e o mojito.

Do daiquiri já tratamos aqui antes, vamos portanto agora ao mojito, o drinque favorito do escritor americano Ernest Hemingway, que morou por vários anos na ilha.

Como todos os grandes drinques, o mojito tem uma grande história por trás: alguns afirmam ter sido criado pelo corsário inglês Sir FRncias Frake, o primeiro a misturar a tafia (uma espécie de aguardente barata, antecessor do rum) ao açúcar e abrandar o sabor grosseiro com algumas folhas de menta.

Outros historiadores mais sérios creditam a criação da beberagem aos escravos negros do século XIX, trabalhadores das plantações de cana, que misturavam garapa ao rum, forjando assim a base para o futuro coquetel.

O mesmo se dá com o nome do drinque: alguns atribuem ser um derivativo de mojo, um molho apimentado à base de especiarias e suco de lima ou laranja, muito comum nas Antilhas. Outros dizem ser um diminutivo de mojadito (molhadinho em espanhol), mas a origem do nome tem pouca importância.



O fato é que foi na Bodeguita del Medio, bar/restaurante frequentado por artistas e politicos da época, que a receita foi aprimorada. Hemingway, o eterno bufão norte americano, encarregou-se de celebrizar o coquetel mundo afora a ponto de deixar escrito em uma das paredes do bar: "My mojito em La Bodeguita, my Daiquiri em La Floridita...".

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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

VIDA NOTURNA...

Tive a grande sorte de ali pelos meus 17 anos ainda pegar o que se costumava chamar de "boemia", termo amplo que definia um certo estado de espírito ou um estilo de vida exercitado em mesas de bares, boates, inferninhos, onde se celebrava a boa mesa, bebida consumida em quantidades industriais, terreno fértil da boa companhia e, principalmente, grandes mulheres.

Estou me referindo ao que era considerado a boemia saudável, conhecida geralmente como "a noite". Esta era composta de grandes personagens, criaturas típicas criadas no sereno das madrugadas, campo fértil para os malandros de antanho que ganhavam a vida no pano verde, seja no baralho ou na sinuca, sempre na "boa mão", sem violências desnecessárias, depenando os patos de plantão.

Também a noite era feita de flagrantes otários, das femme fatales que provocavam paixões avassaladoras ou meramente passageiras embaladas pela música estilo "dor de cotovelo", celeiro de amores impossíveis e incompreendidos. Para os eternos solitários, havia sempre o consolo do trottoir das mariposas noturnas soltas pelas calçadas, o amor pago de vinte minutos que podia coroar uma noite mal sucedida.



Grandes tempos...! Na noite, músico que se prezasse tocava ao vivo para uma platéia exigente e o mínimo que se esperava era um repertório vasto, eclético e de bom gosto. Quem já ouviu "Ronda", "Eu e a Brisa", "Cadeira Vazia", "Nervos de Aço" e outras do gênero pela enésima vez e já meio adernado para bombordo pelos eflúvios do álcool, agarrado numa bruaca como última bóia de salvação às cinco da manhã num inferninho qualquer, sabe do que estou falando...

Havia os botecos mal afamados mas de boa comida, farta e barata, onde esfaimados notívagos faziam a última boquinha antes de rumarem para casa, os músicos davam uma canja de fim de noite depois das suas funções, malandros e prostitutas velhuscas faziam uma última incursão à espreita de algum incauto perdido na noite e travestis - por que não - ainda em busca viciosa.

Hoje a vida noturna é feita de baladas ou raves movidas ao baticum generalizado da música eletrônica, encontros são fortuitos e resolvidos ali mesmo. A moçada de hoje se embriaga com hectolitros de qualquer coisa, às vezes misturado com energéticos e "substâncias exóticas". Há muita violência nas ruas, o perigo ronda todo o tempo, sempre há um algo de tragédia no ar.

O romance foi pro saco, banalizou-se transmutado em sexo casual, facilitado pelo uso intensivo dos preservativos, pós epidemia de AIDS. Existe a pílula do dia seguinte - de efeitos duvidosos, diga-se pela quantidade de jovens grávidas que pululam por aí. Enfim, melhor ou pior? Não sei, os tempos mudam, às vezes não com a velocidade e o rumo que desejamos.

Perdeu-se, a meu ver, a inocência, o charme dos grandes personagens da noite. Mas, fazer o que, a vida segue em frente e o tempo, implacável, atropela a todos, fortes ou fracos. Só nos resta viver. E se resignar...

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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O ALBINO ENDIABRADO...

Johnny Winter (John Dawson Winter III) nsceu em 1944 em Beaumont, Texas, e desde os dez anosd e idade já se apresentava em shows da TV local em companhia do irmão Edgard Winter. Aos quinze anos gravou seu primeiro disco, intitulado "School Days Blues"

Aos quinze anos gravou seu primeiro single para um selo de Houston, mas nada aconteceu de mais importante, tendo Johnny continuado a tocar nas vizinhanças de Beaumont em companhia do irmão. Sempre fiel ao texas blues com algums pitadas de rock´n roll, em 1968 gravou seu primeiro disco solo, intitulado "The Progressive Blues Experiment".

A sorte grande veio em dezembro de 1968, ao ser convidado por Mike Bloomfield, um dso melhores guitarristas de blues dos EUA - que se encantara com o estilo de Johnny Winter para tocar e cantar numa mega jam session, a ter lugar no famoso Fillmore East, em Nova Iorque. Assistido por produtores da Columbia Records, Johnny seria contratado com o maior adiantamento já pago a um artista naquela época, 600.000 dólares !

Johnny gravaria meses depois com o mesmo grupo base que o acompanharia nos anos seguintes - o baixista Tommy Shannon e o baterista Uncle John Turner, - por várias excursões pelos EUA e Europa, além de festivais como o de Woodstock. Winter palmilhou vários caminhos no largo espectro do blues: eletric blues, blues-rock, rock e suas raízes, o texas blues.



Winter também trilhou o caminho dos músicos de sua época, com largo envolvimento com drogas das quais só conseguiu se ver livre no início dos anos 70. Desde então tem mantido uma produção de discos e shows notáveis, tendo sido considerado um dos 100 mais importantes guitarristas de todos os tempos, pelo ranking da revista Rolling Stone.

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