quinta-feira, 27 de maio de 2010

VIVER POR VIVER....(1967)

Após o sucesso de seu filme anterior Un Homme et Une Femme de 1966, o diretor francês Claude Lelouch lançou no anos eguinte Viver por Viver (Vivre Pour Vivre, 1967), um triângulo amoroso vivido por Yves Montand, Candice Bergen e Annie Girardot.

O roteiro não era nada original: Yves Montand interpreta Robert Lacombe, um âncora de um famoso programa da TV francesa, chegado a incorrigíveis aventuras extra-conjugais. Candice Bergen, no auge da beleza, faz o papel de Candice, uma modelo americana de certa fama que faz carreira na Europa. E Annie Girardot dá vida a uma conformada Catherine, emocionalmente dependente do marido Robert, a quem perdoa sempre pelas frequentes infidelidades.

Famoso apresentador da TV francesa, Robert Colomb (Yves Montand), apesar de casado aproveita-se de sua projeção para conquistar várias mulheres. Ele já tem um caso com Mireille (Irene Tunc), mas já está prestes a deixá-la por Jacqueline (Anouk Ferjak).



Não leva muito tempo e ele conhece Candice (Candice Bergen), por quem fica fascinado. Com esta ele faz uma viagem com ela para a África e depois a mantém num apartamento em Amsterdam. Na volta ele decide contar tudo à mulher, Catherine - que apenas silencia. Também informa Candice de que o romance entre eles está acabado por que terá de ir ao Vietnã. Mas fica chocado ao saber que Candice é quem estava cansada dele.

No Vietnã, Robert cai preso dos vietcongues e só é libertado após alguns meses. Neste meio tempo, Catherine resolve se reorganizar, mantendo outros interesses e provando o sabor da liberdade, sem a incomoda influência do marido. Na volta, Robert tenta se reaproximar da ex-esposa, mas agora é ela quem escolheu viver uma nova vida, até o desfecho previsível.


Ao contrário de Um Homem, Uma Mulher, o filme não despertou grande interesse da crítica, salvando-se somente pela bela trilha sonora de Francis lai, um parceiro constante de Lelouch.

A película foi indicada como Filme Estrangeiro no Oscar de 1968 mas só logrou levantar o prêmio de Melhor Trilha Sonora no Golden Globe do mesmo ano, apesar das interpretações maduras e seguras de Montand, Candice Bergen e o charme francês de Annie Giradot.

(vídeos reprodução)

terça-feira, 25 de maio de 2010

COISAS QUE CAÍRAM EM DESUSO (1)...

A vida (pós) moderna trouxe em seu bojo uma série quase infinita de facilidades que hoje nos perguntamos como podíamos viver sem elas. Celular, por exemplo, a comunicação praticamente instantânea e portátil. Não vão bem quinze anos ainda usávamos as anacrônicas fichas de telefone público para um telefonema de emergência.

Computador é outra maravilha, internet a grande invenção do século passado. E isto sem alinhavar aqui o sem número de gadgets eletrônicos que ajudaram a facilitar nossa vida no dia a dia: ipods, GPS, notebooks, celulares de mil funções, palm-tops e por aí vai...

Também o desenvolvimento tecnológico acabou por aposentar de vez antigos hábitos e produtos, que duraram décadas e foram transferidos de uma geração para outra, devido talvez à praticidade, simples tradição ou por falta de um substituto à altura e que hoje pareceriam absolutamente jurássicos. A calçadeira de sapatos, por exemplo.

Tenho a impressão - e memória é bicho seletivo, só retém o que é bom, já dizia Rose Kennedy - que nos anos 60 as fábricas de sapatos nacionais faziam parte de um complô destinado a torturar os pés dos pobres brasileiros. Com exceção de umas duas ou três marcas mais populares de propalada excelência, como Terra, Samello ou Vulcabrás, as outras menos votadas nos ofereciam produtos dignos de um Torquemada.

Não era nada fácil calçar um sapato daqueles de couro, principalmente os "sociais". A pouca teconologia aplicada ao tratamento do couro obrigava a sucessivas camadas de verniz a fim de garantir aquele brilho duradouro, que o contato do calcanhar e laterais do pé com aquela superfície enrijecida nos proporcionava um tratameno digno de tortura chinesa.

Aí, entrava em cena a famosa calçadeira, peça indispensável do universo masculino da época, assim como a navalha de aço sueco, o pincel de barba e a Acqua Velva After Shave. Calçadeira que se prezasse era mesmo aquelas feitas de chifre de boi, rajadinhas, lisas e agradáveis ao toque. Tinha também as de metal, mas essas eram reservadas ao uso profisisonal, isto é, aos vendedores de sapataria. As feitas de madeira eram até razoáveis mas tinham o péssimo hábito de se quebrarem com facilidade.

Calçadeiras ficavam guardadas dentro de outra preciosidade, a caixinha de engraxar sapatos, na saudável companhia de duas escovas, duas latinhas de graxa (uma preta e marrom, que sapato branco era somente para médicos, enfermeiros ou malandros...), outra incolor, duas escovinhas de dente para engraxar a sola, e duas flanelas para "puxar o brilho". E também dois vidrinhos de tinta para o arremate dos bicos dos sapatos, que meninos são danados para chutarem pedras no meio do caminho.

Uma vez por semana meu pai me obrigava a engraxar os sapatos, tarefa mais que enfadonha que eu procurava escapar usando escondido um frasquinho de Nugget Brilho Instantâneo, aqueles que a gente agitava e tinham a esponjinha na ponta. Não dava o mesmo efeito do brilho tirado a flanela, mas enganava direitinho.

Havia ainda a tintura de sapatos em que a gente usava uma mistura e ateava fogo ao couro com uma vela para fixar a cor, mas fiquemos por aqui antes que escandalizemos alguém mais jovem que porventura esteja nos lendo...

(foto reprodução)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

AVENTURAS NÁUTICAS...(4)

Os vagabundos dos mares...

Minha curiosidade a respeito dos veleiros de bandeira estrangeira que demandavam a Amazônia aos poucos deu rendimentos. Logo descobriram que eu falava inglês - algo meio inusitado naquela época e para um garoto de vinte anos - e sem querer me tornei o porta voz e intérprete de alguns alemães, ingleses, escandinavos e franceses que aportavam no Iate Clube do Pará.

Não raro, os conduzia em meu carro para um reparo de emergência numa peça do motor ou conserto de vela ou leme, ou para reabastecer as sempre limitadas provisões. Este contato mais de perto me permitiu aquilatar o grau de indigência financeira em que viviam aqueles "vagabundos dos mares". Nunca achei no meio daquela turma um milionário ou riquinho curtindo uma viagem diferente de férias.

Normalmente eram profissionais liberais, professores ou técnicos de várias especialidades que, cheios da realidade urbana em terra, procuravam uma alternativa mais libertária para seus sonhos e próprias vidas.

Entre eles, destacavam-se os franceses, bastante numerosos, uma vez que a vela é quase um esporte nacional na França. Não por acaso, os grandes velejadores de regatas de oceano eram francos.

Mas os membros desta comunidade flutuante que viajavam aos sabores das correntes e dos ventos nada tinham em comum com velejadores de regata. Eram "cruisers", termo em inglês que pode ser traduzido como "cruzeiristas".

E não era uma vida fácil. Estive em companhia de alguns em barcos que variavam deste um simples 25 pés (7,5 metros!) até veleiros mais bem equipados de 40 pés, 12 metros, uma enormidade na época....

Mas entre eles havia sempre um denominador comum: a vida espartana, feita de pouquíssimos luxos e quase nenhum conforto e a eterna falta de dinheiro, o que os obrigava a trabalhar e fazer bicos em cada porto a fim de seguir viagem até o próximo destino. Uma vida de cão, mas que eles achavam compensador pela sensação de liberdade e domínio do próprio tempo.

Alias, aprendi em meio a esses navegadores que o tempo para eles se conta em outra escala. Ao contrário de terra, seus calendários não são divididos em dias ou semanas e sim em estações. Assim, há a estação do ano propícia - isto é, com ventos, temperatura e correntes favoráveis - para se "cruzar" de um ponto a outro.

No caso do Caribe, por exemplo, a temporada de furacões começava no início de junho e ia até setembro, via de regra.

Daí por que se explicava a quantidade de veleiros europeus que aguardavam em Belém a estação favorável para subir rumo às Antilhas, isto é de outubro em diante.

Outro fator estimulante eram os baixos preços dos produtos alimentícios brasileiros, o que propiciava uma economia considerável quando se tem em mente que o abastecimento em barcos se faz para vários meses. E isto sem contar as jovens companhias femininas para os solitários, fruto da miséria que circundava os portinhos de beira d´agua e muito abundantes naquela orla e a proximidade da zona de baixo meretrício do bairro da Condor.

Aliás, o mais comum eram tripulações de casais ou pequenas famílias, raros eram os velejadores solitários, estes últimos uma figura mítica muito celebrada e respeitada no meio dos cruzeiristas. E estamos falando de meados dos anos 70, quando velejar em oceano era realmente uma proeza, uma vez que não existiam as facilidades de agora.

Navegava-se por cartas náuticas, calculava-se a posição pela altura do sol ao meio dia, utilizando o sextante e almanaque naútico. Não raro fazia-se navegação astronômica à noite pela observação das estrelas e o rumo era marcado por bússola ou na estimada. Nada de GPS, radares, estações de vento e tempo ou chart plotters como hoje em dia.

As manobras de vela eram feitas "à unha", baixava-se e subia-se as pesadas velas na força do braço e não existiam enroladores automáticos de genoa (vela de proa), bat-cars (carrinho com rolamentos que facilitam a subida e descida da vela grande), pilotos automáticos elétricos eram um sonho e mal se desenvolvia o leme (ou piloto) de vento.

No capítulo das comodidades, os veleiros de então eram de um simplicidade franciscana. A maioria, ainda com casco de madeira, faziam água que era uma grandeza, mesmo isolados com verniz e cordões de alcatrão nas juntas do casco.

Alguns eram de aço, poucos em fibra de vidro. Motores eram raros, navegava-se mesmo era à vela, não havia refrigeração (contentavam-se com uma caixa de gelo, forrada de isopor) e iluminação interna era mesmo no lampião a gás ou querosene. Para cozinhar, o equipamento quase padrão era um antigo fogãozinho de duas bocas de marca Primus, alimentado a álcool pressurizado.

Toalete ou banheiro, nem sonhar. Quando no porto as necessidades eram atendidas pelas instalações disponíveis; quando no mar, usava-se mesmo era a borda do barco ou na emergência um balde plástico para o mesmo fim. Mesmo assim, talvez pelo contato direto com a natureza ou alimentação mais natural, eram saudáveis. Naqueles anos todos nunca vi um só caso de doença, mesmo uma gripe entre crianças.

Pelo visual, se reconhecia um verdadeiro cruiser à distância. Livre dos ditames da moda, os homens vestiam invariavelmente umas bermudas e camisetas muito surradas e descoradas, muitas vezes cheias de buracos e os inevitáveis chinelos de dedo, muito longe dos blazers azul marinho e de botões dourados, quepes imaculadamente brancos e dock sides que a mídia nos impingia como imagem de um navegador. E as bundas sempre molhadas dos bancos dos dingues ou caíques (botes de apoio), com que se deslocavam do barco para terra.

As mulheres trajavam também bermudas ou longos vestidos de tecido ordinário, sandálias baixas e os cabelos sempre desalinhados pelo vento constante. As unhas curtas ou quebradas, a pele bronzeada ressecada pelo sol inclemente ou o salitre marinho, demonstravam a dureza da vida a bordo.

Cheguei a ter um petit affaire por brevíssimo tempo com Jacqueline, uma francesa que cruzara o Atlântico velejando em solitário num catamarã (barco de dois cascos) de 27 pés ou 8,10 metros. Apesar de bonitinha e simpática, fedia que nem um gambá - é notória e aversão de franceses por banhos diários - o que ela tentava controlar nos trópicos usando quantidades industriais de perfumes e colônias, com pouco efeito prático. Não é à toa que os melhores perfumes vêm da França...


A vida de cruzeiro tem também lá suas dificuldades...

Apesar de todas essas agruras da vida embarcada, eram felizes à sua maneira esses integrantes desta comunidade flutuante internacional. É claro que muitos abandonaram esta vida depois de algum tempo; outros decepcionaram-se desde o início e não são poucos os barcos colocados à venda nas marinas a preço de banana por gente que sonhou com uma vida livre, mas se esqueceu que há de se pagar por ela. Não existem almoços grátis.

Mas alguns continuaram a singrar os mares anos afora, na vida cigana e tendo que render homenagens somente ao vento, às ondas e às correntes marinhas. Embora aqueles que vivem em terra não os compreendam e também não se cansem de chamá-los de irresponsáveis ou simplesmente loucos, são de um romantismo tocante esses "vagabundos do mar". Que tenham uma longa vida.

(fotos reprodução)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

AVENTURAS NÁUTICAS...(3)

Minha chegada à Belém do Pará, no início dos anos 70, coincidiu também com o período em que a cidade acordava de um quase secular e letárgico sono amazônico, em virtude talvez dos maciços investimentos de infraestrutura (Transamazônica, Belém-Brasilia, Carajás, SUDAM, BASA, etc, etc..) com que o governo militar pretendia dar um salto de modernidade à região.

Talvez em decorrencia disto, foi também uma época aúrea para os clubes que promoviam incontáveis festas, bailes e tertúlias em suas sedes sociais, para saciar a vontade de uma nova jeneusse dorée (juventude dourada), mais liberada e louca para romper com os velhos padrões e a caretice da geração de seus pais.

As piscinas dos clubes nas manhãs domingueiras, depois de uma atribulada noite de sábado circulando entre bailes, botecos e boates, era um dos endereços preferidos para cura da ressaca e azarar as gatinhas do pedaço. E, entre eles, destacava-se o Iate Clube do Pará.

Pequeno parênteses: Belém, antes de Manaus e sua Zona Franca tomarem a dianteira, era conhecida como o Portal da Amazônia. Isto queria dizer que todos os vôos internacionais ou navios de cruzeiro que demandavam a Amazônia faziam suas entradas obrigatoriamente pela capital paraense, o que proporcionava naquela época um afluxo muito grande de estrangeiros. Fecha parênteses...

Pois bem, da pérgola da piscina do Iate Clube eu rebatia minha ressaca com generosas doses de Bloody Mary (uma de minhas manias na época...), enquanto apreciava a movimentação dos barcos atracados no Rio Guamá, em área fronteiriça ao clube. E uma coisa que sempre me chamou a atenção era uma certa presença de veleiros de bandeiras estrangeiras, principalmente depois do mês de agosto.

Para os pouco habituados com as lides náuticas, explico: uma da maiores balelas criadas pela nossa "sabedoria convencional" - aquele festival de idiotices criadas ao longo do tempo por uma séire de desocupados e que ao longo dos anos vão tomando foros de verdades inabaláveis - é a lenda do tal "ovo em pé", colocado por Cristóvão Colombo. Na realidade, uma alegoria banalizada de uma das maiores conquistas do gênio humano.

A bem da verdade, bem mais importante do que a chegada do navegador genovês à ilha de Hispaniola (atual Haiti e República Dominicana) e consequente à América, foi a descoberta do caminho marítimo que permitia às pesadas e pouco estáveis caravelas navegarem ao sabor de ventos e correntes favoráveis, permitindo a vinda e - mais importante - o retorno seguro ao porto de origem.

E era isto que aqueles pequenos veleiros ali à minha frente faziam, seguindo praticamente na esteira das caravelas colombinas: saíam de um porto ao sul da Europa, desciam o Atlântico Norte via Ilha da Madeira e Canárias aproveitando correntes e ventos favoráveis, até as imediações do Equador ou a famosa Zona das Calmarias.

Ali derivavam um pouco à Oeste, cruzavam o Equador rumo ao sul ou continuavam um pouco mais, praticamente bordejando a costa Norte brasileira e a foz do Rio Amazonas, até o encontro com os ventos alísios de sudeste que os impulsionavam rumo ao Caribe.

Dali, na estação adequada, podiam demandar a costa americana ou subir via Bahamas até a Corrente do Golfo e assim seguir novamente rumo leste até os Açores e dali voltar os seus portos de origem na Europa, no que hoje se conhece como a Volta do Atlântico Norte.

E este era o tão afamado "ovo de Colombo"...

Para não me alongar muito, volto no próximo post...

(foto reprodução)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

QUEM SE LEMBRA DE...

...Dóris Giesse?

Um dos mais expressivos rostos que já apareceram na TV brasileira, a carioca Dóris Giesse estudou Filosofia na PUC e pedagofia na Unicamp, mas se formou mesmo foi como bailarina pela Royal Academy of Dance de Londres, aprimorando-se na Juilliard School de Nova Iorque e chegando a integrar o balé Stagium nos EUA.

Apareceu para o grande público brasileiro ao fazer a abertura da novela Brega e Chique, em 1987, da Tv Globo. Sua voz grave e beleza incomum para os padrões brasileiros a levaram um ano depois a apresentar o Jornal de Vanguarda, da Rede Bandeirantes. Já em 1990 estava na Globo como apresentadora do Fantástico.

Em 1991, veio o Dóris ParaMaiores, programa humorístico dirigido por Guel Arraes, onde interpretava Dorfe, um andrógino, em companhia da trupe daquilo que seria o embrião para o programa Casseta e Planeta, Urgente!. A súbita fama parece ter subido à cabeça de Dóris que passou a dar entrevistas de teor polêmico e fazer fotos eróticas - chegou a fazer um belo ensaio para a Playboy e posar nua para capas de revistas - atitudes não muito de agrado da direção da Vênus Platinada.

A gota d´agua foi outro ensaio fotográfico feito para a revista Interview, onde Dóris topou o desafio de posar nua, encenando sua fantasia sexual que era transar com vários homens de cor negra. Encarado como escândalo, o ensaio custou o emprego de Dóris Giesse na Globo, iniciando ali sua derrocada no mundo artístico. Ainda teve uma breve passagem pelo SBT, entre 1994 e 95, onde apresentou o SBT Repórter e o TJ Brasil.

Em 1997, deu luz a um casal de gêmeos e foi contratada da rede record para apresentar a primeira fase do Fala, Brasil, em 1998. Segundo alguns amigos mais próximos, Dóris é casada com um marido possessivo e doentiamente ciumento, o que a forçou a abandonar a carreira televisiva, praticamnete no auge da fama e, por conta disso, passou a ser depressiva e dependente de remédios.

Uma das cenas mais deprimentes foi seu testemunho desesperado no programa sensacionalista de Márcia Goldsmith, em 1997, onde acusa o marido de suas mazelas e confessa o desejo de tentar o suicídio como estratégia para chamar a atenção da mídia.

Coincidência ou não, poucos meses depois, Dóris cai do oitavo andar de seu edificío, estatelando-se sobre um toldo de zinco, o que lhe salvou a vida, apesar de sérias fraturas. Oficialmente, ela tentava resgatar um de seus gatos que escapulira para a janela. Outros, mais maldosos, viam ali o cumprimento de sua ameaça no programa de Márcia Goldsmith.

Hoje, aos 50 anos e recuperada, Dóris Giesse mantém um blog onde publica suas poesias e presta consultoria de jornalismo.

(fotos reprodução)

sábado, 1 de maio de 2010

O UNIVERSO DE GUIMARÃES ROSA...

Depois de quarenta e dois anos estou relendo, "Grande Sertão, Veredas", a obra prima de Guimarães Rosa, escrita em 1956 inicialmente como uma das novelas de "Corpo de Baile", mas depois ganhando consistência para se transformar num dos mais importantes livros da literatura brasileira.

Aos de pouca intimidade com o livro, "Grande Sertão" versa sobre a história de dois personagens, Riobaldo e Diadorim, amigos de infância e tendo o "mundo das gerais" - um espaço geográfico indefinido entre o norte de Minas, Sul da Bahia e sudeste goiano - e a vida da jagunçagem pelos cerrados e veredas do sertão como pano de fundo.

A narrativa, feita de modo não linear por Riobaldo a um misterioso interlocutor que nunca se pronuncia, é um relato minucioso dos códigos de honra e procedimentos dos bandos de jagunços do sertão (não confundir com cangaceiros nordestinos, é outra coisa...) numa recriação da linguagem sertaneja onde narrador e narrativa muitas vezes se confundem.

Pela riqueza linguística da obra, "Grande Sertão, Veredas" foi até comparado a outro grande livro de repercussão mundial, o celebrado "Ulisses" , do escritor irlandês James Joyce e ao longo dos anos serviu de inspiração a outro autores nacionais. Em 1970, a fotógrafa inglesa radicada no Brasil Maureen Bisilliat dedicou um extenso ensaio fotográfico sobre o mundo descrito por Guimarães Rosa, que alcançou sucesso mundial.




Em 1985, a TV Globo apresentou uma mini série com roteiro adaptado e que tinha o mesmo título do livro, e com participações de Toni Ramos no papel de Riobaldo (um tremendo miscasting, na minha opinião...), Bruna Lombardi como Diadorim (revelação de Bruna como atriz e seu primeiro nu frontal, ao vivo e a cores) e um show de interpretação de Tarcisio Meira como o chefe de jagunços Hermógenes.

Enfim, ao longo dos anos, "Grande Sertão, Veredas" se firmou como uma das mais importantes obras da nossa literatura e rito de passagem obrigatório para quem pretende entender um pouco da alma brasileira. Simplesmente indispensável !

(foto reprodução)