quinta-feira, 10 de junho de 2010

PEQUENOS VÍCIOS...

Fui fumante inveterado por longos 32 anos e dentro da "escala tabagística" posso dizer que comecei pelo final. E minha iniciação se deu quando herdei de um tio alguns cachimbos e aqueles pequenos utensílios que acompanham e fazem o charme do hábito de dar umas cachimbadas.

Lembro-me bem, era uma pequena coleção de sete cachimbos da marca Dunhill inglesa, alguns retos outros de suave curvatura nas hastes, até um pesadamente insuportável na melhor tradição Sherlock Holmes. E para quem pertencia a uma geração cujo ato de fumar, além de servir como meio de afirmação frente à tchurma, se tornava também um rito de passagem, o cachimbo se afigurava como a alternativa menos adequada.

Portanto, em meio aos Minister, Carlton e eventuais Hollywood que eu socialmente inalava, reservava alguns momentos do dia para uma boa cachimbada, o que fazia tranquilamente no recesso do lar, longe da muvuca e dos olhares desaprovadores dos amigos que achavam aquilo "coisa de velho".

Apesar de toda a boa vontade de meu tio, não foi um aprendizado fácil pois cachimbos, assim como as grandes bebidas, tem um manejo e caracteríticas próprias. Desde a perfeita acomodação do fumo no cachimbo - que deve ser levemente pressionado e não socado rudemente no fornilho - a maneira correta de acendê-lo sempre com fósforos e circundando a chama no topo do fumo e o grande segredo, puxando o ar de maneira uniforme.

Cachimbos foram feitos para serem fumados de maneira calma e tranquila, e não em puxadas coinstantes como nos cigarros. Desse modo, a fumaça estará sempre resfriada e agradável, proporcionando maior prazer. No caso do cachimbo se apagar, é mais recomendável remover a cinza do topo com a colherzinha apropriada e reacendê-lo calmamente com poucas puxadas, assim a fumaça não ficará tão quente e não queimará a língua.

Importante, a fumaça do cachimbo, a exemplo dos charutos, jamais se traga. Passeia-se com a língua até o palato, deixando que este absorva o sabor do tabaco. Ao término de uma cachimbada nunca se bate o fornilho a fim de esvaziá-lo. Usa-se uma espécie de colherzinha e deve-se resguardar o cachimbo pelo menos umas 72 horas até seu próximo uso. Isso preserva o material com que o cachimbo é feito e suas boas características.

Com o tempo, o hábito de fumar cachimbo vai adquirindo personalidade. É quando desenvolvemos nossas preferências pessoais no tocante a forma - redondos, quadrados, hastes retas ou curvas, grandes ou pequenos -, material (madeira, espuma do mar, metal, cerâmica, etc..).


Ao longo dos anos desenvolvi uma especial predileção pelos cachimbos conhecidos como Billiard ou Classic Bent de nogueira e com curvatura e fornilho de tamanho médio (identificado como C na foto acima...). E amaciar um cachimbo é uma das mais agradáveis coisas de se fazer para um apreciador; ali ele emprega toda a sua expertise e personalidade.

Em cachimbos de madeira normalmente se começa utilizando uma lixa muito fina e lixando o terço inferior do fornilho. Um chumaço de algodão deve ser diariamente umedecido com conhaque ou uísque de boa procedência e aí mantido por cerca de uma semana ou mais, até o líquido ser bem absorvido pela madeira.

Aí será o limite para as primeiras cachimbadas, até se criar uma pequena crosta de cerca de um milímetro de espessura, que os franceses chamam de culot e que servirá como proteção e "amaciante" para o sabor do fumo.

Outro grande lance são as misturas do tabaco, que cada um vai desenvolvendo no correr do empo. Eu tinha uma insuperável feita de fumo Virginia, raspas de casca de maçã, conhaque Napoléon e chocolate em pó.

Uma boa cachimbada sempre conduz à instrospecção e reflexão, podendo ser uma fonte de inspiração, conforto e companhia. Depois de uma lauta refeição e acompanhada de um bom conhaque ou uísque, é uma experiência que valoriza as grandes criações do gênio humano.

Hoje, doze anos depois, dou graças aos céus por ter me livrado do maldito cigarro. Mas há certas noites que uma boa cachimbada ainda me faz falta.

Ô, rapaz, como faz...

(foto reprodução)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

"MARIA SANGUINÁRIA"...

Há sempre um momento que um fato isolado ou a obra do acaso abrem as possibilidades para um universo completamente novo, isso se tivermos sensibilidade suficiente para reconhecer a oportunidade. Minha entrée no mundo dos coquetéis se deu desta maneira.

Como a maioria dos garotos da minha época comecei bebendo cerveja, pois por ser fermentada e de baixo teor-, além de mais barata e de prolongado efeito diurético - nos dava a ilusão de sermos terrivelmente resistentes ao álcool, o que nos levava a constantes excessos etílicos. O diabo era a rebordosa, a monumental ressaca do dia seguinte.

Um dia alguém me deu a dica de um remédio infalível para combater a bendita ressaca e o local onde se produzia esta maravilha. Na verdade, não passava de um misto de boteco meio desclassificado e casa de sucos, mas era o único que funcionava aos domingos às dez da manhã.

O nome da pretensa maravilha atendia pelo pomposo nome de Bloody Mary, uma mistura malsã de vodca, suco de tomate, suco de limão, sal, molho inglês, molho tabasco e pimenta do reino.Uma mistura explosiva, reconheço, mas altamente eficiente. Pelo menos no meu caso e representou minha estréia no mundos dos drinques e coquetéis.

Mas coquetel que se preze tem sempre uma boa história por trás. É parte do folclore e motivo para acaloradas e intermináveis discussões por parte dos entusiastas e sua origem dá margem para três versões mais conhecidas que, como sempre, dividem opiniões.

Uma é que o francês Fernand Petiot, barman do "Harry's Bar" de Paris, teria criado o coquetel em sua primeira versão na década de 20, mas teria lançado no bar do "Hotel Saint Regis" em Nova Iorque, tendo denominado o mesmo de "Red Snapper", nome que foi depois abandonado. A pedido do príncipe russo Serge Obolensky foi incluído o tabasco na receita e ambos reivindicam o posto de local da criação da bebida.

Outra dá conta que no final dos anos 30, o ator e produtor George Jessel teria sido o criador, também em Nova Iorque, conforme o New York Herald Tribune, sendo que Jessel aparecia em propagandas da vodca Smirnoff.

Uma terceira versão, essa com menos defensores, atribui a Bertin Azimont, doHôtel Ritz Paris, a criação especial para o escritor que queria uma bebida que não deixasse odor, para que a esposa dele não percebesse.

O nome Bloody Mary refere-se à cor vermelha provida pelo suco de tomate, mas há também três versões acerca da sua inspiração: a Mary Tudor, por suas sangrentas perseguições ao protestantismo na Inglaterra e Escócia; a Mary Pickford, atriz americana da era do cinema muddo e por fim a uma garçonete do bar Bucket of Blood de Chicago, esta última tida como a menos aceita.

Mas discussões e opiniões á parte, o certo é que o Blood Mary se incorporou como um dos clássicos da coquetelaria (hoje chamada de mixologia), sofrendo ao longo do tempo algumas variações de acordo com o tempo ou lugar.

Aqui vai minha receita favorita para um perfeito Bloody Mary, servido naturalmente em copo long drink:

- Uma dose (35 ml) de boa vodca
- 100 ml de suco de tomate
- Uma pitada de sal
- 3 gotinhas de molho Tabasco
- Um lance de molho inglês (umas seis gotas...)
- Uma pitada de de pimenta do reino em pó
- Suco de 1/2 limão taiti
- Seis cubos de gelo ou a gosto
- Um talo de salsão (indispensável) para decorar.

Experimentem, levanta até defunto...! Tin..Tin...!

(foto reprodução)

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sexta-feira, 4 de junho de 2010

A JEZEBEL DO JAZZ...

"Adivinhe quem é.
Aos vinte e pouquinhos anos, ela era a rainha de duas bandas heavy metal na verdadeira acepção do termo. Andou pelas madrugadas com a artilharia grossa do be-bop, no tempo que isso significava sexo, drogas e all that jazz. Passou por dois maus casamentos, catorze abortos e foi estuprada num camarim por um ex-galã do cinema mudo chamado John Boles.

Mas seu principal flerte foi com a morte: duas gravidez tubárias e duas overdoses de heroína, sendo que na primeira foi dada como morta. Presa com drogas quatro vezes, a última delas nos anos 60 quando sua carreira como cantora já parecia ter ido para o beleléu. E, quando era manchete das páginas policiais, dava bananas para os fotógrafos.

Ela era fogo na jaca. Orgulhava-se de que a chamassem de "a Jezebel do jazz" e seu prontuário, na polícia e no pronto-socorro, não caberia num álbum triplo. Billie Holiday? Não, Anita O´Day." (Ruy Castro)

É incrível como mesmo entre amigos que se dizem jazzistas o nome de Anita O´Day é quase completamente desconhecido. Até hoje, poucos, muito poucos, vi lembrarem-se dela. Quando perguntados sobre as grandes damas do jazz, quase invariavelmente saem com unanimidades consagradas como Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Sarah Vaugh ou Nina Simone. E olha que Anita não era pouca coisa. Loura e de olhos azuis, nos melhores círculos jazzísticos era considerada pouco menos que uma deusa.


Uma aula como dominar uma platéia entediada e desinteressada. Newport Jazz Festival, 1957.

Apesar da ficha quilométrica de confusões em que andou metida, não foi a droga que a elevou ao panteão das grandes damas do jazz, assim como Lady Day. Ela foi, "apesar" das drogas. Criadora do vocal cool direto, sem os trinados típicos dos anos 40, foi também a maior improvisadora branca do jazz, uma especialista do scat singer, mas dona de um timing e divisão ritmica invejáveis, o que lhe permitia saber o exato momento ou não das improvisações.



Deve-se também a ela a criação de um novo estilo mais vigoroso na interpretação daquelas baladinhas açucaradas que são pródigas na música americana e que alguns críticos mais ácidos consideravam até meio masculinizadas. Anita morreu em Los Angeles, em 2006, aos 87 anos de pneumonia.

Mas Anita O´Day, por mais que se tente, não se explica.

A gente ouve. E se deleita.

P. S. Para os não iniciados no jazz e para evitar espantos desnecessários, escolhi duas performances consideradas exremamente bem comportadas de Anita O´Day. Curtam...

(videos reprodução)

quarta-feira, 2 de junho de 2010

AVENTURAS NÁUTICAS...(5)

O aprendizado...

Dando continuidade às memórias náuticas, depois da convivência com cruzeiristas de vários lugares do mundo, seria natural que um interesse pelo iatismo fosse crescendo. Aliás, "iatismo" é um termo que não gosto, e explico por que.

Por exemplo, quando o sujeito não tem dinheiro e, por falta de melhor opção, se mete a comprar ou construir barcos com poucos recursos, é logo tachado de louco, maluco, sonhador. Depois de anos de sacrifícios pessoais e financeiros tentando fazer flutuar seu sonho, no dia que consegue por na água seu objeto do desejo, de repente o cidadão é elevado à categoria de "iatista". Uma questão de ponto de vista, portanto.

Mas não era este o meu caso. Cedo descobri que os que têm muito dinheiro - ou os que tentam aparentar como tal - quase não têm tempo de usufruir aquilo que a fortuna proporciona. Digamos que seja uma das "lei das compensações" ou uma peça que o destino nos prega. Assim, aqueles endinheirados que mantinham barcos no iate clube nunca tinham tempo disponível ou conseguiam reunir membros da família para uma saidinha eventual ou passeio de fim de semana.

E era aí que eu entrava. Como trabalhava na época com meus pais, meu horário era muito elástico e tempo era algo que me sobrava. Não demorou muito e eu era o companheiro ideal para velejadas, voar de ultraleve, fazer trilhas de moto, raids de jipe, passeios de jet-ski sem nunca ter investido um mísero centavo nesses artefatos de lazer.

Meu começo na vela não foi diferente. Tinha um amigo, o Fredinho, que era um autêntico bon-vivant. Sua função principal na vida era ter se casado com uma rica herdeira, cuja família lhe pagava uma fábula e sustentava uma vida de nababo, desde que ele mantivesse a megera da esposa longe dos negócios e do convívio dos familiares. Tarefa que ele cumpria com exemplar dedicação...

Fredinho, além das qualidades maritais, era um velejador de primeira. Começara no Laser, tendo se sagrado várias vezes campeão estadual. Mas com o tempo, enjoou de competições e enveredou pelo mundo dos catamarãs, no caso um veloz Hobbie Cat.

Era hábito passarmos algumas tardes de sexta feira nas instalações do Iate Clube, revisando e regulando estais e escotas, ferragens do leme ou velas, com vistas à navegada do dia seguinte.

Fizemos velejadas antológicas pelo Rio Guamá e baía do Guajará, vez por outra enveredando por furos e paranás, outras em pernas mais longas como a Ilha do Mosqueiro a 30 milhas (55 quilômetros) de distância, o que requisitava maiores habilidades e uma logística mais diferenciada. Ali fui aprendendo os rudimentos da arte de velejar.

Daqueles finais de velejada no cockpit do pequeno Hobbie Cat nasceu uma grande amizade e também alguns sonhos, enquanto admirávamos o deslizar dos veleiros estrangeiros na sua azáfama de chegar e partir das poitas do Iate Clube do Pará.

E uma enorme vontade de um dia também se fazer ao largo, rumo ao oceano imenso e livre, foi se formando entre nós. Só que não tínhamos barco, nem experiência ou tempo (sempre ele...) para isso. Dizem por aí que quando queremos algo com toda força, o universo conspira a favor.

Se é verdade, não posso afirmar, mas para não alongar muito a conversa, conto no próximo post...

(foto reprodução)