segunda-feira, 26 de abril de 2010

OS 'MALDITOS"...

No início dos anos 70, as velhas fórmulas que haviam norteado a produção musical brasileira de massa pareciam haver se esvaziado. A Bossa Nova era mais um fenômeno americano que nacional, as "músicas de protesto" haviam desaparecido junto com os festivais.

O rock nacional (Mutantes, Liverpool Sound, O Terço, Som Nosso de Cada Dia, etc...) ainda era embrionário, o samba "autêntico", após um renascer promissor no início dos anos 60 havia caído em completo ostracismo e resistia bravamente nos terreiros e fundos de quintais cariocas. E a pretensa psicodelia dos tropicalistas não resistira ao exilio londrino de Caetano e Gil, seus dois principais mentores.

Com um mercado consumidor em plena ascensão, restou aos produtores musicais partir para a música regional, em busca de outro filão milionário. E não me refiro à música caipira, que esta sempre teve seu segmento, ou a tradicional MPB, assim como aquilo que depois se convencionou chamar de "múscia brega".

E os primeiros a entrar nova nova onda foi um tal Pessoal do Ceará, uma criação coletiva e meio eclética que reunia Fagner, Belchior, Ednardo, Tutty e Rodney Rogério, que estouraram ali por 1973. Na sequencia e na esteira da onda vieram Amelinha, Zé Ramalho da Paraíba, Elba Ramalho, Alceu Valença, Quinteto Violado...

Aparentemente, os produtores haviam acertado na veia: de Minas, vieram Zé Geraldo, Lô e Márcio Borges, Beto Guedes, Wagner Tiso, esses últimos através de belíssimo trabalho coletivo nos discos "Clube da Esquina" I e II, e "Minas", de Milton Nascimento.

Do Espírito Santo, aparece o rascante Sérgio Sampaio botando seu bloco na rua e da Bahia as vozes rijas e sertanejas de Xangai e Elomar.

E junto com esses novos arautos da música brasileira vieram também novos autores e compositores, às vezes completamente desconhecidos da imprensa e público como o cearense Fausto Nilo, Petrúcio Maia ou o baiano Wally Salomão, se bem que este último já engajado com os novos cantores da Bahia, como Gal Costa ou Maria Bethania.

Alguns desses nomes foram catapultados quase instantaneamnete para o sucesso , solidificando ao longo do tempo suas carreiras como Fagner, Elba, Zé Ramalho. Outros, apesar do investimento da indústria fonográfica e da simpatia de grande parte da mídia, emplacaram um ou dois sucessos, mas não se revelaram grandes vendedores de discos, o que naquela época era o sustentáculo da carreira de qualquer artista.


"Dorothy Lamour" (Petrucio Maia-Fausto Nilo), uma de minhas músicas "de cabeceira".

Daí, logo caíram no pejorativo e perigoso epíteto de "malditos", isto é, apesar de tocados nas rádios e fazerem shows país afora, contarem com apoio e benevolência da crítica musical, não conseguiam transformar este sucesso em vendas efetivas.

Com o tempo, por desinteresse da gravadora ou mesmo descontentamento do artista, saíram de cena ou caíram no esquecimento do grande público. Outros, reinventaram a carreira, ficando circunscritos ao panorama local de suas regiões de origem. Vez ou outra, dependendo como está o humor da grande mídia, um nome vem á tona, desfiando seus grandes sucessos de décadas atrás.

É importante lembrar que Milton nascimento no início de carreira nos anos 60, era tido como um dos grandes "malditos" da cena musical brasileira, só deslanchando em termos de mercado após o lançamento dos sensacionais LPs "Clube da Esquina" e "Minas", já referenciados anteriormente.

(Fotos e vídeos reprodução)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

AMARGO REGRESSO...

" O ano de 1978 foi politicamente histórico para o cinema americano. Enquanto Francis Ford Coppola penava para finalizar Apocalypse Now, chegavam às telas os dois primeiros filmes que abordavam de forma contundente a guerra do Vietnã. Eram eles O Franco Atirador e Michael Cimino e Amargo Regresso, de Hal Ashby.

Três anos após o traumático fim da guerra as feridas ainda estavam expostas e Hollywood descobriu que a melhor forma de cicatrizá-las era trazendo a discussão à tona. Resultado: o Franco Atirador e Amargo Regresso foram os dois principais candidatos ao Oscar, totalizando 17 indicações e gerando um verdadeiro Fla-Flu ideológico.



Amargo Regresso, projeto pessoal de uma atriz politicamente engajada como Jane Fonda era tido como um filme liberal e pacifista , o Franco Atirador, apesar de suas inegáveis qualidades técnicas, sofreu com acusações de racismo e desrespeito aos vietnamitas. A Academia acabou dando as estatuetas de Melhor Filme e Diretor para o Franco Atirador, enquanto Amargo Regresso ganhou os Oscars de Melhor Atriz, Ator e Roteiro Original.

O importante é que, ideologias à parte, o bom cinema saiu vitorioso. Pode-se observar como o discurso de Amargo Regresso, três décadas depois, permanece tão atual e contundente, e é triste constatar que os sucessivos governos americanos não aprenderam nada com ele. Quem também não aprendeu foi o ator Jon Voight, esse mesmo que tem uma atuação memorável e emocionante como o ex-combatente paraplégico.

Voight virou um reacionário que apóia a permanência do exército americano no Iraque e hoje é mais conhecido como o pai da Angelina Jolie. Uma pena, mas o que importa é poder apreciar o trabalho do diretor Hal Ashby, o mesmo de Muito Além do Jardim e Ensina-me a Viver. No melhor de sua forma, Ashby mostrou sensibilidade de sobra para filmar a transformação de dois personagens que mostram que a melhor bandeira pela paz é a conscientização.">

(texto compilado do crítico de cinema Marcelo Janot)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

AVENTURAS NÁUTICAS...(2)

Em termos de esportes, meu interesse maior sempre foram as competições automobilísticas. Mas nesta seara, Belém do Pará, em 1971, era um completo deserto. Além de não existir nenhum tipo de corridas, não havia também tradição nesta área. O jeito então foi achar um substituto.

Neste época eu conseguira meu primeiro emprego num banco. Não pagava muito, dava apenas para minhas despesas pessoais, mas eu não trabalhava por necessidade, apenas para ter um dinheirinho. No trabalho conheci um colega que remava no Payssandu e não demorou muito me levou para lá, pois necessitavam de uma guarnição nova para as próximas regatas.

No primeiro dia levantei às cinco da manhã e às seis em ponto já estava na garagem no Porto do Sal, beira da Baía do Guajará. Ali fui apresentado ao Jonas, mulato forte e entroncado, ex-boxeur do clube e que fazia uns bicos como patrão de barcos.

Conheci também o restante da guarnição: Baturé, um ex-rato d´agua (ladrão de barcos atracados) que acabara de cumprir pena no presídio e estava sendo "recuperado para a sociedade" graças à boa vontade do Jonas. Os outros eram o Chouriço (filho de um açougueiro e fanático por regatas) e um garotão boa pinta alto e magro chamado de Ferrolho de Igreja, logo abreviado para Ferrolho, filho de um dos diretores e beneméritos do clube.

Assim, com esta eclética guarnição, iniciamos nossos treinamentos. Nos primeiros dias ficávamos na "piscina", na realidade um grande tanque vazio onde instalaram um carrinho e engate de dois remos. Era ali que treinávamos o uso do "carrinho", o encaixe e ritmo das remadas, posicionamento de braços, pernas e costas, etc. Na primeira semana quase desisto de tantas dores musculares, mas que foram diminuindo à medida que intensificavam os treinos.

Aprendi também naqueles dias que o uso de apelidos - intencionalmente ou não - tinha o objetivo de descaracterizar diferenças sociais externas e a faina diária de retirar os barcos de seus berços, lubrificar carrinhos e engates dos remos, colocá-los ao ombro e levá-los até a água despertava naquele grupo heterogêneo um certo sentimento de camaraderie, de espírito de equipe, fundamental em quem pratica esportes coletivos.

Com exceção, é claro, dos patrões de guarnição que nos tratavam aos berros e impropérios, dignos da cortesia e gentileza de marinheiros bretões...

E finalmente chegou nosso dia de ir à água. Como de praxe, iríamos compor a guarnição de um pesado iole quatro-com (isto é, com patrão) e de acordo com o tipo físico de cada um e as habilidades pessoais fomos agraciados com os seguinte postos: Baturé na proa, Ferrolho de sota proa, eu de sota-voga e Chouriço na voga, considerando o sentido proa-popa e o patrão sentado na extremidade traseira, controlando ritmo e o leme da embarcação.

Nossa estréia se deu em grande estilo, com ondas curtas de uns 50 centímetros na Baía do Guajará, o que dificultava enormemente o encaixe das remadas. Ninguém escapou de uma ou duas "enforcadas" (quando se erra o encaixe da remada e este volta abruptamente contra o remador, em função da velocidade desempenhada pelo barco), com umas porradas seguras no peito ou nos obrigando a rápidas abaixadas.

E assim passamos os três próximos meses, treinando religiosamnete três vezes por semana, das 5:30 às 7:00 da manhã. Aos poucos perdi o excesso de gordura corporal, substituida por músculos elásticos e um corpo esguio, como nunca tivera antes. Levava uma vida espartana, cuidando da alimentação e horas de sono, esperando minha primeira regata.

Quando achou que estávamos no ponto, Jonas anunciou a grande novidade: na próxima regata faríamos nossa estréia. É importante lembrar que naquela época regatas a remo eram uma verdadeira instituição dentro do calendário esportivo de Belém.


Quatro clubes lutavam acirradamente a hegemonia do remo local: Clube do Remo, Payssandu, Tuna Luso e Bancrévea, este último a agremiação esportiva do Banco da Amazônia. Na época, basicamente quatro categorias disputavam as regatas, de acordo com o nível e especialidade dos remadores: abria-se com os ioles quatro-com e sem-patrão, seguia-se com o double skiff, o single skiff e por fim a grande atração, o oito-com patrão, também chamado de outrigger.

No dia da regata levantei meio agitado e cheguei muito cedo à garagem a fim de ajudar a embarcar nosso iole. Baturé e Chouriço já estavam por lá e me confidenciaram suas suspeitas sobre a real condição física do Ferrolho, que aparentava ter varado a noite na bandalheira. O homem estava numa ressaca e bafo de cerveja dormida de dar pena e dó...

O mau estado do nosso sota-proa não passaram despercebidas pelo atento Jonas, que já foi enquadrando o homem, no seu linguajar típico: "Ferrolho, seu FDP, se não estás em condições de remar, avisa logo que eu arranjo um substituto enquanto é tempo. Agora, se tu subires naquele barco e me fizeres uma presepada, eu te juro que te quebro de porrada, tu podes me acreditar..."

Mas o Ferrolho jurou de pés juntos que estava bem e daria conta do recado. Assim fomos meio desconfiados para o lugar da largada, início da raia de uma milha náutica, ou seja, 1.852 metros. Estréia é uma merda, não tem quem não fique nervoso. Pouco antes do nosso barco ir para a água, ouvimos a preleção do Jonas, patrão muito experiente nessas águas.

No primeiro terço da raia o pessoal dos quatro clubes anda todo junto, se resguardando e estudando as outras guarnições. No segundo terço aí um ou outro já se destaca, ás vezes negaceando a real estratégia ou mesmo tentando se desgarrar para assumir uma dianteira mais confortável. No último terço é pau puro, neguinho puxando remo com vontade até uns 100 metros da chegada. Aí, é o sprint final, quem guardou reserva ou ainda tiver fôlego e forças nos braços, que mostre a que veio, é onde se decide a regata...

Saímos em segundo, atrás do iole do Clube do Remo e fomos seguindo o script descrito anteriormente pelo Jonas. A orla da baía se mostrava toda engalanada, bandeiras e enormes flâmulas dos clubes. Gente por todo o lado, à distância algumas lanchas e pequenos barcos nos acompanhavam como numa procissão. Os torcedores nos gritavam palavras de incentivo e soltavam rojões comemorando a passagem dos barcos.

Fomos mantendo o segundo lugar, eu de olho nas remadas do Ferrolho, mesmo por que não tinha outro referencial que não o companheiro à frente e as ordens gritadas pelo patrão. Quem rema em equipe sabe disso. Mas até ali tudo bem, apesar da sua respiração muito pesada, que me fazia descrer se ele aguentaria até o final.

Chegamos enfim à zona perigosa, os trezentos metros finais, onde tudo se decidia. De acordo com as ordens do patrão, Baturé na proa, um prodígio de resistência e força ia aumentando o ritmo das remadas, acelerando a velocidade do barco. Ferrolho lhe seguia as remadas e eu a ele, concentrado ao máximo para não errar.

Chegamos aos 100 metros e agora é um salve-se quem puder. Buscando forças sabe Deus aonde, Baturé aumenta ainda mais o ritmo das remadas, meus pulmões queimam, os músculos dos braços e pernas doem terrivelmente. Foco minha atenção no meio das costas suadas do Ferrolho, mas confiro com o canto do olho que vamos abrindo uns cinco metros do outro barco.

Concentração máxima no ritmo e encaixe das remadas, não é hora de cantar vitória, mas começo a acreditar que dá para ganhar. O incrível Baturé puxa o ritmo ainda mais, faltam talvez uns cinquenta metros, se muito. Ferrolho resfolega com um barulho terrível na minha frente, sua boca começa a espumar. E acontece o que mais temíamos e no momento menos adequado.

Exausto e à beira de uma apoplexia, o maldito Ferrolho levanta o remo aos gritos de "não aguento mais..." O iole parece sofrer uma súbita freada; sem referencia nenhuma erro a remada, e por consequencia o Chouriço também. O barco desestabiliza e acontece o maior vexame para um remador: o barco vira e caímos na água a meros 30 metros da linha de chegada, sob os apupos e vaias do imenso público que se acotovelava na Praça do Pescador.

Meio atordoado, consigo voltar à superfície das águas turvas da baía e me seguro na lateral do iole. Remos se vão correnteza abaixo, alguns recuperados pelo pessoal do clube que aguardava numa lancha junto ao juiz de chegada. Nos reunimos em torno do barco mas o Ferrolho não voltou à ainda à superfície. Jonas e Baturé mergulham novamente à procura do companheiro, e vem o medo dele estar se afogando.

Um barco metálico dos bombeiros se aproxima para o nosso resgate e vimos com alívio o Ferrolho ser resgatado já quase na escadinha de acesso à feira do Ver o Peso. Aguardamos o retorno de Jonas e Baturé, os embarcamos, recuperamos o iole e vamos diretamente para a garagem do clube que não é muito longe. Neste meio tempo, Ferrolho foi levado para um hospital por sua família a fim de se recuperar. Estava à beira de um ataque cardíaco.

Na garagem tivemos que aguentar calados a gozação dos outros remadores e o esporro dos diretores do clube. Jonas não se controlava, prometendo quebrar o ferrolho de porrada quando cruzasse com ele, jamais passara tanta vergonha na sua vida de patrão de barcos.

Eu estava absolutamente extenuado e bastante decepcionado com a vitória que nos escapara entre os dedos. Achei que era demais, não precisava ouvir aquelas chacotas e bravatas, já tivera meu quinhão nas regatas.

Nunca mais voltei à garagem. Minha carreira no remo terminava ali.

(fotos reprodução)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

AVENTURAS NÁUTICAS...(1)

Como o próprio sub-título do blog diz, um dos propósitos do Pasquineiras é também desfiar memórias e testemunhos. Portanto, aqui vai uma pequena série sobre o início de minhas "aventuras marítimas".

Fui criado numa pequena cidade do Centro Oeste próxima a Brasilia. Para mim, o mar era então uma mera referência geográfica ou poética que eu admirava em pinturas, fotos ou no cinema.

A coisa começou a mudar de figura quando me mudei para Belém do Pará no início de 1971, com quase dezoito anos de idade. Ali, da Praça do Pescador ou do Mercado do Ver o Peso eu via desfilar ante meus olhos barcos das mais variadas formas e matizes: as pequenas e ágeis montarias a remo, os costeiros de uma pena (só uma vela), os pó-pó-pó (barcos de transporte com motor central a diesel), os lanchões (verdadeiros ônibus e trens aquáticos), os regatões - enormes barcos de carga que comerciavam de "um tudo" com os ribeirinhos nos mais distantes rincões amazônicos.

Um pó-pó-pó na imensidão amazônica...

Um lanchão, verdadeiro ônibus e trem aquático da Amazônia...
Mesmo ali não ouvi o primeiro chamado do mar. Talvez por que as águas turvas e turbulentas da Baía do Guajará nem de longe lembravam as ondas verdes do litoral ou o azul indigo das águas profundas do oceano que eu havia imaginado. Depois de algum tempo, passei a frequentar as praias fluviais da Ilha do Mosqueiro ou da atlântica Salinópolis, mas meu interesse na época estava focado no triângulo garotas-cerveja-praia, nesta exata ordem.

Meu primeiro interesse por barcos e o povo do mar surgiu quase por acaso. Numa travessia de barco entre a cidade de Marudá e a então quase deserta Ilha do Algodoal com alguns amigos, nos deparamos com um pequeno veleiro francês encalhado na entrada do canal de acesso à ilha.

Solicitado a ajudar os pescadores no desencalhe, foi a primeira vez que efetivamente toquei num veleiro e tive ali a oportunidade de conhecer um dos maiores mitos da vela oceânica, François, o navegador solitário.

Após seis horas de dura labuta, finalmente conseguimos libertar o pequeno veleiro com a chegada da maré alta. Aos poucos, vi o François levantar e regular velas, assumir o leme e acenar para nós à distância num último agradecimento, enquanto o barco aproava mar afora, seguindo assim seu caminho e sina.

Minha ignorância em assuntos náuticos na época, também não me permitiu reconhecer uma jóia do mundo dos barcos. Aquele veleiro era um legítimo Sparkman & Stephens, um design clássico construído em madeira moldada, o estado da arte da construção de cascos de veleiros. Só fui descobrir alguns anos mais tarde quando me interessei e passei a ler tudo sobre barcos.

Mas isto conto em outro post...

(fotos reprodução)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

A CORAGEM DE OUSAR...

Alguém já disse que é possível se fazer um estudo sociológico de um povo analisando somente seus comerciais. Se isto é verdade, quem se debruçar sobre a atual propaganda brasileira, principalmente a veiculada em televisão, vai rapidamente chegar à conclusão que somos um povo de retardados mentais, analfabetos funcionais ou uns idiotas cheios de "atitude".

A que ponto chegou a publicidade brasileira, outrora considerada uma das mais criativas do mundo. É só relembrar as campanhas memoráveis do Guaraná Antártica, os belos comerciais da Hollywood, o requinte e finesse das campanhas do cigarro Carlton, os inesquecíveis jingles ("liberdade é uma calça velha, azul e desbotada"...), os tipos histriônicos como o Carlos Moreno da Bom Bril, o baixinho da Kaiser ou a inteligente sacada da Brastemp, criando o bordão "não é uma Brastemp", só para lembrar de alguns que me vêm agora à memória.

Talvez sinal dos tempos - o tal pós-modernismo - onde hoje os grandes anunciantes (falo de TV, o meio de comunicação mais influente) no Brasil são as montadoras de automóveis, cervejarias ou as operadoras de celulares, que renunciam à ousadia e à criatividade em benefício de comerciais insossos e previsíveis, cada um parecendo mais com o outro que até confunde a cabeça do consumidor.

Carros são sempre mostrados rodando em cidades imaginárias, cercado de tecnologia de última geração. As cervejas são sempre anunciadas em bares moderninhos em meio a uma turma de jovens modernetes e descolados ou em cenários praianos com a chatésima e onipresente Ivete Sangalo se esgoelando a plenos pulmões para nossa desdita.



Longe vão os dias dos comerciais ousados e bem humorados, filão em que há anos aposta a americana Budweiser. Qual cervejaria brasileira teria peito para um comercial como o mostrado acima? Se até um despretensioso filme da Devassa com a panaquíssima (mas bilionária, diga-se) socialite americana Paris Hilton foi retirado do ar, imagine algo do gênero da Bud Light?

Seriam apedrejados em praça pública...

(vídeo reprodução)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O HUMOR ESCRACHADO DE COSTINHA...

Na esteira de uma dica do Pé de Chumbo, aqui vai uma homenagem a um dos maiores cômicos que este país já teve: Lírio Mário da Costa, ou o Grande Costinha. Abre aspas e alas para o homem:

"Nascido no Rio de Janeiro, capital federal na época, Costinha vem de família de cunho artístico: seu pai foi palhaço de circo. A infância circense iria influenciar a trajetória do humorista de forma definitiva. Porém, a situação estável da família muda quando ele completa treze anos: seu pai e grande ídolo, abandona a família.

Então, o então menino Costinha tem de deixar a vocação artística e pegar no batente. Foi, dentre outras profissões contínuo, garçom de botequim, engraxate e até apontador do jogo do bicho. Esse convívio ao lado de tipos urbanos e muitas vezes até marginais do Rio dosanos 40, seria muito importante nos personagens feitos pelo humorista posteriormente.

Em 1942, emprega-se como faxineiro da Rádio Tamoio. Pelo novo veículo ganha sua grande chance, sendo radioator em diversos e importantes programas da época como "Cadeira de Barbeiro", "Recruta 23" e mesmo na primeira versão radiofônica da Escolinha do Professor Raimundo. Fez parte do cast de importantes emissoras da época como a Record e também a Mayrink Veiga.

Também era cômico no Teatro de Revista, tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro.Em seguida, no veículo pelo qual se tornaria um astro nacional pelas piadas obscenas e pelas famosas imitações de "bichinha".

Costinha e o show do improviso na segunda parte do comercial...

Já como grande personalidade consagrada, Costinha fez diversas propagandas, destacando-se na das Loterias do Rio de Janeiro (onde chegou a ser dirigido pelo cinemanovista Cacá Diegues). A série de discos de humor nos anos 70 e 80 “O Peru da Festa” e “As Proibidas do Costinha”, tiveram grande vendagem pelo selo CID.

No cinema, sua participação foi intensa desde os anos 50 Sua primeira participação foi logo no polêmico “Anjo do Lodo” de Luiz de Barros. O filme foi a segunda adaptação do livro "Lucíola" de José de Alencar para as telas. Voltaria as ordens de Lulu de Barros em “O Rei do Samba”, biografia do lendário sambista Sinhô.

Seu tipo franzino e marcadamente de cabelos engomados, era perfeito para papéis secundários e pontas das chanchadas. Essa função, ele desempenharia com atores comoWilson Grey, Wilson Viana e tantos outros dessa geração. A produtora dominante da época, a Atlântida, tinha astros cômicos como Oscarito, Grande Otelo e diretores como Carlos Manga. Já a secundária mas não menos importante, Herbert Richers apostava em outros nomes da época, como Ankito e em realizadores como Victor Lima e J. B. Tanko.

Costinha logo é chamado pela segunda para desempenhar papéis secundários. Às vezes conseguia ser bandido (“De Pernas pro Ar”), um aspone do Carlos Imperial (“Garota Enxuta”) ou mesmo umfotógrafo de jornal (“É de Chuá”). O melhor filme de toda essa fase é “Sherlock de Araque”. Outros filmes do período na época são feitos ao lado deZé Trindade.

Com a chegada de movimentos cinematográficos mais ambiciosos e pretensamente intelectuais de Gláuber Rocha e seus pares, o espaço de comediantes oriundos da chanchada foi a televisão. Nos anos 60, pouquíssimas comédias ou filmes populares foram feitos no Brasil comparados com a década anterior. Uma exceção é um interessante ciclo de fitas policiais e nazi-exploination (“Os Carrascos Estão Entre Nós”). Porém, nomes como Oscarito, Grande Otelo e Ankito se viram mais sem meio do cinema e o estrelato de antes.

Mas a televisão, se mostra um excelente meio para os até então secundários em chanchadas. Por ele, Costinha consegue se tornar uma personalidade conhecida em todo território nacional, levando milhares de brasileiros a darem muitas risadas.

Os anos 70, trazem os velhos comediantes de volta as telas. O cinema volta a ser popular. Seja em filmes urbanos (“Como Ganhar na Loteria Sem Perder a Esportiva”), homenagens à chanchada (“Salário Mínimo”), filmes de juventude (“Amor em Quatro Tempos”) ou mesmo em pornochanchadas (“Histórias Que As Nossas Babás Não Contavam”).

Outra coisa típica da década mais dinâmica da carreira cinematográfica do comediante foi as paródias em que ele foi o personagem principal em diversos filmes. Isso ocorre em fitas como “O Libertino”, “O Homem de Seis Milhões de Cruzeiros Contra as Panteras”, “Costinha, o Rei das Selvas”, “Costinha e o King Mong”, “As Aventuras de Robinson Crusoé".

Neste último, faz par com Grande Otelo, dom direção de Mozael Silveira. Continua atuando em diversas peças de teatro, programas como "Apertura" (Rede Tupi), “Apertem o Riso” (Rede Manchete), “Planeta dos Homens” e "Chico Anysio Show" (Rede Globo), Lírio Mário da Costa continuou levando alegria e risos para milhares de brasileiros.

Gravou vários discos de piadas, sendo os mais famosos os da série O Peru da Festa. Trata-se de uma série de cinco LPs pela gravadora CID. Todos vinham com a tarja "Proibida a execução pública e a venda para menores de 21 anos", não só pelas piadas consideradas pesadas, mas pelas capas sugestivas. No primeiro volume, Costinha parecia estar nu, com uma mesa tapando suas partes íntimas e um peru assado sendo servido sobre ela. Seu último papel foi como "Seu Mazarito" na Escolinha do Professor Raimundo (1990/1995).

Em 4 de setembro de 1995, Costinha deu entrada no Hospital Pan-Americano, no Rio de Janeiro com falta de ar, falecendo no dia 15 do mesmo mês aos 72 anos, de enfisema pulmonar. Foi enterrado no Cemitério São João Batista. Foi casado com Irany Pereira da Costa, com quem teve quatro filhos naturais e adotou outros três."

(foto reprodução/texto Wikipédia)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

AMERICAN GRAFFITI...

É curioso que grandes diretores do cinema tenham iniciado suas carreiras com filmes praticamente autobiográficos. É o caso de Peter Bogdanovich em "A Útima Sessão de Cinema" ou Oliver Stone em "Platoon". Nesta turma inclui-se com muita propriedade o celebrado mago dos efeitos especiais George Lucas, criador da inesquecível trilogia "Star Wars".

"American Graffiti", conhecido no Brasil como "Loucuras de Verão", é um filme de 1973 escrito e dirigido pelo hoje celebrado mago dos efeitos especiais George Lucas, criador da inesqucível trilogia "Star Wars".

Baseado nos primeiros anos de sua juventude em Modesto, Califórnia, o filme é um clássico sobre a juventude americana do pós guerra e versa sobre a história de quatro amigos - Curt Henderson (vivido por um jovial Richard Dreyfuss), Steve Bolander (Ron Howard), John Milner (Paul Le Mat), e Terry "Toad" Fields, interpretado por Charles Martin Smith, na última noite de verão e fim do período escolar, no ano de 1962.

O argumento é de uma simplicidade tocante e define bem o perfil dos jovens americanos no início dos anos 60, com seus padrões de comportamento, mitos, anseios e dúvidas às vésperas de ingressarem no mundo adulto. E para quem gosta de rockabilly e carrões americanos da época, "American Graffiti" é um prato cheio pois o filme abusa do "cruising", o hábito de circular de carro nas noites de sábado, ao som das rádios FM, um "must" naquele tempo.


A começar do Chevrolet Impala 1958 que Steve Bolander empresta naquela noite para Terry "Toad" Fields (que faz o adolescente nerd sem sucesso com as garotas), o belo hot rod amarelo de John Milner (que interpreta o jovem rebelde sem causa e ganhador de todos os rachas de carros na cidade...), o Chevy 1955 preto dirigido por Harrison Ford (que faz uma ponta como Bob Falfa, o desafiante de outra cidade) e um magnífico Ford Thunderbird 1956 branco dirigido por uma monumental loura e que dá o toque de mistério ao roteiro.

Apesar da estereotipia dos personagens, "American Graffiti" se tornou um filme cult no correr dos anos e um dos mais rentáveis na história do cinema: de um pequeno orçamento de 730.000 mil dólares a película arrecadou U$ 200 milhões e catapultou George Lucas ao panteão dos grandes diretores.

Para quem gosta do clima dos sixties, é um filme absolutamente imperdível. A propósito, onde você estava no verão de 1962?

(foto reprodução)

sábado, 3 de abril de 2010

A ELEGÂNCIA DO COMPORTAMENTO...

Em tempos que educação, ética e comportamento passam por sérias transformações- infelizmente para pior - nunca é demais lembrar o texto do poeta Paul Valéry:

"Há algo muito difícil de se ensinar e que, talvez por isso, esteja cada vez mais raro: a elegância do comportamento.

É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange
bem mais do que dizer um simples obrigado, diante de uma gentileza.

É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto.

É uma elegância desobrigada.


É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam. Nas pessoas que escutam mais do que falam, e quando falam, suas palavras são melhores do que o silêncio e passam longe da fofoca, das pequenas maldades ampliadas no boca-a-boca.


É possível detectá-la nas pessoas que não usam um tom superior de voz
ao se dirigir às pessoas simples que trabalham como garçons, sommeliers, atendentes, etc....
Elegância é possível de ser detectada também nas pessoas pontuais, que levam em consideração o tempo dos outros.

Elegância está presente também nas pessoas que evitam os assuntos constrangedores porque não sentem prazer algum em humilhar o seu próximo.
Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem presenteia fora das datas festivas, é quem cumpre o que promete e, ao receber uma ligação, não recomenda à secretária que pergunte antes quem está falando e só depois manda dizer se está ou não está.

Oferecer flores é sempre elegante. É elegante não ficar espaçoso demais. É elegante você fazer algo por alguém, e este alguém jamais saber o quanto você teve que se arrebentar para fazê-lo.


É elegante ter uma bela personalidade. É elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais.
É elegante retribuir carinho e solidariedade. É elegante o silêncio, diante de uma rejeição...

Sobrenome, jóias e nariz empinado não substituem a elegância do gesto. Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar nele de uma forma não arrogante.


É elegante a gentileza. Atitudes gentis falam mais que mil imagens. Abrir a porta para alguém, dar o lugar para alguém sentar, procurar sorrir, oferecer ajuda, olhar nos olhos ao cumprimentar e ao conversar sempre é muito elegante e faz muito bem a alma de quem recebe e de
quem faz.

Pode-se tentar capturar esta delicadeza natural pela observação e
empenho sincero, mas tentar imitá-la falsamente é improdutivo. A saída é desenvolver em si mesmo a arte de conviver, que independe de status social.

Vamos pedir licença para o nosso lado brucutu, que acha que "com amigo não tem que ter estas frescuras", pois se os parentes, amigos e mais chegados não merecem cordialidade os desconhecidos ou desafetos é que irão desfrutá-la?


Educação enferruja por falta de uso e não é frescura. Seja elegante ... pelo menos tentar já é um começo. É elegante saber divergir, saber respeitar a opinião alheia, saber
defender a opinião alheia, mesmo que aquela nos ofenda....

É elegante saber somar e não dividir...é elegante lutar pelos seus pontos de vista desde que saibamos argumentar...
A elegancia é a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado sutil de se deixar distinguir".

(Paul Valéry)


(foto reprodução)