sábado, 25 de setembro de 2010

'THE FIRST TIME EVER I SAW YOUR FACE"

"Perversa Paixão" (Play Misty For Me, no original) é um filme de 1971, dirigido por Clint Eastwood e considerado um dos melhores thrillers do inicio da década de 70. E na sua trilha sonora, numa das mais famosa sequencias do filme e que ajudou a catapultá-lo rumo ao sucesso, estava a quase desconhecida Roberta Flack, interpretando um de seus maiores sucessos, The First Time Ever I Saw Your Face.



A canção se tornou um dos maiores hits da carreira da cantora, alcançando o primeiro lugar dos Top 100 do Billboard de 1972, e presença obrigatória em quase todos os seus shows mundo afora, integrando-se de tal maneira no seu repertório que a maioria atribui a Roberta Flack sua autoria. Mas nada mais falso.


Peggy Seeger canta a versão original da canção folk...

A música foi composta em 1957 pelo cantor, compositor folk e ativista político inglês Ewan MacColl e feita sob encomenda de Peggy Seeger, também cantora folk e mais tarde sua esposa. A música passou a fazer parte do ambiente folk e teve várias gravações nos anos 60, como Elvis Presley, Peter Paul & Mary, Johnny Cash até estourar no mundo pop com a inclusão da canção no primeiro álbum de Roberta Flack, First Take, de 1969.

A versão gravada por Roberta Flack em ritomo de balada romântica, era bem mais lenta e estendida para pouco mais de quatro minutos, o que provocou uma imensa irritação em Ewan MacColl. Mesmo assim foi esta versão que se perpetuou e gerou mais tarde centenas de gravações por outros artistas, elevando "The First Time Ever I Saw Your Face" ao panteão das maiores canções pop de todos os tempos.

(videos reprodução)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

DAIQUIRI, EL REY...

Como dizia o colunista social Ibrahim Sued, sorry periferia, mas meu primeiro daiquiri foi mesmo no La Floridita, localizado em Habana Vieja, Cuba e bar favorito de ninguém menos que Ernest Hemingway, que descobriu o lugar no início dos anos 30 e ali da sua mesa preferida rabiscou os manuscritos de "Por Quem Os Sinos Dobram" e outras histórias.

Ernest Hemingway e Constantino Ribalaguaya, no balcão do La Floridita.

O daiquiri, ao lado do mojito, compõe a dupla mais famosa da coquetelaria cubana. E toda grande bebida tem uma grande história por trás e com o daiquiri não poderia ser diferente. Reza a lenda que teria sido criado em 1905 num bar de nome Vênus, em Santiago de Cuba, frequentado por um grupo de engenheiros americanos que trabalhavam numa mina ali perto, de nome Daiquiri. Um deles, Jennings Cox, ao se ver sem gim substituiu o destilado por rum na beberagem que estavam acostumados a tomar e daí nasceu o drinque.

A receita do Daiquiri era extremante similar ao grogue, uma bebida largamente consumida pelos marinheiros britânicos a bordo dos navios por volta de 1740. Era basicamente rum misturado com o suco de laranjas doces e água. Essa era também uma bebida comum em todo Caribe e quando o gelo passou estar disponível também veio a incorporar esse drink.

Com o tempo e pela facilidade de acesso ao limão e açúcar, o drink evoluiu rapidamente pois os trabalhadores da mina de Daiquiri eram agraciados todo os meses com algumas garrafas de Rum Bacardi, fabricado na época em Santiago de Cuba. Originalmente o Daiquiri era servido em copo alto com muito gelo picado, uma colher de açúcar, o suco de um limão e duas partes de rum. Complementando a mistura, uma boa mexida com colher longa para deixar o drink bem gelado.

Com a popularização da bebida em Cuba logo alguém deu uma refinada na receita, passando a ser misturado em coqueteleira com os mesmo ingredientes mas com gelo picado, sendo vigorosamente agitado e servido em copo tipo flûte previamente gelado.

Foi esta a receita que apareceu nas páginas do Miami Herald em março de 1937, passando a bebida a se tornar extremamente popular nos EUA, a ponto de ser homenageada várias vezes no cinema como em "Uma Aventura na Martinica" (Lauren Bacall), "Se Meu Apartamento Falasse" (Shirley McLane), "A Costela de Adão" (com o csal Spencer Tracy e Katherine Hepburn) e Alec Guiness em "Nosso Homem em Havana). Era também a bebida favorita do presidente John Kennedy.


O daiquiri, ensinado por um mestre da coquetelaria, Derivan de Souza.

Um de suas variações mais famosas foi a criada por Constantino Ribalaigua no inicio do século passado, no bar e restaurante La Floridita e onde trabalhou por mais de quarenta anos. Ele juntou uum, açúcar, limão e um leve toque de licor de Maraschino e bateu num liquidificador com muito gelo dando a consistência de frapê. Essa famosa receita consagrou o La Floridita mundialmente como a casa do Daiquiri.

Outra variante notável é o célebre Papa Doble, criado especialmente para Hemingway - que era diabético - preparado sem açúcar, substituído por suco de grapefruit e servido em dose dupla. Conta-se que o escritor chegou a tomar 16 desse drink numa noite.

Hoje existem muitas variações de Daiquiri e poucas remetem à receita original, mas mesmo assim o coquetel é reputado como um dos sete drinques clássicos da coquetelaria mundial.

Tin, tin...

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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

"IL SORPASSO..."

"Il Sorpasso, ("A Ultrapassagem", em italiano), The Easy Life em inglês, e lançado no Brasil como "Aquele Que Sabe Viver" - é um cult movie de 1962 dirigido por Dino Risi e considerado um dos melhores filmes da década de 60, no melhor estilo commedia all´italiana

O roteiro marca o encontro de Roberto, vivido pelo ator francês Jean Louis Trintignant, um tímido e sério estudante de Direito com Bruno (um desempenho excepcional de Vittorio Gassman), quarentão boa vida, exuberante e caprichoso.

Durante dois dias desfilando pelas paisagens exuberantes da costa do Lazio e Toscana, a bordo de uma Lancia Aurelia, esses dois homens passarão por altos e baixos, visitam suas respectivas familias e o tempo que Roberto passa junto a Bruno é, às vezes, hilário mas em outras se transforma num dramático processo de aceleração da maturidade.



Enquanto o estilo despreocupado e sucesso social de Bruno atrai a atenção de Roberto, este aos poucos dá se conta da superficialidade e infelicidade do novo amigo. O título do filme se refere a uma infeliz manobra de Bruno ao volante da Lancia Aurelia, instigada por Roberto, cuja sequencia finaliza a película.

O sucesso de "Il Sorpasso" deve-se a uma série de referencias que se tornariam mandatórias nos cult movies que inspiraria ao longo da década de 1960. Uma delas foi o uso da trilha sonora feita com sucessos da música pop, artifício depois utilizado por Dennis Hopper na direção de "Easy Rider (Sem Destino), assumidamente influenciado por este filme.

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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

DISCO DE BOLSO...

Em 1972 O Pasquim sobrevivia a duras penas. Longe iam os dias em que o semanário carioca representava a linha de frente da resistência ao regime militar. Da brilhante equipe que fundara o pequeno jornal muito pouco restara.

Os que ficaram foram obrigados a diversificar as atividades do jornal, como o lançamento da Editora Codecri (Comitê de Defesa do Crioléu) a fim de editar títulos de intelectuais de esquerda ou de colaboradores sem acesso ao mercado editorial tradicional.

Uma das grandes iniciativas foi o Disco de Bolso. O projeto era uma estreita colaboração de O Pasquim com o produtor Eduardo Athayde e o compositor e diretor musical Sérgio Ricardo.

A idéia era excelente, a democratização da música brasileira ao apresentar de um lado do compacto simples um compositor consagrado e no outro lançar um artista desconhecido.

A primeira edição do Disco de Bolso teve a tiragem de 30.000 exemplares, vendidas unicamente em bancas de revistas. No lado A trazia a primeira gravação de "Águas de Março", composição de nosso maestro maior Antonio Carlos Jobim e interpretada pelo próprio.

Do outro "Agnus Sei", uma intrigante composição de uma dupla que iria dar o que falar nos anos seguintes, o mineiro João Bosco e o carioca Aldir Blanc...

Lembro-me como se fosse hoje. Na época, 1972, eu ainda era rato de biblioteca e habitué de bancas de revistas. E foi numa dessas, em pleno março, que descobri a novidade. Apesar do primor de rima e métrica de "Águas de Março", o que me impressionou mesmo foi o lado B.


"Agnus Sei"
apresentava uma certa religiosidade profana, coisa típica do interior das Gerais, temperada com uma boa dose de cinismo agnóstico vinda da urbanidade carioca de Aldir Blanc, pontuada pela batida flamenca do violão de João Bosco. Uma música perturbadora.

Um ano mais tarde, "Agnus Sei" seria gravada por Elis Regina com o rigor técnico e a impecabilidade vocal de sempre, mas a meu ver perdera a sua veia seminal quando do lançamento com João Bosco.

A segunda edição do Disco de Bolso teve Caetano Veloso cantando uma versão de "A Volta da Asa Branca" de Luiz Gonzaga e no outro lado, o estreante Fagner interpretando "Mucuripe", de sua autoria e Belchior.

Mas uma mensagem no disco, do produtor Sérgio Ricardo encartada no disco e dirigida a Geraldo vandré, onde ele faz uma retrospectiva dos anos de repressão política e cita nominalmente aqueles que haviam retornado do exilio, chamou a atenção da truculenta Censura Federal, que acabou proibindo a circulação do Disco de Bolso, sob a alegação de que o disco-fascículo tinha objetivos políticos.

O Disco de Bolso, apesar de sua curta existência, foi uma experiência vitoriosa de renovação musical e incentivo ao aparecimento de novos valores de nosssa MPB, abrindo espaço e dando voz a alguns compositores e intérpretes que se consagrariam nos anos seguintes.

Mais alguém aí se lembra do Disco de Bolso ?

(fotos reprodução)