domingo, 31 de outubro de 2010

CRÔNICAS GUIANENSES...(3)

Conheci Marie Noelle numa quinta feira chuvosa, lá mesmo no Chez Moi. Noite de pouco movimento facilita aproximações e, quem sabe, até confidencias após umas doses bem calibradas de White Horse.

Resumindo, Marie Noelle era uma mulata da Martinica, já quarentona mas cujos semblante e corpo curvilíneo ainda demonstravam restos de uma antiga beleza. Trazia no rosto as marcas de expressão de alguém que havia vivido todas as lutas. E, o mais importante, sobrevivido para contá-las...

Marie Noelle cantava no cabaré às sextas feiras, sua voz melosa e rouca desfiando antigas canções de Edit Piaf e Jacques Brel para uma platéia indócil e grosseira, mais interessada em amores mais imediatos, que pudessem ser comprados por um punhado de francos.

No restante da semana fazia "mesa" -isto é, sentava-se com clientes e os entretinha, enquanto garçons desonestos os encharcavam de bebida vagabunda e cara. Às vezes fazia "vida" também, dependendo do freguês e da sua necessidade. E eu, na falta melhor do que fazer, batia ponto ali quase todos os dias na eterna expectativa de minha terceira viagem ao Brasil.

Meu amigo Walter andava enfurnado na selva guianense em negócios cada vez mais escusos e eu apenas acompanhava o lento passar das horas, corpo e vontade derretendo sob o calor da França tropical. E naquelas noites suarentas fui aos poucos fazendo amizade com Marie Noelle, às vezes bebericando algumas doses de Fernet Branca, outras pegando uma carona de volta no seu bombardeado Renault 2CV, após a função.

E um dia aconteceu. Acordei na manhã seguinte debaixo de uma ressaca descomunal num pequeno e estranho quarto, ao lado de Marie Noelle, que dormia placidamente o sono dos anjos. Foi também uma questão de tempo, aos poucos estava instalado no quarto-e-sala que ela alugava nos altos de uma boulangerie (padaria), no centro da cidade. Não houve promessas, compromissos ou expectativas. Simplesmente aconteceu. Não tínhamos tempo para essas veleidades...

Eu dirigia o 2CV e aguardava no balcão do bar, enquanto ela se dedicava ao seu trabalho noturno. Em casa, alta madrugada, nos amávamos com a ferocidade dos desesperados, Marie Noelle lançando mão de anos de treinamento para meu puro deleite pessoal. Caíamos então em sono profundo, levantávamos no meio da tarde, tempo ainda de comprar uma baguette quentinha, uma boa fatia de queijo roquecfort e meia garrafa da vinho tinto.

Outros dias cozinhávamos, noutros saíamos a passear de mãos dadas à beira mar, parando para comer em qualquer bistrô ou baiúca. Eu tinha plena consciência de minha situação e não me incomodava nem um pouco. Sabia que aquele acordo (ok, caso, affaire, escolham...) não duraria muito. Mas jovem e vivendo fora de casa, debaixo do sol dos trópicos, meus conceitos de ética e moral ficavam a cada dia um pouco mais elásticos.

Marie Noelle foi uma pausa refrescante e abrigo seguro naqueles dias tempestuosos na Guiana. As poucas semanas que permanecemos juntos é uma das mais gratas recordações que carrego até hoje comigo. Logo eu estaria de volta ao redemoinho dos negócios do submundo, mas isso conto mais adiante...

(foto reprodução)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

CRÔNICAS GUIANENSES...(2)

Benoît era um mulato claro, magro e alto, que cultivava um bem cuidado cavanhaque e andava sempre imaculadamente de branco. Falava pausadamente e em tom baixo, a educação em pessoa. Mas por baixo de toda aquela aparente polidez escondia-se um temperamento violento e truculência implacável. Administrava com mão de ferro o Chez Moi, um misto de bar, cabaré e cassino clandestino, a meio caminho de Kourou.

Corria à boca pequena que Benoît era o ponta de lança de vários negócios escusos em que estavam envolvidos alguns luminares de Caiena, boato do qual jamais tive comprovação. Mas sua fama conduzindo os negócios mais suspeitos já era crescente. E era em frente a este cidadão que eu me encontrava, sentado num final de tarde em seu escritório, admirando as águas plácidas e barrentas do rio Cayenne, enquanto entornava um cálice de Pernod.

Garimpo na Guiana Francesa, região do Rio Alto Mana.

Aquele encontro fora em função das atividades subterrâneas do meu amigo Walter, que passara umas semanas enfiado nos garimpos de ouro do rio Mana, nas profundezas da selva guianense. E o plano traçado por ele era muito simples: abastecer com comida, remédios, roupas ou o que mais aprouvesse as legiões de brasileiros que se aventuravam clandestinamente na Guiana, seja nas imediações de Caiena ou nos garimpos mal afamados da fronteira com o Suriname.

E o financiador da empreitada seria naturalmente o Benoît, com uma parcela considerável de grana para nós. Assim, uns dez dias mais tarde nos encontrávamos a bordo de um barco camaroneiro, ancorado ao largo de uma das dezenas de ilhas localizadas na foz do Rio Oiapoque, fronteira do Brasil. Dali nós seguiríamos de catraia até a cidade de Oiapoque, de onde iria de táxi áereo rumo a Macapá, lugar onde seriam feitas as compras.

Foz do Rio Oiapoque, fronteira Brasil-Guiana Francesa.

Cinco dias depois nós retornávamos a bordo de um caminhão carregado de mercadorias até o Oiapoque. Dali, embarcamos a carga numa vigilenga até a foz do Oiapoque, onde tudo foi trasladado para o barco camaroneiro francês e dali retornamos até as imediações do porto de Degrád de Cannes, no estuário do Rio Mahury.

A operação foi coroada de sucesso e rendeu uma grana federal ao Benoît, que programou para nós uma segunda investida ao Brasil nas semanas seguintes e nos mesmos moldes. Do meu lado, nada a reclamar: cada viagem dessas me rendia uns 5.000 dólares, o que me permitiu deixar definitivamente de lado meu humilde trabalho de lavar pratos e limpar mesas no bistrô de Mme. Angèlique.

A aventura na Guiana parecia finalmente render dividendos e enquanto aguardava pela terceira viagem, passava o tempo agora totalmente livre, presenciando as mais tenebrosas transações nas mesas do Chez Moi. E o tempo parecia escorrer lentamente naquelas noites quentes dos trópicos. Um perigo para espíritos despreocupados. Mas isso conto mais adiante...

(foto reprodução)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

CRÔNICAS GUIANENSES...(1)

Lá pelo meio de 1973 eu andava de saco cheio, depois de três anos trabalhando em um banco. Gastava a maior parte do meu tempo livre em botecos e boates de fama questionáveis, a vida em meio a uma verdadeira geléia geral, uma insatisfação constante. E numa maré dessas a gente é presa fácil para qualquer canto de sereia...

Walter foi uma dessas figuras que conheci perdido num dos botecos desclassificados na zona boêmia da noite belemense. Gordo, negro retinto e luzidio, era etíope de nascimento, filho adotivo de um alemão e criado nas areias e malandragens de Copacabana. Já deu para imaginar o tipo. E foi dele que veio a idéia de jerico, naquelas longas e úmidas madrugadas depois do consumir hectolitros de cerveja: alistar-se na Legião Estrangeira logo ali em Caiena, capital da Guiana Francesa.

O início da década de 70 se prestava bem para este tipo de presepada. Muita gente estava caindo na estrada, mochila nas costas e sem dinheiro no bolso, tentando viver a utopia de uma vida livre de obrigações. Muitos foram longe, mas a maioria não ultrapassou os limites seguros e conhecidos das imediações de suas casas. Mas, naquele caso, pelo menos valia a tentativa...

Resolvido, me demiti do banco, vendi meu carro, juntei as poucas economias ao dinheiro da indenização  para fazer caixa. Mas, precavido, transformei parte em dólares e outra apliquei em letras de câmbio (grande investimento, na época...) para reserva em caso de uma eventual rebordosa. Afinal, seguro morreu de velho.

Nossa viagem de barco até Macapá, depois mais 600 quilômetros de ônibus por estrada de terra até o Oiapoque e dali de catraia - pequenos barcos amazônicos a vela e motor, que faziam o transporte ilegal de brasileiros até as imediações de Caiena - daria um relato à parte, mas que vai ficar para outra ocasião.

E para quem morava em Belém do Pará, uma cidade com mais de um milhão de habitantes na época, a primeira vista da capital da Guiana Francesa podia ser meio decepcionante.

Caiena, Guiana Francesa: vista à distância, um pueblito...

Caiena era então pouco mais de uma village de não mais que umas 50.000 almas, a maioria de negros guianenses, haitianos, surinameses e também de brasileiros, principalmente gente vinda do Amapá e Maranhão em busca de melhores salários. Como é um Departamento Francês, toda a administração e os melhores negócios estavam nas mãos dos brancos franceses que, com seu centenário senso de colonizadores, dominavam as outras etnias pagando-lhes baixos salários e explorando-os quase à exaustão.

Após a chegada, nos instalamos num hotelzinho vagabundo no centro histórico, próximo à Place des Palmistes, local que concentrava à sua volta tudo o que de interessante pudesse ocorrer. E assim, dois dias mais tarde nos apresentamos ao regimento da Legião estrangeira para tratarmos do nosso alistamento. Felizmente, eles levam a sério esse negócio de alistamento pois o Walter com 1,60 metro e 110 quilos era o biotipo menos indicado para um legionário, apesar de falar fluentemente o francês!

Apesar de bem atendidos, descobrimos que o alistamento só poderia ser feito em Fort de Nogent, na imediações de Paris. A base da legião em Caiena se prestava somente como uma colônia de férias e para treinamento dos já legionários. Desapontados depois de termos passado poucas e boas até chegar ali e sem a menor pretensão de ir até à França, lá se ia ladeira abaixo o sonho de me tornar um legionário. O negócio agora era como sobreviver antes de gastar minhas economias ou voltar para casa.

Aí foi a hora de me valer das habilidades do Walter que, fluente em francês s filho de um maître d´hôtel, sabia tudo de hotelaria, além de cozinhar como poucos. Não foi dificil descolarmos um emprego num bistrô, ele na cozinha e eu lavando pratos e arrumando mesas. O salário era até razoável, o bistrô era pequeno, portanto o trabalho não era muito. Garantíamos ainda a bóia e os míseros francos ali ganhos nos permitiam pagar o quarto de hotel que vivíamos. E assim se foram as primeiras semanas.

Passávamos as horas livres sentados em botecos ordinários, entre goles de Pernod e a fumaça acre dos Gaulouises, na busca de algumas mulatinhas incautas. Walter era um aventureiro por excelência e um boêmio incorrigível. Nas suas andanças noturnas fez amizade com um coroa francês dono de um pardieiro, situado a alguns quilômetros fora de Caiena, na estrada que vai para Kourou.

O lugar, de péssima fama, localizava-se próximo a um porto de barcos camaroneiros (pesca de camarão) e era uma mistura de restaurante e cabaré. A freqüencia não poderia ser pior: rústicos marujos, garimpeiros, mulheres de baixa extração, bêbados e drogados, jogadores, enfim a fina flor do bas fond de Caiena. E aquele seria nosso endereço nos próximos meses na Guina Francesa...

Continua no próximo post...

(foto reprodução)