terça-feira, 23 de novembro de 2010

À MESA, FINAS ARTES...

Americanos médios são conhecidos pelo seu apego ao exagero, o que os torna aos olhos do mundo os arautos da cafonice e do mau gosto. No que tange a comida então, a voz corrente é que se come mal nos EUA. Ledo engano, come-se muito bem na América, questão de saber procurar e ter grana no bolso. Mas também é assim no resto do mundo.

Invariavelmente as criticas vêm daqueles que estão em viagem de férias, cujos destinos pouco diferem das previsíveis Disneyworld, Nova Iorque ou mesmo Las Vegas. E, no meu entender, poucos se dão ao trabalho de procurar uma boa refeição, mais preocupados em gastar seu rico dinheirinho em diversão ou compras. Daí, recorrerem somente a redes de fast food, o que na América recomendo pouco, a menos que você seja viciado em colesterol.

Mesmo neste campo há exceções, existem boas redes que servem pratos de massa (pasta) ou alguns combos interessantes. Pessoalmente gosto do Applebee´s e do Olive Garden, mas o grande lance é descobrir seus próprios favoritos. Tem gente que gosta do Waffle House (que americanos costumam chamar de Awful -terrível, medonho -) House devido sua comida altamente calórica e gordurosa.

Mas ainda é um dos poucos lugares que se pode comer um verdadeiro breakfast americano, com tudo a que se tem direito: ovos, bacon, uma grossa fatia de presunto na chapa, salsichas, dois pães de forma tostados, hashbrowns (batatas raladas e fritas na chapa), um copázio de café ralo e fraco, tudo isso regado a syrup (melado), se for o gosto do freguês. Uma beleza para sérios candidatos a um enfarte. Argh...!!!

Antes de qualquer julgamento precipitado é preciso se ter em conta um componente cultural: na América se preserva o gosto pela quantidade (big is good), enquanto na Europa (ok, na França, principalmente) se cultua o prazer da refeição. Duas abordagens bem diferentes. O que não quer dizer que a cozinha americana seja feita somente de hamburgueres, hot dogs ou tortas de maçã. Descontado os estereótipos pré concebidos ela pode ser muito interessante.

Por ter vivido principalmente no Sul dos EUA gosto muito da comida da Louisiana, talvez por que em alguns momentos se pareça muito com a brasileira. Mas também aqui há algumas restrições. Nada porém de miúdos de porco, lagartos ou carnes de jacaré, como é comum nos bayous (pântanos) da região.

Me contento no âmbito da cozinha creôle ou cajún, destacando-se aí os pratos de frutos do mar ou o gumbo (uma sopa grossa de frutos do mar à base de quiabo) ou o meu favorito de longe, o jambalaya (um tipo de risoto metido a besta, que mistura o arroz a camarões, presunto, carne de frango, linguiça, entre outros componentes), prato que aprendi a fazer e que estou devendo há tempos aos amigos.

Enfim, tudo se resume a uma questão de gosto. E grana no bolso, obviamente...

(fotos reprodução)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

QUEM SE LEMBRA DE....

...Duda Cavalcanti ?

Muitos cronistas da época a consideram a verdadeira Garota de Ipanema. Não aquela que entrou de gaiata na história e fatura até hoje em cima. Duda Cavalcanti foi a precursora daquilo que se convencionou como a mulher liberada do final dos anos 60.

Somente igualada em comportamento e atitude a verdadeiros ícones da república ipanemense como Leila Diniz, Danuza Leão e Vera Barreto Leite.

Dona de uma rara beleza de raízes puramente brasileiras, Duda Cavalcanti celebrizou-se no raiar dos anos 60 como modelo e depois como atriz (Arrastão, 1966, direção Antoine d´Ormesson).

Foi a primeira modelo a participar de um ensaio fotográfico de moda no Brasil, obra do seu namorado da época, o fotógrafo Otto Stupakov, que emprestara um vestido do costureiro paraense e queridinho da "haute couture" tupiniquim, Dener Pamplona de Abreu.

Primeiro ensaio fotográfico de moda no Brasil, 1958.

Edu Lobo e Duda Cavalcanti, Paris, 1966...

Namorou ou foi casada com cineastas, fotógrafos, gente da moda, jornalismo ou cinema. Estabeleceu parâmetros modernos na passarela, foi capa das principais revistas brasileiras e posou para dezenas de editoriais. Encheu o saco da caretice brasileira e se mudou para Paris, onde permaneceu vários anos. Deixou saudades e atrás de si o mito da musa, que ainda hoje perdura quando aparece aqui e ali em eventos de moda.

Quem viu uma vez Duda Cavalcanti, jamais esquece...

(fotos reprodução)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

PARA LULU, COM CARINHO...

Provavelmente vocês nunca ouviram falar da escocesa Marie McDonald McLaughlin Lawrie, mas da popular cantora, compositora e atriz Lulu alguns vão se recordar. Sim, ela mesma que no Brasil - e, vá lá,talvez no resto do mundo - ficou conhecida como a intérprete da açucarada baladinha "To Sir With Love", música tema do filme de mesmo nome.

Na estrada desde os quinze anos (nasceu em 1948), Lulu fez nome ainda no início dos anos 60, chegando a fazer uma turnê em 1966 pela Polônia, abrindo os shows do grupo britânico The Hollies, sendo assim a primeira cantora britânica a se apresentar atrás da então Cortina de Ferro.



No ano seguinte veio a estréia cinematográfica, num papel secundário no filme "Ao Mestre Com Carinho" (To Sir With Love), onde canta o tema principal e que catapultou a carreira do ator negro norte americano Sidney Poitier na Inglaterra. A canção vendeu mais de um milhão de cópias, atingindo o primeiro lugar nas paradas nos EUA e Inglaterra, assegurando a Lulu definitivamente um lugar no cenário pop mundial. A partir daí dividiu sua carreira como cantora de hits pop, atuações em rádio e TV e gravando em duetos com os maiores nomes da música.



Entre elas a notável interpretação de "Cry Me a River" - um clássico da canção popular americana lançado em 1955 por Julie London - gravado com o lendário Jeff Beck no não menos legendário Abbey Road Studios para o projeto "White, Red and Blues". Atenção para o saxofone cheio de veneno de Peter King e o discretíssimo piano de Jon Cleary. Imperdível...!

(vídeos youtube)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A DAMA DE XANGAI...(2)

No final da tarde, amarramos o barco no trapiche em frente ao porto de Soure, em meio a vigilengas amazônicas e barcos locais. E bem na hora, pois a maré começava a mudar, coisa meio complicada já que estamos bem na saída da foz do Rio Amazonas. Por garantia, jogamos mais uma âncora na popa e aproveitamos o resto de luz do dia para acabar a arrumação interna do barco, coisa que parece nunca ter fim.

Porto de Soure, Ilha do Marajó.

Evaldo e a Dama de Xangai resolveram dormir em terra, madame já estava cansada do balanço do veleiro. Improvisamos um jantar com a massa que havia sobrado do almoço, carne de lata e cebolas, mais umas cervejas e fomos dormir. O plano era levantar ferros lá pelas cinco da madrugada, aproveitando a força da maré vazante que aqui por esses lados, devido à sua força, é meio de propulsão.

Mas os planos foram, literalmente, por água abaixo. Sete da manhã, maré já virada para enchente e nada do casal de pombinhos...! Já estávamos resolvidos para abandoná-los em terra quando aparecem na maior cara de pau. Tinham passado boa parte da noite numa animada roda de lundu e carimbó num quiosque ali perto, regados a muito peixe e cerveja. Já puto da vida, Fredinho deu ordem para recolher a âncora, subir os panos e se botar em marcha.

Madame, obviamente ressaqueada da noite atribulada, instalou-se no camarote de proa para um merecido descanso. Má idéia, má idéia. Saímos a pleno motor e vela grande em cima, lutando contra a corrente contrária. O barco corcoveava ao dar de encontro com as pequenas ondas curtas, num mar de "carneirinhos". Abrimos o rumo em direção ao oceano, em busca de águas mais profundas e um navegar mais confortável.

Madame, lá na frente, não estava tendo uma vida fácil. A combinação explosiva do balanço do mar e os excessos etílicos da noite anterior não se fez por esperar. Não demorou muito e a Dama de Xangai começou a pagar o preço da irresponsabilidade, explodindo em crises convulsivas de vômito. Enjôo dos brabos e daqueles que não passam muito facilmente.

No início, madame ainda tentou manter um resto de dignidade usando a toalete de bordo, mas a cada acesso mais frequente começou a vomitar no chão mesmo, dando um trabalhão ao Evaldo que abandonou as funções de convés para se transformar no camareiro particular da indigitada noiva.

Nossa subida da costa amapaense foi dramática. O avanço era lento, o valente veleiro lutando contra ondas e ventos contrários, tempo nublado e sujeito a frequentes pirajás (aguaceiros repentinos), típicos da região. A vida a bordo se tornou um inferno. Ninguém tinha ânimo ou saco para cozinhar, sobrevivíamos de bolachas e biscoitos, barras de chocolate, refrigerantes ou chá frio. Consequentemente, nosso humor não era dos melhores. Uma palavrinha mal dada já seria motivo para um motim a bordo...

Fredinho e eu ficávamos a maior parte do tempo no convés, atentos ao comportamento do barco e fazendo as manobras necessárias, e expostos às intempéries pois o clima e o cheiro do interior do barco estavam insuportáveis. Evaldo encontrava-se inteiramente à disposição da Dama de Xangai, a cada hora mais miserável no seu mareio e insaciável nos seus caprichos de bella donna.

Estávamos bem fora da costa, num mar convulsionado de cor barrenta e debaixo de um céu cinza, sem sinal de terra à vista, a fim de evitar a Corrente das Guianas que descia em sentido contrário. Ventos inconstantes nos forçavam a manobras de vela todo o tempo ou o uso indiscriminado do pequeno motor diesel de centro.

O tempo na maioria das vezes nublado não nos permitia tirar uma reta de altura (cálculo de posição usando o sextante) e navegávamos na base da estimada, isto é, considerando velocidade e rumo, que íamos plotando nas cartas de navegação, dando uma idéia de nossa localização. E assim avançamos dois dias e uma noite, quando nossos cálculos nos posicionavam à altura da Guiana Francesa.

Cansado, famintos e sonolentos, quase sem diesel devido ao uso prolongado do motor, o barco em petição de miséria, o capitão Fredinho tomou a decisão correta: arribamos rumo à Guiana. Prosseguir naquelas condições seria uma temeridade. resolvemos aportar em Degrad de Cannes, porto que eu já conhecia devido minhas "atividades" anteriores na Guiana Francesa. A decisão foi saudada com entusiasmo pela tripulação já bastante judiada pelas condições de mar e vento.

Aportamos em Degrad de Cannes no meio da manhã de segunda feira, próximo ao escritório da imigração e Alfândega. Subimos a bandeira amarela de quarentena e logo uma lancha encostou ao lado. Oficiais da Imigração vieram a bordo conferir nosso papéis. Aí começaram nosso reais problemas. A figura que emergiu do interior do barco não inspirava confiança em ninguém.

Magra, desgrenhada, pele emaciada e vestindo uma surrada camiseta e uma bermuda manchada de vômito, a Dama de Xangai,vítima de dois dias de violento enjôo marinho, nem de longe lembrava a imponência com que pisara nosso convés. E as complicações começaram ali. Na saída, na pressa e urgência de partir, ninguém se deu ao trabalho de conferir a documentação dos dois tripulantes. E o fato é que os dois inconsequentes nem passaportes tinham...

Num lugar conhecido pelo aporte de brasileiros ilegais, aquela situação não passaria em brancas nuvens. Apesar de requerermos um "clearence em trânsito" de 72 horas, medida garantida pelas normas internacionais de navegação, a falta de passaportes dos dois idiotas incidia numa falta grave. Sem apelação, fomos detidos e recolhidos a duas celas na gendarmerie (polícia) local. Depois de uma acareação com o capitão do porto, nos foi concedido o prazo de 24 horas para "repatriar" o casal clandestino.

Como eu já tinha vivido na Guiana, Fredinho ficou retido como "garantia" e eu peguei uma van para Caiena. Lá chegando, procurei o Consulado brasileiro e depois de quase um dia inteiro de chá de cadeira, encontrei um funcionário que - feliz coincidência - era irmão de um meu conhecido em Belém, que providenciou toda a papelada necessária. Passei a noite num hotelzinho vagabundo no centro e embarquei de volta a Degrad de Cannes nas primeiras horas da manhã.

Lá chegando e com a papelada correta, fomos liberados, sob a condição de acompanhar o casal até o aeroporto, juntamente com um funcionário da Imigração. Juntamos nosso dinheiro para comprar as passagens deles de volta e esperamos o avião decolar rumo ao Brasil. Retornamos ao porto, pegamos o barco e subimos até o arquipélago das Îles de Salut (Ilhas da Salvação), ao largo de Kourou, e local da Ilha do Diabo, celebrizada no romance "Papillon".

Arquipélago da salvação, Ilha do Diabo ao fundo, Guiana Francesa.

Ali fizemos uma avaliação geral. Eu não tinha mais tempo nem dinheiro de seguir até Trinidad Tobago, a brincadeira sem graça da deportação voluntária do "casal 20" nos deixara com sérias avarias nas nossas finanças. Também a dureza a bordo naqueles dias quebrara um pouco meu ânimo. Ficamos por ali mais uns dois dias nos recuperando, Fredinho conseguiu um tripulante francês para seguir viagem e eu retornei para Caiena. Juntei o pouco dinheiro que me restara, comprei uma passagem aérea e embarquei de volta para o Brasil.

O Caribe ia ficar para outra oportunidade...

(fotos reprodução)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A DAMA DE XANGAI...(1)

Cinco anos se passaram até eu retornar novamente à Guiana e em condições, digamos, não muito alvissareiras. Na época eu terminava a faculdade e ajudava a tomar conta dos negócios da familia, estava em vias de me casar, enfim, levava uma vida pequeno burguesa perfeitamente enquadrada dentro dos padrões da normalidade, mas um perigo para um espírito inquieto como o meu.

O convite veio quase que meio por acaso, num fim de tarde sentado no bar do iate clube. Meu amigo Fredinho fora contratado para levar um veleiro até Trinidad Tobago e estava precisando de tripulação. Não que eu fosse grande coisa como marinheiro, mas falava inglês e arranhava um portunhol, além de conhecer os rudimentos da arte de velejar. E o convite era tentador, início de julho, férias escolares, os negócios em marcha lenta.

Resolvi me conceder trinta dias de férias e topei a parada. O barco pertencia a um casal já idoso de velejadores suecos. Cansados da longa travessia do Atlântico, eles preferiam seguir de avião até Trinidad Tobago e de lá curtir a temporada no Mar do Caribe, prática meio comum no meio náutico. Nosso trabalho era fazer o delivery do veleiro, são e salvo.

O veleiro era um sueco Hallberg Hassy de 32 pés (9,60 metros) que tinha sofrido alguns reveses na sua vinda pelo Oceano Atlântico e necessitava alguns reparos antes de seguir viagem. O tempo era curto e não tínhamos tempo a perder. Quem já se deu ao trabalho de preparar um barco para uma longa travessia sabe do que estou falando. É uma lista de afazeres que não termina nunca...

Começamos por revisar todo o mastro, passando depois por ferragens de convés, gaiútas (janelas), instalações elétricas e hidráulicas. Aproveitamos e demos uma limpeza no casco já meio cheio de cracas, pintamos novo fundo antiincrustante, revisamos motor e hélice, enfim, uma trabalho braçal que nos consumiu de 12 a 14 horas por uns dez dias. Isso feito, faltava abastecer de víveres o veleiro para a viagem. Mais uns dois dias de compras e acomodação de toda aquela tralha em espaço tão diminuto.

E à medida que carregávamos o veleiro, mais ficava patente a necessidade de um terceiro tripulante. Naquele tempo (1978), antes das maravilhas eletrônicas que hoje campeiam em qualquer área da atuação humana, veleiros se levavam "na mão": nada de GPS, pilotos automáticos, cartas náuticas digitalizadas, radares, enroladores de genoa (velas de proa) e outras facilidades que fazem hoje velejar brincadeira de criança.

Na falta de alguém disponível, tivemos que nos contentar com o Evaldo, um paulista que vivia com uma morena local num velho barco de madeira e sobrevivia de pequenos serviços no iate clube. Evaldo se proclamava marinheiro de mão cheia e costumava se vangloriar de ter trazido a banheira que vivia desde Ubatuba, subindo todo o litoral brasileiro.

De início, parecia a pessoa mais adequada mas tinha um complicador: a morena abusada metida a socialite que se considerava sua noiva, não "permitiria" a viagem do Evaldo, a menos que viesse junto. Escolha de tripulação para travessias oceânicas sempre é um assunto complicado, mas o tempo exíguo e a falta de opções nos forçam às vezes a escolhas precipitadas. Foi o caso.

À primeira vista, não parecia assim tão problemático: como já viviam em um barco, em princípio estavam acostumados a conviver em espaços confinados, a morena poderia ajudar na cozinha e arrumação do veleiro, enquanto Fredinho, Evaldo e eu cuidaríamos da condução do barco até seu destino final. Para complicar, eu também não tinha toda essa experiência e a ajuda de um marinheiro calejado poderia fazer toda a diferença. Aceitamos o fato, não havia muita alternativa.

Os últimos dias foram outra correria para atualizarmos passaportes, pegar vistos e ultimar os preparativos que pareciam nunca ter fim. Mas finalmente numa sexta feira, estávamos prontos para suspender ferros. Mas velejadores são bichos chegados a superstições e uma das mais acreditadas é que NUNCA se parte para uma travessia numa sexta feira. O franceses, por exemplo, são categóricos no assunto: vendredi, jamais...! ! !

Mas o Fredinho, como capitão do barco, foi inflexível. A gente ia zarpar na primeira maré, sem maiores atrasos ou delongas, o tempo urgia. Problemas normalmente são sinalizados com antecedência, mas somos cegos e surdos aos seus avisos. E nos já devíamos ter desconfiado quando a noiva do tal Evaldo apareceu cheia de bagagens, trajando uma canga de praia, chapéu de palha, enormes óculos escuros e em cima de quilométricos sapatos de salto alto. Parecia uma estrela de cinema, saindo para um cruzeiro de fim de semana.

Já foi uma barra convencê-la que ninguém sobe em veleiros de sapatos de salto, no máximo tênis ou docksides, o ideal é descalço mesmo. Contrariada, a "noiva" largou as bagagens ali mesmo no convés para que o pobre do Evaldo se virasse na arrumação lá embaixo. Não satisfeita, fez questão absoluta de se instalar no camarote de proa, aliás o pior lugar para se estar com mar virado. Mas cada um é responsável por suas escolhas, portanto...

Mal humorada, a morena tropicana lançou mão de uma sombrinha multicolorida e foi sentar-se à proa, enquanto Evaldo, Fredinho e eu dávamos início às primeiras manobras do zarpe, deixando a poita e aproveitando a corrente da maré vazante. Com pouco vento, subimos a vela grande e seguimos no motor enquanto o perfil da Cidade velha ia se desenhando ao nosso lado, à medida que deixávamos o Rio Guamá e desembocávamos no Rio Pará.

Eram velhas paisagens já conhecidas da minha querida Belém desde meus tempos de remo, mas que nunca cansava de admirar. O veleiro seguia lento, mas firme debaixo do forte sol amazônico naquele início de tarde. Nosso primeiro destino era Soure, na Ilha do Marajó, onde pretendíamos passar a primeira noite. Fredinho firme na roda de leme, eu tentava regular a vela grande da melhor maneira possível e o Evaldo se esmerava numa massa com atum, nosso almoço de despedida.

E lá na proa, debaixo da sombrinha multicolorida, a "noiva" dava tratos à bola, nos ignorando solenemente. Fredinho, à visão daquela figura insólita e um gozador de primeira, cunhou o apelido pelo qual era seria conhecida durante toda nossa viagem: a Dama de Xangai, numa clara alusão ao filme de Orson Welles, clássico de 1948, com Rita Hayworth no papel principal...

Mas, gozações à parte, assim como a viagem nossos problemas só estavam começando.
O resto conto no próximo post.

(foto reprodução)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

CRÔNICAS GUIANENSES...(final)

Meu idilio com a Marie Noelle foi interrompido pela brusca chegada do Walter, o que prenunciava finalmente minha terceira viagem ao Brasil. Mas dessa vez haveria novidades. Fui muitissimo bem instruído, toda a "operação" seria minha, sem a supervisão do Walter ou do Benoît. E, ao contrário das anteriores, desta vez eu sairia num barco normal carregado de mercadorias até os limites legais das águas guianenses, ou seja a foz do Rio Oiapoque.

Dali a carga foi transbordada para uma vigilenga de bandeira brasileira e descemos toda a costa do Amapá, entrando no Rio Amazonas e daí pelos estreitos do Arquipélago do Marajó, cruzando o Rio Pará até Igarapé Miri, na foz do Baixo Tocantins. Uns bons dois dias de espera num porto clandestino até que a carga foi transferida para o comprador.

Enquanto passavam as mercadorias do barco para os caminhões reconheci centenas de caixas de uísque, milhares de pacotes de cigarros americanos, perfumes franceses .Tudo com os auspícios de Paramaribo, capital do Suriname, e entreposto de velhacarias vindas do Panamá. No final, saí dali com uma mala cheia de dólares e cruzeiros (dinheiro brasileiro na época, 1973...) rumo a Belém do Pará.

Foi bom estar em casa novamente, rever a família depois de seis meses vivendo no estrangeiro e reatar as relações com meu pai, com quem tivera uma séria rusga ao me decidir ir para a Guiana. Mas os dias seguintes foram ocupadíssimos, tentando atender uma extensa e variada lista de itens encomendados que incluia fardos de charque e pirarucu salgado, sacos de farinha, carne enlatada, leite em pó, paneiros de tapioca, redes, remédios antibióticos e anti-inflamatórios, Biotônico Fontoura, pílulas anticoncepcionais, garrafadas de ervas compradas no Mercado do Ver o Peso e até, pasmem, artigos de umbanda...!

Tudo isso eu ia judiciosamente embalando e guardando em um depósito alugado no Porto do Sal, no bairro da Cidade Velha, em Belém do Pará. Até que depois de umas duas semanas chegou o dia do embarque. E no meio daquela azáfama típicas de pequenos portos, enquanto eu conferia cuidadosamente a subida e acomodação das mercadorias, fui surpreendido pela presença a bordo de seis garotas mestiças, claramente há pouco saídas da puberdade.

O que me incomodava não era somente a presença das garotas e sim a figura que as acompanhava e já as estava instalando nos poucos camarotes disponíveis. Eu manjava a peça desde Caiena: era uma marafona conhecida por traficar garotas quase imberbes para as boates e puteiros da Guiana. Sua cantada era irresistível: prometia empregos em "casas de familia" com excelentes salários em francos para as pobres e ingênuas garotas interioranas, ou algumas mais afoitas escolhidas a dedo nos puteiros de Belém. Garantia ainda a entrada ilegal e estadia nas primeiras semanas em Caiena.

A vida nos garimpos da Guiana...

Lá chegando, a realidade era outra: as pobres coitadas eram vendidas e jogadas em boates e prostíbulos, vivendo miseravelmente em cativeiro até o ponto em que conseguiam fugir ou acabavam nos garimpos, se a sorte lhes fosse madrasta. Já disse aqui que na época meus padrões de moral e ética se encontravam meio "distendidos", podia até compactuar com o "comércio informal". Mas traficar aquelas jovens garotas.... Ah, não, estava muito além do meu limite de tolerancia, pois eu sabia muito bem o que as aguardava.

Saí no maior pau com a marafona, ameaçando de mandar retirá-la dali à força, junto com suas "meninas". Foi quando ela esfregou na minha cara uma carta do Walter encomendando expressamente as garotas e com instruções precisas para o transporte, a entrada ilegal e instalação das garotas num dos piores pardieiros de Caiena, dando-lhe ainda todo o direito de passagem no barco por mim alugado.

Aí, a ficha caiu de vez ! A demora do Walter nos garimpos próximos ao Suriname, sua chegada súbita e a urgência da viagem ao Brasil, a delegação ao meu encargo do carregamento de contrabando, a lista de produtos encomendados e, por fim, a presença das garotas no barco de volta me levaram a crer que o muy amigo estava "operando" por conta própria, longe do manto protetor do Benoît. E não havia dúvida que aquela era uma jogada muito arriscada. Só que eu não queria mais fazer parte daquele conchavo.

Tive que engolir juntos orgulho e raiva. Suspendemos ferros naquela noite e por toda a viagem de volta fiquei quase circunscrito ao meu pequeno camarote, só saindo para as refeições. Eu regurgitava de ódio e frustração e naqueles dias repensei seriamente meus dias na Guiana e o futuro que ali me aguardava. Não me parecia muito próspero.

Visivelmente desinteressado, acompanhei novamente a operação de transbordo da carga para o barco francês que nos aguardava na foz do Oiapoque e o desembarque sem complicações em Degrad de Cannes. Foi com um aperto na alma que vi as seis garotas subirem numa picape, como quem se encaminha para o cadafalso. Nunca mais as vi ou soube de seus destinos. Espero que tenham sobrevivido ao horror dos prostíbulos de Caiena. Nunca me perdoei por isso.

No final, a "operação" fora um sucesso e me rendeu uns 15.000 dólares. Mas eu me sentia enojado com o papel que havia representado. Juntei meus poucos pertences numa mala, comprei um belo anel de brilhantes para Marie Noelle e me despedi dela numa tarde quente de sábado. Embarquei de volta num vôo da Suriname Airways e 90 minutos depois estava de novo em Belém do Pará, pronto para uma nova vida. A experiência na Guiana ficara para trás....

P.S. Dois anos mais tarde soube que Walter desaparecera na selva guianense. Nunca descobri se foi assassinado ou simplesmente sumira devido aos negócios "peligrosos". Por um amigo comum soube também que ele recentemente foi visto flanando em Copacabana, mas não tive confirmação. Pra mim, continua um mistério, se está vivo ou morto. Eu retornaria à Guiana cinco anos mais tarde, em 1978, e saberia o gosto de uma prisão militar guianense, mas aí já é outra história que conto em outra oportunidade.

(fotos reprodução)