terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A VIDA EM DUAS RODAS...

Quem foi adolescente ali pelo final dos anos 60 passou também por um diferente rito de passagem. Além de todas as transformações políticas, culturais e sociais típicas daquela época, essa geração foi a primeira verdadeiramente motorizada no Brasil. Foram os primeiros a desfilar em carros, motonetas ou motos próprias, abrindo mão do "carrinho do papai".

Foi a época também em que começou a invasão das "japonesas", motos de pequena cilindrada conhecidas genericamente como "cinquentinhas", muito embora a capacidade cúbica dos motores pudesse variar de 65 a 90 cc. Essas motos foram o sonho motorizado de muito garotão, substituindo as obsoletas e caretas Lambrettas e Vespas, que mais se adaptavam aos gostos dos "rebeldes" remanescentes dos anos 50, e que já estavam se tornando respeitáveis senhores de família.

Não sei por que cargas d´agua sempre andei na contra mão da história. Falta de dinheiro ou oportunidade, talvez. Assim, minha primeira moto nunca foi e nem jamais me sentei aos comandos de uma "cinquentinha". No capítulo motocicleta, em toda minha vida tive dois exemplares, cada um mais raro que o outro. A primeira foi por mero acaso, obra e graça de um tio jogador inveterado que a ganhou numa mesa de pôquer e que a deixou estacionada em minha casa por vários meses.

Era nada menos que uma BSA A7 Star Twin, hoje uma motocicleta clássica. Bicilíndrica, 500 cc, quatro marchas com mudança no pé direito e freio no esquerdo. Preta, como convinha a uma moto inglesa e detalhe cromado no tanque, ressaltando o logo de fábrica em vermelho. Linda, absolutamente impecável. Mas naquela época, 1969, já soava como uma raridade jurássica frente aquelas mais modernas enceradeiras japonesas que circulavam na cidade nas mãos da moçadinha irresponsável.

No início, foi dificil me entender com a enorme (na época) BSA. Partida no pedal, demandava uma certa técnica ao puxar o afogador, atrasar o ponto da ignição, dar umas pedaladas básicas até o pistão atingir o ponto morto superior. Daí, uma pisada firme no kick starter e rezar para que o motorzão de dois cilindros acordasse na primeira tentativa. Caso contrário, o jeito era se livrar logo do contragolpe na canela, efeito da elevada taxa de compressão que produzia ainda o famoso som que lhe valeu o apelido onomatopaico de "Massachussetts..."

Afora o drama de acionar corretamente o motor, a BSA era só alegria para um moleque de 16 anos. Eu a usava todas as manhãs para ir ao colégio, e depois vagabundear pelas ruas da pequena cidade, azarando a saída das garotas da escola, ou fazendo tipo com os inseparávéis jeans, blusão luvas e botas de couro negro, encimados por uns antigos óculos escuros Ray Ban Aviador.

Perto das esquálidas "cinquentinhas" japonesas, o porte altivo e o pou-pou-pou sincronizado do ronco dos dois cilindros revelavam-se à distância e não demorou muito para que todas as belas meninas do local se candidatassem a uma voltinha pelos arredores, montadas na garupa da BSA, para desespero dos adeptos das pequenas e insossas asiáticas.

Mas a inglesinha tinha lá também suas idiossincrasias. Na estrada era uma delícia, cruzava fácil a 140 Km/h, mas os freios a tambor eram deficientes e nas curvas mais rápidas o temperamento instável da BSA 500 demandava alguma atenção. Tinha o péssimo hábito de assinalar sua passagem com manchas de óleo que vazava abundantemente pelas juntas do motor e câmbio.



Logo me cansei da vida urbana e descobri os prazeres das pequenas viagens, visitando as atrações das cidades interioranas do Planalto Central ou mesmo Brasilia, um dos meus destinos favoritos de fim de semana naqueles tempos.

Para essas incursões mais longas nós usávamos como carro de apoio um valente Jeep Willys 1951, que num futuro bem próximo seria meu primeiro carro. O saco era ter que aguardar as "cinquentinhas" que esgoelavam os motores para andar a meros 90 km/h enquanto eu andava a apenas meio acelerador á mesma velocidade.

Na época, a BSA 500 era somente rivalizada em desempenho na cidade por uma Ducati 250 cc de dois tempos, um furacão italiano impertinente que andava mais que notícia ruim, ou em porte majestático por uma superada Harley Davidson 1949 de três marchas, câmbio manual. E minha despedida da amada BSA se deu por conta de um desses estúpidos pegas desnecessários em que somos pródigos em nos envolver na juventude.

A gente voltava de um fim de semana acampados na Chapada dos Veadeiros (êpa, êpa...) quando caí no canto de sereia do meu amigo dono da Ducatti 250. Nas longas retas que antecediam a chegada a Brasilia resolvemos "puxar o cabo no tapetão", isto é, abrir todo o acelerador no asfalto, a fim de descobrir quem tinha a melhor velocidade final. Fomos juntos por um certo tempo quando senti o motor ameaçando travar.

Foi só o tempo de debrear la machina, quando sentir um leve tranco e o motor morreu de repente, travado. Por muito pouco não levei um chão monumental, com consequencias imprevisíveis. A duras penas, colocamos a BSA na traseira do valente Jeep 51 e na segunda feira a levanos a um mecânico de confiança.Um rápido exame não deixou dúvidas: varetas do comando de válvulas quebradas, para meu desconsolo.

Apesar de todo esforço de meu tio, que me cedera a moto numa espécie de comodato informal, não foi possivel encontrar as benditas varetas para reparar o motor. Vendeu assim mesmo para o mecânico, que a desmontou e manteve o restante como peças de reposição. Voltei assim à minha vida de pedestre, apenas assistindo impotente ao desfile dos antigos companheiros em suas inquebráveis "cinquentinhas".

Mas o vírus da motorização individual já tinha me inoculado. Minha segunda moto - ou a primeira, depende do ponto de vista - só viria dois anos depois, uma pouco conhecida Honda 175 cc bicilindrica, partida elétrica. Aí, é outra história que conto depois...

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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

BOAS FESTAS...

A todos aqueles que nos acompanharam por todo 2010, meus votos de Boas Festas, e um Feliz e muito próspero Ano Novo, cheio de saúde e pleno de realizações.

Que todos tenhamos o 2011 que merecemos...

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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

"A UTOPIA DO TANGO"...

"Es (el tango) un pensamiento triste que se baila" - Enrique Santos Discépolo

Ao enlaçar sua parceira na pista de dança, não é a alegria que o move, nem a ele, nem a ela. Os passos felinos e o apuro duvidoso do par anunciam aos presentes um acontecimento quase que metafísico: bailarão um tango!

O dançarino por vezes nem tira o chapéu que lhe vai inclinado na cabeça. Um lenço qualquer lhe envolve o pescoço. Ela, bela, com os cabelos presos, rodopia numa saia justíssima, onde abre-se uma generosa fenda.

O ritmo sincopado e malevolente que escutam ao fundo é de um bandoléon soluçante, de um violino e de um piano. Executam então os dois o mais lascivo dos balés que se conhece. Se a melodia é chorosa, as letras, antigamente cantadas em lunfardo - o latim dos marginais portenhos - são heterogêneas e devastadoras. É a lírica de vidas destroçadas por traições e falsidades, por desilusões e crimes. Mulheres pérfidas e amigos tramposos são o sal da dramaturgia tanguista: - "Mi china fue malvada, mi amigo era un sotreta".

É a estética de um mundo canalha e ressentido. E não é para menos. Filho do lupanar e do boliche, da taverna da periferia de Buenos Aires, o tango nasceu em meio a duelos de garrucha e de punhais, travados nas sombras malditas do subúrbio, que lhe salpicaram os cueiros de pólvora e sangue. Teve como escola as então perigosas barrancas do Rio da Prata com seu intenso tráfico de carnes.

Atribuem-lhe, como à maioria dos bastardos, muitos pais, todos ilegítimos. Resultou ele de um curioso sincretismo: a milonga nativa, argentina pura, misturou-se de malgrado com as cantorias italianas, sicilianas e napolitanas, trazidas pelos milhares de imigrantes peninsulares "invasores", que chegaram a Buenos Aires há bem mais de um século atrás.

Não há entre os argentinos quem não palpite ou divague sobre o tango.
Juan Pablo Echegüe por exemplo só viu sexo nele, um retorço de obscenos. E não está longe da verdade. Afinal os parceiros são uns fingidos. Ele, em trajes de rufião, aparenta protegê-la quando de fato a explora. A bailarina não lhe fica atrás. Simula entregar-se por amor e não por medo.

Para E. Martinez Estrada, o grande ensaísta do Pampa, vê nele apenas automatismo, a robotização dos movimentos. O tango, assegura ele, é um "baile sem expressão, monótono, com o ritmo estilizado de um ajuntamento. Não tem, diferente das demais danças, um significado que fale aos sentidos, com uma linguagem plástica, tão sugestiva, ou que suscite movimentos afins no espirito do espectador, pela alegria, ou entusiasmo.

É um baile sem alma, para autômatos, para as pessoas que renunciaram às complicações da vida mental e se recolhem ao nirvana. É deslizar-se. Baile de pessimismo, ....baile das grande planícies sempre iguais de uma raça esgotada, subjugada, que a percorre sem fim, sem um destino, na eternidade do seu presente que se repete. A melancolia provém dessa repetição, do contraste que resulta ver corpos dois corpos organizados para os movimentos livres submetidos a uma fatídica marcha mecânica de animal maior." (Radiografia de la Pampa, 1933, pag.162)



Já Ernesto Sábato sente profunda candura pelo tango. "É uma sublimação", disse, "uma busca desesperada pelo verdadeiro amor. Nauseados pelo sexo mercenário, pelo proxenetismo descarado que os cerca, homem e mulher encenam, ainda que com arabescos eróticos, o que lhes ocorre ser, na sua imaginação de desesperados, uma autentica e pura paixão". Daí aquela seriedade ensimesmada dos bailarinos: En mi vida tive muchas, muchas minas, pero nunca una mujer!"- eis ai a utopia do tango: encontrar um amor genuíno.

A mistura entre o criollismo e o gringuismo - entre seus inventores encontra-se um Poncio e um Zambonini -, fez com que uns intransigentes, uns xenófobos, negassem sua natureza argentina. Não tinha para eles o aroma saudável do pampa. Ao contrário, o tango transpirava a perfume de mundana, a suor forte, carcerário, do compadrito mal encarado, gente estranha à verdadeira platinidade.

Não foi esta opinião de Jorge Luis Borges para quem a prova mais evidente e irrefutável do argentinismo do tango é que nenhum outro maestro, ou outro músico - em todos os cantos do planeta por onde escutou-se o lamento do seu acordeão - conseguiu despertar o mesmo sentimento que qualquer tanguero platino provoca.

A universalização do tango - imortalizado por Carlos Gardel nos anos vinte, seduzindo os bem-nascidos e chiques que tomaram-no como exemplo de elegância - assemelhou-se ao sucesso da valsa no século 19. Impressionante metamorfose. Como no conto de fadas, o sapo virou príncipe.

A opereta do bordel do arrabalde arrebatou o Teatro Colón. E não só isso! Perante a esta maré montante que faz anos que nos assola, a do rock anglo-saxão - tribal, autista, ensurdecedor -, o tango, tão bem lembrado por Carlos Saura em seu filme Tango (1998), passou a ser a última esperança de um dançar civilizado na cultura ocidental."

(fotos e vídeo reprodução/texto Cultura e Pensamento)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

MOJITO, O CUBANO POR EXCELENCIA...

Cuba, a bela ilha caribenha tomada há cinquenta anos pelos barbudinhos de Fidel Castro, não exportou somente revoluções socialistas. De seus famosos bares Bodeguita Del Medio e o La Floridita, ambos em Havana, saíram dois famosos coquetéis hoje tidos como clássicos: o daiquiri e o mojito.

Do daiquiri já tratamos aqui antes, vamos portanto agora ao mojito, o drinque favorito do escritor americano Ernest Hemingway, que morou por vários anos na ilha.

Como todos os grandes drinques, o mojito tem uma grande história por trás: alguns afirmam ter sido criado pelo corsário inglês Sir FRncias Frake, o primeiro a misturar a tafia (uma espécie de aguardente barata, antecessor do rum) ao açúcar e abrandar o sabor grosseiro com algumas folhas de menta.

Outros historiadores mais sérios creditam a criação da beberagem aos escravos negros do século XIX, trabalhadores das plantações de cana, que misturavam garapa ao rum, forjando assim a base para o futuro coquetel.

O mesmo se dá com o nome do drinque: alguns atribuem ser um derivativo de mojo, um molho apimentado à base de especiarias e suco de lima ou laranja, muito comum nas Antilhas. Outros dizem ser um diminutivo de mojadito (molhadinho em espanhol), mas a origem do nome tem pouca importância.



O fato é que foi na Bodeguita del Medio, bar/restaurante frequentado por artistas e politicos da época, que a receita foi aprimorada. Hemingway, o eterno bufão norte americano, encarregou-se de celebrizar o coquetel mundo afora a ponto de deixar escrito em uma das paredes do bar: "My mojito em La Bodeguita, my Daiquiri em La Floridita...".

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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

VIDA NOTURNA...

Tive a grande sorte de ali pelos meus 17 anos ainda pegar o que se costumava chamar de "boemia", termo amplo que definia um certo estado de espírito ou um estilo de vida exercitado em mesas de bares, boates, inferninhos, onde se celebrava a boa mesa, bebida consumida em quantidades industriais, terreno fértil da boa companhia e, principalmente, grandes mulheres.

Estou me referindo ao que era considerado a boemia saudável, conhecida geralmente como "a noite". Esta era composta de grandes personagens, criaturas típicas criadas no sereno das madrugadas, campo fértil para os malandros de antanho que ganhavam a vida no pano verde, seja no baralho ou na sinuca, sempre na "boa mão", sem violências desnecessárias, depenando os patos de plantão.

Também a noite era feita de flagrantes otários, das femme fatales que provocavam paixões avassaladoras ou meramente passageiras embaladas pela música estilo "dor de cotovelo", celeiro de amores impossíveis e incompreendidos. Para os eternos solitários, havia sempre o consolo do trottoir das mariposas noturnas soltas pelas calçadas, o amor pago de vinte minutos que podia coroar uma noite mal sucedida.



Grandes tempos...! Na noite, músico que se prezasse tocava ao vivo para uma platéia exigente e o mínimo que se esperava era um repertório vasto, eclético e de bom gosto. Quem já ouviu "Ronda", "Eu e a Brisa", "Cadeira Vazia", "Nervos de Aço" e outras do gênero pela enésima vez e já meio adernado para bombordo pelos eflúvios do álcool, agarrado numa bruaca como última bóia de salvação às cinco da manhã num inferninho qualquer, sabe do que estou falando...

Havia os botecos mal afamados mas de boa comida, farta e barata, onde esfaimados notívagos faziam a última boquinha antes de rumarem para casa, os músicos davam uma canja de fim de noite depois das suas funções, malandros e prostitutas velhuscas faziam uma última incursão à espreita de algum incauto perdido na noite e travestis - por que não - ainda em busca viciosa.

Hoje a vida noturna é feita de baladas ou raves movidas ao baticum generalizado da música eletrônica, encontros são fortuitos e resolvidos ali mesmo. A moçada de hoje se embriaga com hectolitros de qualquer coisa, às vezes misturado com energéticos e "substâncias exóticas". Há muita violência nas ruas, o perigo ronda todo o tempo, sempre há um algo de tragédia no ar.

O romance foi pro saco, banalizou-se transmutado em sexo casual, facilitado pelo uso intensivo dos preservativos, pós epidemia de AIDS. Existe a pílula do dia seguinte - de efeitos duvidosos, diga-se pela quantidade de jovens grávidas que pululam por aí. Enfim, melhor ou pior? Não sei, os tempos mudam, às vezes não com a velocidade e o rumo que desejamos.

Perdeu-se, a meu ver, a inocência, o charme dos grandes personagens da noite. Mas, fazer o que, a vida segue em frente e o tempo, implacável, atropela a todos, fortes ou fracos. Só nos resta viver. E se resignar...

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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O ALBINO ENDIABRADO...

Johnny Winter (John Dawson Winter III) nsceu em 1944 em Beaumont, Texas, e desde os dez anosd e idade já se apresentava em shows da TV local em companhia do irmão Edgard Winter. Aos quinze anos gravou seu primeiro disco, intitulado "School Days Blues"

Aos quinze anos gravou seu primeiro single para um selo de Houston, mas nada aconteceu de mais importante, tendo Johnny continuado a tocar nas vizinhanças de Beaumont em companhia do irmão. Sempre fiel ao texas blues com algums pitadas de rock´n roll, em 1968 gravou seu primeiro disco solo, intitulado "The Progressive Blues Experiment".

A sorte grande veio em dezembro de 1968, ao ser convidado por Mike Bloomfield, um dso melhores guitarristas de blues dos EUA - que se encantara com o estilo de Johnny Winter para tocar e cantar numa mega jam session, a ter lugar no famoso Fillmore East, em Nova Iorque. Assistido por produtores da Columbia Records, Johnny seria contratado com o maior adiantamento já pago a um artista naquela época, 600.000 dólares !

Johnny gravaria meses depois com o mesmo grupo base que o acompanharia nos anos seguintes - o baixista Tommy Shannon e o baterista Uncle John Turner, - por várias excursões pelos EUA e Europa, além de festivais como o de Woodstock. Winter palmilhou vários caminhos no largo espectro do blues: eletric blues, blues-rock, rock e suas raízes, o texas blues.



Winter também trilhou o caminho dos músicos de sua época, com largo envolvimento com drogas das quais só conseguiu se ver livre no início dos anos 70. Desde então tem mantido uma produção de discos e shows notáveis, tendo sido considerado um dos 100 mais importantes guitarristas de todos os tempos, pelo ranking da revista Rolling Stone.

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terça-feira, 23 de novembro de 2010

À MESA, FINAS ARTES...

Americanos médios são conhecidos pelo seu apego ao exagero, o que os torna aos olhos do mundo os arautos da cafonice e do mau gosto. No que tange a comida então, a voz corrente é que se come mal nos EUA. Ledo engano, come-se muito bem na América, questão de saber procurar e ter grana no bolso. Mas também é assim no resto do mundo.

Invariavelmente as criticas vêm daqueles que estão em viagem de férias, cujos destinos pouco diferem das previsíveis Disneyworld, Nova Iorque ou mesmo Las Vegas. E, no meu entender, poucos se dão ao trabalho de procurar uma boa refeição, mais preocupados em gastar seu rico dinheirinho em diversão ou compras. Daí, recorrerem somente a redes de fast food, o que na América recomendo pouco, a menos que você seja viciado em colesterol.

Mesmo neste campo há exceções, existem boas redes que servem pratos de massa (pasta) ou alguns combos interessantes. Pessoalmente gosto do Applebee´s e do Olive Garden, mas o grande lance é descobrir seus próprios favoritos. Tem gente que gosta do Waffle House (que americanos costumam chamar de Awful -terrível, medonho -) House devido sua comida altamente calórica e gordurosa.

Mas ainda é um dos poucos lugares que se pode comer um verdadeiro breakfast americano, com tudo a que se tem direito: ovos, bacon, uma grossa fatia de presunto na chapa, salsichas, dois pães de forma tostados, hashbrowns (batatas raladas e fritas na chapa), um copázio de café ralo e fraco, tudo isso regado a syrup (melado), se for o gosto do freguês. Uma beleza para sérios candidatos a um enfarte. Argh...!!!

Antes de qualquer julgamento precipitado é preciso se ter em conta um componente cultural: na América se preserva o gosto pela quantidade (big is good), enquanto na Europa (ok, na França, principalmente) se cultua o prazer da refeição. Duas abordagens bem diferentes. O que não quer dizer que a cozinha americana seja feita somente de hamburgueres, hot dogs ou tortas de maçã. Descontado os estereótipos pré concebidos ela pode ser muito interessante.

Por ter vivido principalmente no Sul dos EUA gosto muito da comida da Louisiana, talvez por que em alguns momentos se pareça muito com a brasileira. Mas também aqui há algumas restrições. Nada porém de miúdos de porco, lagartos ou carnes de jacaré, como é comum nos bayous (pântanos) da região.

Me contento no âmbito da cozinha creôle ou cajún, destacando-se aí os pratos de frutos do mar ou o gumbo (uma sopa grossa de frutos do mar à base de quiabo) ou o meu favorito de longe, o jambalaya (um tipo de risoto metido a besta, que mistura o arroz a camarões, presunto, carne de frango, linguiça, entre outros componentes), prato que aprendi a fazer e que estou devendo há tempos aos amigos.

Enfim, tudo se resume a uma questão de gosto. E grana no bolso, obviamente...

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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

QUEM SE LEMBRA DE....

...Duda Cavalcanti ?

Muitos cronistas da época a consideram a verdadeira Garota de Ipanema. Não aquela que entrou de gaiata na história e fatura até hoje em cima. Duda Cavalcanti foi a precursora daquilo que se convencionou como a mulher liberada do final dos anos 60.

Somente igualada em comportamento e atitude a verdadeiros ícones da república ipanemense como Leila Diniz, Danuza Leão e Vera Barreto Leite.

Dona de uma rara beleza de raízes puramente brasileiras, Duda Cavalcanti celebrizou-se no raiar dos anos 60 como modelo e depois como atriz (Arrastão, 1966, direção Antoine d´Ormesson).

Foi a primeira modelo a participar de um ensaio fotográfico de moda no Brasil, obra do seu namorado da época, o fotógrafo Otto Stupakov, que emprestara um vestido do costureiro paraense e queridinho da "haute couture" tupiniquim, Dener Pamplona de Abreu.

Primeiro ensaio fotográfico de moda no Brasil, 1958.

Edu Lobo e Duda Cavalcanti, Paris, 1966...

Namorou ou foi casada com cineastas, fotógrafos, gente da moda, jornalismo ou cinema. Estabeleceu parâmetros modernos na passarela, foi capa das principais revistas brasileiras e posou para dezenas de editoriais. Encheu o saco da caretice brasileira e se mudou para Paris, onde permaneceu vários anos. Deixou saudades e atrás de si o mito da musa, que ainda hoje perdura quando aparece aqui e ali em eventos de moda.

Quem viu uma vez Duda Cavalcanti, jamais esquece...

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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

PARA LULU, COM CARINHO...

Provavelmente vocês nunca ouviram falar da escocesa Marie McDonald McLaughlin Lawrie, mas da popular cantora, compositora e atriz Lulu alguns vão se recordar. Sim, ela mesma que no Brasil - e, vá lá,talvez no resto do mundo - ficou conhecida como a intérprete da açucarada baladinha "To Sir With Love", música tema do filme de mesmo nome.

Na estrada desde os quinze anos (nasceu em 1948), Lulu fez nome ainda no início dos anos 60, chegando a fazer uma turnê em 1966 pela Polônia, abrindo os shows do grupo britânico The Hollies, sendo assim a primeira cantora britânica a se apresentar atrás da então Cortina de Ferro.



No ano seguinte veio a estréia cinematográfica, num papel secundário no filme "Ao Mestre Com Carinho" (To Sir With Love), onde canta o tema principal e que catapultou a carreira do ator negro norte americano Sidney Poitier na Inglaterra. A canção vendeu mais de um milhão de cópias, atingindo o primeiro lugar nas paradas nos EUA e Inglaterra, assegurando a Lulu definitivamente um lugar no cenário pop mundial. A partir daí dividiu sua carreira como cantora de hits pop, atuações em rádio e TV e gravando em duetos com os maiores nomes da música.



Entre elas a notável interpretação de "Cry Me a River" - um clássico da canção popular americana lançado em 1955 por Julie London - gravado com o lendário Jeff Beck no não menos legendário Abbey Road Studios para o projeto "White, Red and Blues". Atenção para o saxofone cheio de veneno de Peter King e o discretíssimo piano de Jon Cleary. Imperdível...!

(vídeos youtube)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A DAMA DE XANGAI...(2)

No final da tarde, amarramos o barco no trapiche em frente ao porto de Soure, em meio a vigilengas amazônicas e barcos locais. E bem na hora, pois a maré começava a mudar, coisa meio complicada já que estamos bem na saída da foz do Rio Amazonas. Por garantia, jogamos mais uma âncora na popa e aproveitamos o resto de luz do dia para acabar a arrumação interna do barco, coisa que parece nunca ter fim.

Porto de Soure, Ilha do Marajó.

Evaldo e a Dama de Xangai resolveram dormir em terra, madame já estava cansada do balanço do veleiro. Improvisamos um jantar com a massa que havia sobrado do almoço, carne de lata e cebolas, mais umas cervejas e fomos dormir. O plano era levantar ferros lá pelas cinco da madrugada, aproveitando a força da maré vazante que aqui por esses lados, devido à sua força, é meio de propulsão.

Mas os planos foram, literalmente, por água abaixo. Sete da manhã, maré já virada para enchente e nada do casal de pombinhos...! Já estávamos resolvidos para abandoná-los em terra quando aparecem na maior cara de pau. Tinham passado boa parte da noite numa animada roda de lundu e carimbó num quiosque ali perto, regados a muito peixe e cerveja. Já puto da vida, Fredinho deu ordem para recolher a âncora, subir os panos e se botar em marcha.

Madame, obviamente ressaqueada da noite atribulada, instalou-se no camarote de proa para um merecido descanso. Má idéia, má idéia. Saímos a pleno motor e vela grande em cima, lutando contra a corrente contrária. O barco corcoveava ao dar de encontro com as pequenas ondas curtas, num mar de "carneirinhos". Abrimos o rumo em direção ao oceano, em busca de águas mais profundas e um navegar mais confortável.

Madame, lá na frente, não estava tendo uma vida fácil. A combinação explosiva do balanço do mar e os excessos etílicos da noite anterior não se fez por esperar. Não demorou muito e a Dama de Xangai começou a pagar o preço da irresponsabilidade, explodindo em crises convulsivas de vômito. Enjôo dos brabos e daqueles que não passam muito facilmente.

No início, madame ainda tentou manter um resto de dignidade usando a toalete de bordo, mas a cada acesso mais frequente começou a vomitar no chão mesmo, dando um trabalhão ao Evaldo que abandonou as funções de convés para se transformar no camareiro particular da indigitada noiva.

Nossa subida da costa amapaense foi dramática. O avanço era lento, o valente veleiro lutando contra ondas e ventos contrários, tempo nublado e sujeito a frequentes pirajás (aguaceiros repentinos), típicos da região. A vida a bordo se tornou um inferno. Ninguém tinha ânimo ou saco para cozinhar, sobrevivíamos de bolachas e biscoitos, barras de chocolate, refrigerantes ou chá frio. Consequentemente, nosso humor não era dos melhores. Uma palavrinha mal dada já seria motivo para um motim a bordo...

Fredinho e eu ficávamos a maior parte do tempo no convés, atentos ao comportamento do barco e fazendo as manobras necessárias, e expostos às intempéries pois o clima e o cheiro do interior do barco estavam insuportáveis. Evaldo encontrava-se inteiramente à disposição da Dama de Xangai, a cada hora mais miserável no seu mareio e insaciável nos seus caprichos de bella donna.

Estávamos bem fora da costa, num mar convulsionado de cor barrenta e debaixo de um céu cinza, sem sinal de terra à vista, a fim de evitar a Corrente das Guianas que descia em sentido contrário. Ventos inconstantes nos forçavam a manobras de vela todo o tempo ou o uso indiscriminado do pequeno motor diesel de centro.

O tempo na maioria das vezes nublado não nos permitia tirar uma reta de altura (cálculo de posição usando o sextante) e navegávamos na base da estimada, isto é, considerando velocidade e rumo, que íamos plotando nas cartas de navegação, dando uma idéia de nossa localização. E assim avançamos dois dias e uma noite, quando nossos cálculos nos posicionavam à altura da Guiana Francesa.

Cansado, famintos e sonolentos, quase sem diesel devido ao uso prolongado do motor, o barco em petição de miséria, o capitão Fredinho tomou a decisão correta: arribamos rumo à Guiana. Prosseguir naquelas condições seria uma temeridade. resolvemos aportar em Degrad de Cannes, porto que eu já conhecia devido minhas "atividades" anteriores na Guiana Francesa. A decisão foi saudada com entusiasmo pela tripulação já bastante judiada pelas condições de mar e vento.

Aportamos em Degrad de Cannes no meio da manhã de segunda feira, próximo ao escritório da imigração e Alfândega. Subimos a bandeira amarela de quarentena e logo uma lancha encostou ao lado. Oficiais da Imigração vieram a bordo conferir nosso papéis. Aí começaram nosso reais problemas. A figura que emergiu do interior do barco não inspirava confiança em ninguém.

Magra, desgrenhada, pele emaciada e vestindo uma surrada camiseta e uma bermuda manchada de vômito, a Dama de Xangai,vítima de dois dias de violento enjôo marinho, nem de longe lembrava a imponência com que pisara nosso convés. E as complicações começaram ali. Na saída, na pressa e urgência de partir, ninguém se deu ao trabalho de conferir a documentação dos dois tripulantes. E o fato é que os dois inconsequentes nem passaportes tinham...

Num lugar conhecido pelo aporte de brasileiros ilegais, aquela situação não passaria em brancas nuvens. Apesar de requerermos um "clearence em trânsito" de 72 horas, medida garantida pelas normas internacionais de navegação, a falta de passaportes dos dois idiotas incidia numa falta grave. Sem apelação, fomos detidos e recolhidos a duas celas na gendarmerie (polícia) local. Depois de uma acareação com o capitão do porto, nos foi concedido o prazo de 24 horas para "repatriar" o casal clandestino.

Como eu já tinha vivido na Guiana, Fredinho ficou retido como "garantia" e eu peguei uma van para Caiena. Lá chegando, procurei o Consulado brasileiro e depois de quase um dia inteiro de chá de cadeira, encontrei um funcionário que - feliz coincidência - era irmão de um meu conhecido em Belém, que providenciou toda a papelada necessária. Passei a noite num hotelzinho vagabundo no centro e embarquei de volta a Degrad de Cannes nas primeiras horas da manhã.

Lá chegando e com a papelada correta, fomos liberados, sob a condição de acompanhar o casal até o aeroporto, juntamente com um funcionário da Imigração. Juntamos nosso dinheiro para comprar as passagens deles de volta e esperamos o avião decolar rumo ao Brasil. Retornamos ao porto, pegamos o barco e subimos até o arquipélago das Îles de Salut (Ilhas da Salvação), ao largo de Kourou, e local da Ilha do Diabo, celebrizada no romance "Papillon".

Arquipélago da salvação, Ilha do Diabo ao fundo, Guiana Francesa.

Ali fizemos uma avaliação geral. Eu não tinha mais tempo nem dinheiro de seguir até Trinidad Tobago, a brincadeira sem graça da deportação voluntária do "casal 20" nos deixara com sérias avarias nas nossas finanças. Também a dureza a bordo naqueles dias quebrara um pouco meu ânimo. Ficamos por ali mais uns dois dias nos recuperando, Fredinho conseguiu um tripulante francês para seguir viagem e eu retornei para Caiena. Juntei o pouco dinheiro que me restara, comprei uma passagem aérea e embarquei de volta para o Brasil.

O Caribe ia ficar para outra oportunidade...

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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A DAMA DE XANGAI...(1)

Cinco anos se passaram até eu retornar novamente à Guiana e em condições, digamos, não muito alvissareiras. Na época eu terminava a faculdade e ajudava a tomar conta dos negócios da familia, estava em vias de me casar, enfim, levava uma vida pequeno burguesa perfeitamente enquadrada dentro dos padrões da normalidade, mas um perigo para um espírito inquieto como o meu.

O convite veio quase que meio por acaso, num fim de tarde sentado no bar do iate clube. Meu amigo Fredinho fora contratado para levar um veleiro até Trinidad Tobago e estava precisando de tripulação. Não que eu fosse grande coisa como marinheiro, mas falava inglês e arranhava um portunhol, além de conhecer os rudimentos da arte de velejar. E o convite era tentador, início de julho, férias escolares, os negócios em marcha lenta.

Resolvi me conceder trinta dias de férias e topei a parada. O barco pertencia a um casal já idoso de velejadores suecos. Cansados da longa travessia do Atlântico, eles preferiam seguir de avião até Trinidad Tobago e de lá curtir a temporada no Mar do Caribe, prática meio comum no meio náutico. Nosso trabalho era fazer o delivery do veleiro, são e salvo.

O veleiro era um sueco Hallberg Hassy de 32 pés (9,60 metros) que tinha sofrido alguns reveses na sua vinda pelo Oceano Atlântico e necessitava alguns reparos antes de seguir viagem. O tempo era curto e não tínhamos tempo a perder. Quem já se deu ao trabalho de preparar um barco para uma longa travessia sabe do que estou falando. É uma lista de afazeres que não termina nunca...

Começamos por revisar todo o mastro, passando depois por ferragens de convés, gaiútas (janelas), instalações elétricas e hidráulicas. Aproveitamos e demos uma limpeza no casco já meio cheio de cracas, pintamos novo fundo antiincrustante, revisamos motor e hélice, enfim, uma trabalho braçal que nos consumiu de 12 a 14 horas por uns dez dias. Isso feito, faltava abastecer de víveres o veleiro para a viagem. Mais uns dois dias de compras e acomodação de toda aquela tralha em espaço tão diminuto.

E à medida que carregávamos o veleiro, mais ficava patente a necessidade de um terceiro tripulante. Naquele tempo (1978), antes das maravilhas eletrônicas que hoje campeiam em qualquer área da atuação humana, veleiros se levavam "na mão": nada de GPS, pilotos automáticos, cartas náuticas digitalizadas, radares, enroladores de genoa (velas de proa) e outras facilidades que fazem hoje velejar brincadeira de criança.

Na falta de alguém disponível, tivemos que nos contentar com o Evaldo, um paulista que vivia com uma morena local num velho barco de madeira e sobrevivia de pequenos serviços no iate clube. Evaldo se proclamava marinheiro de mão cheia e costumava se vangloriar de ter trazido a banheira que vivia desde Ubatuba, subindo todo o litoral brasileiro.

De início, parecia a pessoa mais adequada mas tinha um complicador: a morena abusada metida a socialite que se considerava sua noiva, não "permitiria" a viagem do Evaldo, a menos que viesse junto. Escolha de tripulação para travessias oceânicas sempre é um assunto complicado, mas o tempo exíguo e a falta de opções nos forçam às vezes a escolhas precipitadas. Foi o caso.

À primeira vista, não parecia assim tão problemático: como já viviam em um barco, em princípio estavam acostumados a conviver em espaços confinados, a morena poderia ajudar na cozinha e arrumação do veleiro, enquanto Fredinho, Evaldo e eu cuidaríamos da condução do barco até seu destino final. Para complicar, eu também não tinha toda essa experiência e a ajuda de um marinheiro calejado poderia fazer toda a diferença. Aceitamos o fato, não havia muita alternativa.

Os últimos dias foram outra correria para atualizarmos passaportes, pegar vistos e ultimar os preparativos que pareciam nunca ter fim. Mas finalmente numa sexta feira, estávamos prontos para suspender ferros. Mas velejadores são bichos chegados a superstições e uma das mais acreditadas é que NUNCA se parte para uma travessia numa sexta feira. O franceses, por exemplo, são categóricos no assunto: vendredi, jamais...! ! !

Mas o Fredinho, como capitão do barco, foi inflexível. A gente ia zarpar na primeira maré, sem maiores atrasos ou delongas, o tempo urgia. Problemas normalmente são sinalizados com antecedência, mas somos cegos e surdos aos seus avisos. E nos já devíamos ter desconfiado quando a noiva do tal Evaldo apareceu cheia de bagagens, trajando uma canga de praia, chapéu de palha, enormes óculos escuros e em cima de quilométricos sapatos de salto alto. Parecia uma estrela de cinema, saindo para um cruzeiro de fim de semana.

Já foi uma barra convencê-la que ninguém sobe em veleiros de sapatos de salto, no máximo tênis ou docksides, o ideal é descalço mesmo. Contrariada, a "noiva" largou as bagagens ali mesmo no convés para que o pobre do Evaldo se virasse na arrumação lá embaixo. Não satisfeita, fez questão absoluta de se instalar no camarote de proa, aliás o pior lugar para se estar com mar virado. Mas cada um é responsável por suas escolhas, portanto...

Mal humorada, a morena tropicana lançou mão de uma sombrinha multicolorida e foi sentar-se à proa, enquanto Evaldo, Fredinho e eu dávamos início às primeiras manobras do zarpe, deixando a poita e aproveitando a corrente da maré vazante. Com pouco vento, subimos a vela grande e seguimos no motor enquanto o perfil da Cidade velha ia se desenhando ao nosso lado, à medida que deixávamos o Rio Guamá e desembocávamos no Rio Pará.

Eram velhas paisagens já conhecidas da minha querida Belém desde meus tempos de remo, mas que nunca cansava de admirar. O veleiro seguia lento, mas firme debaixo do forte sol amazônico naquele início de tarde. Nosso primeiro destino era Soure, na Ilha do Marajó, onde pretendíamos passar a primeira noite. Fredinho firme na roda de leme, eu tentava regular a vela grande da melhor maneira possível e o Evaldo se esmerava numa massa com atum, nosso almoço de despedida.

E lá na proa, debaixo da sombrinha multicolorida, a "noiva" dava tratos à bola, nos ignorando solenemente. Fredinho, à visão daquela figura insólita e um gozador de primeira, cunhou o apelido pelo qual era seria conhecida durante toda nossa viagem: a Dama de Xangai, numa clara alusão ao filme de Orson Welles, clássico de 1948, com Rita Hayworth no papel principal...

Mas, gozações à parte, assim como a viagem nossos problemas só estavam começando.
O resto conto no próximo post.

(foto reprodução)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

CRÔNICAS GUIANENSES...(final)

Meu idilio com a Marie Noelle foi interrompido pela brusca chegada do Walter, o que prenunciava finalmente minha terceira viagem ao Brasil. Mas dessa vez haveria novidades. Fui muitissimo bem instruído, toda a "operação" seria minha, sem a supervisão do Walter ou do Benoît. E, ao contrário das anteriores, desta vez eu sairia num barco normal carregado de mercadorias até os limites legais das águas guianenses, ou seja a foz do Rio Oiapoque.

Dali a carga foi transbordada para uma vigilenga de bandeira brasileira e descemos toda a costa do Amapá, entrando no Rio Amazonas e daí pelos estreitos do Arquipélago do Marajó, cruzando o Rio Pará até Igarapé Miri, na foz do Baixo Tocantins. Uns bons dois dias de espera num porto clandestino até que a carga foi transferida para o comprador.

Enquanto passavam as mercadorias do barco para os caminhões reconheci centenas de caixas de uísque, milhares de pacotes de cigarros americanos, perfumes franceses .Tudo com os auspícios de Paramaribo, capital do Suriname, e entreposto de velhacarias vindas do Panamá. No final, saí dali com uma mala cheia de dólares e cruzeiros (dinheiro brasileiro na época, 1973...) rumo a Belém do Pará.

Foi bom estar em casa novamente, rever a família depois de seis meses vivendo no estrangeiro e reatar as relações com meu pai, com quem tivera uma séria rusga ao me decidir ir para a Guiana. Mas os dias seguintes foram ocupadíssimos, tentando atender uma extensa e variada lista de itens encomendados que incluia fardos de charque e pirarucu salgado, sacos de farinha, carne enlatada, leite em pó, paneiros de tapioca, redes, remédios antibióticos e anti-inflamatórios, Biotônico Fontoura, pílulas anticoncepcionais, garrafadas de ervas compradas no Mercado do Ver o Peso e até, pasmem, artigos de umbanda...!

Tudo isso eu ia judiciosamente embalando e guardando em um depósito alugado no Porto do Sal, no bairro da Cidade Velha, em Belém do Pará. Até que depois de umas duas semanas chegou o dia do embarque. E no meio daquela azáfama típicas de pequenos portos, enquanto eu conferia cuidadosamente a subida e acomodação das mercadorias, fui surpreendido pela presença a bordo de seis garotas mestiças, claramente há pouco saídas da puberdade.

O que me incomodava não era somente a presença das garotas e sim a figura que as acompanhava e já as estava instalando nos poucos camarotes disponíveis. Eu manjava a peça desde Caiena: era uma marafona conhecida por traficar garotas quase imberbes para as boates e puteiros da Guiana. Sua cantada era irresistível: prometia empregos em "casas de familia" com excelentes salários em francos para as pobres e ingênuas garotas interioranas, ou algumas mais afoitas escolhidas a dedo nos puteiros de Belém. Garantia ainda a entrada ilegal e estadia nas primeiras semanas em Caiena.

A vida nos garimpos da Guiana...

Lá chegando, a realidade era outra: as pobres coitadas eram vendidas e jogadas em boates e prostíbulos, vivendo miseravelmente em cativeiro até o ponto em que conseguiam fugir ou acabavam nos garimpos, se a sorte lhes fosse madrasta. Já disse aqui que na época meus padrões de moral e ética se encontravam meio "distendidos", podia até compactuar com o "comércio informal". Mas traficar aquelas jovens garotas.... Ah, não, estava muito além do meu limite de tolerancia, pois eu sabia muito bem o que as aguardava.

Saí no maior pau com a marafona, ameaçando de mandar retirá-la dali à força, junto com suas "meninas". Foi quando ela esfregou na minha cara uma carta do Walter encomendando expressamente as garotas e com instruções precisas para o transporte, a entrada ilegal e instalação das garotas num dos piores pardieiros de Caiena, dando-lhe ainda todo o direito de passagem no barco por mim alugado.

Aí, a ficha caiu de vez ! A demora do Walter nos garimpos próximos ao Suriname, sua chegada súbita e a urgência da viagem ao Brasil, a delegação ao meu encargo do carregamento de contrabando, a lista de produtos encomendados e, por fim, a presença das garotas no barco de volta me levaram a crer que o muy amigo estava "operando" por conta própria, longe do manto protetor do Benoît. E não havia dúvida que aquela era uma jogada muito arriscada. Só que eu não queria mais fazer parte daquele conchavo.

Tive que engolir juntos orgulho e raiva. Suspendemos ferros naquela noite e por toda a viagem de volta fiquei quase circunscrito ao meu pequeno camarote, só saindo para as refeições. Eu regurgitava de ódio e frustração e naqueles dias repensei seriamente meus dias na Guiana e o futuro que ali me aguardava. Não me parecia muito próspero.

Visivelmente desinteressado, acompanhei novamente a operação de transbordo da carga para o barco francês que nos aguardava na foz do Oiapoque e o desembarque sem complicações em Degrad de Cannes. Foi com um aperto na alma que vi as seis garotas subirem numa picape, como quem se encaminha para o cadafalso. Nunca mais as vi ou soube de seus destinos. Espero que tenham sobrevivido ao horror dos prostíbulos de Caiena. Nunca me perdoei por isso.

No final, a "operação" fora um sucesso e me rendeu uns 15.000 dólares. Mas eu me sentia enojado com o papel que havia representado. Juntei meus poucos pertences numa mala, comprei um belo anel de brilhantes para Marie Noelle e me despedi dela numa tarde quente de sábado. Embarquei de volta num vôo da Suriname Airways e 90 minutos depois estava de novo em Belém do Pará, pronto para uma nova vida. A experiência na Guiana ficara para trás....

P.S. Dois anos mais tarde soube que Walter desaparecera na selva guianense. Nunca descobri se foi assassinado ou simplesmente sumira devido aos negócios "peligrosos". Por um amigo comum soube também que ele recentemente foi visto flanando em Copacabana, mas não tive confirmação. Pra mim, continua um mistério, se está vivo ou morto. Eu retornaria à Guiana cinco anos mais tarde, em 1978, e saberia o gosto de uma prisão militar guianense, mas aí já é outra história que conto em outra oportunidade.

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domingo, 31 de outubro de 2010

CRÔNICAS GUIANENSES...(3)

Conheci Marie Noelle numa quinta feira chuvosa, lá mesmo no Chez Moi. Noite de pouco movimento facilita aproximações e, quem sabe, até confidencias após umas doses bem calibradas de White Horse.

Resumindo, Marie Noelle era uma mulata da Martinica, já quarentona mas cujos semblante e corpo curvilíneo ainda demonstravam restos de uma antiga beleza. Trazia no rosto as marcas de expressão de alguém que havia vivido todas as lutas. E, o mais importante, sobrevivido para contá-las...

Marie Noelle cantava no cabaré às sextas feiras, sua voz melosa e rouca desfiando antigas canções de Edit Piaf e Jacques Brel para uma platéia indócil e grosseira, mais interessada em amores mais imediatos, que pudessem ser comprados por um punhado de francos.

No restante da semana fazia "mesa" -isto é, sentava-se com clientes e os entretinha, enquanto garçons desonestos os encharcavam de bebida vagabunda e cara. Às vezes fazia "vida" também, dependendo do freguês e da sua necessidade. E eu, na falta melhor do que fazer, batia ponto ali quase todos os dias na eterna expectativa de minha terceira viagem ao Brasil.

Meu amigo Walter andava enfurnado na selva guianense em negócios cada vez mais escusos e eu apenas acompanhava o lento passar das horas, corpo e vontade derretendo sob o calor da França tropical. E naquelas noites suarentas fui aos poucos fazendo amizade com Marie Noelle, às vezes bebericando algumas doses de Fernet Branca, outras pegando uma carona de volta no seu bombardeado Renault 2CV, após a função.

E um dia aconteceu. Acordei na manhã seguinte debaixo de uma ressaca descomunal num pequeno e estranho quarto, ao lado de Marie Noelle, que dormia placidamente o sono dos anjos. Foi também uma questão de tempo, aos poucos estava instalado no quarto-e-sala que ela alugava nos altos de uma boulangerie (padaria), no centro da cidade. Não houve promessas, compromissos ou expectativas. Simplesmente aconteceu. Não tínhamos tempo para essas veleidades...

Eu dirigia o 2CV e aguardava no balcão do bar, enquanto ela se dedicava ao seu trabalho noturno. Em casa, alta madrugada, nos amávamos com a ferocidade dos desesperados, Marie Noelle lançando mão de anos de treinamento para meu puro deleite pessoal. Caíamos então em sono profundo, levantávamos no meio da tarde, tempo ainda de comprar uma baguette quentinha, uma boa fatia de queijo roquecfort e meia garrafa da vinho tinto.

Outros dias cozinhávamos, noutros saíamos a passear de mãos dadas à beira mar, parando para comer em qualquer bistrô ou baiúca. Eu tinha plena consciência de minha situação e não me incomodava nem um pouco. Sabia que aquele acordo (ok, caso, affaire, escolham...) não duraria muito. Mas jovem e vivendo fora de casa, debaixo do sol dos trópicos, meus conceitos de ética e moral ficavam a cada dia um pouco mais elásticos.

Marie Noelle foi uma pausa refrescante e abrigo seguro naqueles dias tempestuosos na Guiana. As poucas semanas que permanecemos juntos é uma das mais gratas recordações que carrego até hoje comigo. Logo eu estaria de volta ao redemoinho dos negócios do submundo, mas isso conto mais adiante...

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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

CRÔNICAS GUIANENSES...(2)

Benoît era um mulato claro, magro e alto, que cultivava um bem cuidado cavanhaque e andava sempre imaculadamente de branco. Falava pausadamente e em tom baixo, a educação em pessoa. Mas por baixo de toda aquela aparente polidez escondia-se um temperamento violento e truculência implacável. Administrava com mão de ferro o Chez Moi, um misto de bar, cabaré e cassino clandestino, a meio caminho de Kourou.

Corria à boca pequena que Benoît era o ponta de lança de vários negócios escusos em que estavam envolvidos alguns luminares de Caiena, boato do qual jamais tive comprovação. Mas sua fama conduzindo os negócios mais suspeitos já era crescente. E era em frente a este cidadão que eu me encontrava, sentado num final de tarde em seu escritório, admirando as águas plácidas e barrentas do rio Cayenne, enquanto entornava um cálice de Pernod.

Garimpo na Guiana Francesa, região do Rio Alto Mana.

Aquele encontro fora em função das atividades subterrâneas do meu amigo Walter, que passara umas semanas enfiado nos garimpos de ouro do rio Mana, nas profundezas da selva guianense. E o plano traçado por ele era muito simples: abastecer com comida, remédios, roupas ou o que mais aprouvesse as legiões de brasileiros que se aventuravam clandestinamente na Guiana, seja nas imediações de Caiena ou nos garimpos mal afamados da fronteira com o Suriname.

E o financiador da empreitada seria naturalmente o Benoît, com uma parcela considerável de grana para nós. Assim, uns dez dias mais tarde nos encontrávamos a bordo de um barco camaroneiro, ancorado ao largo de uma das dezenas de ilhas localizadas na foz do Rio Oiapoque, fronteira do Brasil. Dali nós seguiríamos de catraia até a cidade de Oiapoque, de onde iria de táxi áereo rumo a Macapá, lugar onde seriam feitas as compras.

Foz do Rio Oiapoque, fronteira Brasil-Guiana Francesa.

Cinco dias depois nós retornávamos a bordo de um caminhão carregado de mercadorias até o Oiapoque. Dali, embarcamos a carga numa vigilenga até a foz do Oiapoque, onde tudo foi trasladado para o barco camaroneiro francês e dali retornamos até as imediações do porto de Degrád de Cannes, no estuário do Rio Mahury.

A operação foi coroada de sucesso e rendeu uma grana federal ao Benoît, que programou para nós uma segunda investida ao Brasil nas semanas seguintes e nos mesmos moldes. Do meu lado, nada a reclamar: cada viagem dessas me rendia uns 5.000 dólares, o que me permitiu deixar definitivamente de lado meu humilde trabalho de lavar pratos e limpar mesas no bistrô de Mme. Angèlique.

A aventura na Guiana parecia finalmente render dividendos e enquanto aguardava pela terceira viagem, passava o tempo agora totalmente livre, presenciando as mais tenebrosas transações nas mesas do Chez Moi. E o tempo parecia escorrer lentamente naquelas noites quentes dos trópicos. Um perigo para espíritos despreocupados. Mas isso conto mais adiante...

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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

CRÔNICAS GUIANENSES...(1)

Lá pelo meio de 1973 eu andava de saco cheio, depois de três anos trabalhando em um banco. Gastava a maior parte do meu tempo livre em botecos e boates de fama questionáveis, a vida em meio a uma verdadeira geléia geral, uma insatisfação constante. E numa maré dessas a gente é presa fácil para qualquer canto de sereia...

Walter foi uma dessas figuras que conheci perdido num dos botecos desclassificados na zona boêmia da noite belemense. Gordo, negro retinto e luzidio, era etíope de nascimento, filho adotivo de um alemão e criado nas areias e malandragens de Copacabana. Já deu para imaginar o tipo. E foi dele que veio a idéia de jerico, naquelas longas e úmidas madrugadas depois do consumir hectolitros de cerveja: alistar-se na Legião Estrangeira logo ali em Caiena, capital da Guiana Francesa.

O início da década de 70 se prestava bem para este tipo de presepada. Muita gente estava caindo na estrada, mochila nas costas e sem dinheiro no bolso, tentando viver a utopia de uma vida livre de obrigações. Muitos foram longe, mas a maioria não ultrapassou os limites seguros e conhecidos das imediações de suas casas. Mas, naquele caso, pelo menos valia a tentativa...

Resolvido, me demiti do banco, vendi meu carro, juntei as poucas economias ao dinheiro da indenização  para fazer caixa. Mas, precavido, transformei parte em dólares e outra apliquei em letras de câmbio (grande investimento, na época...) para reserva em caso de uma eventual rebordosa. Afinal, seguro morreu de velho.

Nossa viagem de barco até Macapá, depois mais 600 quilômetros de ônibus por estrada de terra até o Oiapoque e dali de catraia - pequenos barcos amazônicos a vela e motor, que faziam o transporte ilegal de brasileiros até as imediações de Caiena - daria um relato à parte, mas que vai ficar para outra ocasião.

E para quem morava em Belém do Pará, uma cidade com mais de um milhão de habitantes na época, a primeira vista da capital da Guiana Francesa podia ser meio decepcionante.

Caiena, Guiana Francesa: vista à distância, um pueblito...

Caiena era então pouco mais de uma village de não mais que umas 50.000 almas, a maioria de negros guianenses, haitianos, surinameses e também de brasileiros, principalmente gente vinda do Amapá e Maranhão em busca de melhores salários. Como é um Departamento Francês, toda a administração e os melhores negócios estavam nas mãos dos brancos franceses que, com seu centenário senso de colonizadores, dominavam as outras etnias pagando-lhes baixos salários e explorando-os quase à exaustão.

Após a chegada, nos instalamos num hotelzinho vagabundo no centro histórico, próximo à Place des Palmistes, local que concentrava à sua volta tudo o que de interessante pudesse ocorrer. E assim, dois dias mais tarde nos apresentamos ao regimento da Legião estrangeira para tratarmos do nosso alistamento. Felizmente, eles levam a sério esse negócio de alistamento pois o Walter com 1,60 metro e 110 quilos era o biotipo menos indicado para um legionário, apesar de falar fluentemente o francês!

Apesar de bem atendidos, descobrimos que o alistamento só poderia ser feito em Fort de Nogent, na imediações de Paris. A base da legião em Caiena se prestava somente como uma colônia de férias e para treinamento dos já legionários. Desapontados depois de termos passado poucas e boas até chegar ali e sem a menor pretensão de ir até à França, lá se ia ladeira abaixo o sonho de me tornar um legionário. O negócio agora era como sobreviver antes de gastar minhas economias ou voltar para casa.

Aí foi a hora de me valer das habilidades do Walter que, fluente em francês s filho de um maître d´hôtel, sabia tudo de hotelaria, além de cozinhar como poucos. Não foi dificil descolarmos um emprego num bistrô, ele na cozinha e eu lavando pratos e arrumando mesas. O salário era até razoável, o bistrô era pequeno, portanto o trabalho não era muito. Garantíamos ainda a bóia e os míseros francos ali ganhos nos permitiam pagar o quarto de hotel que vivíamos. E assim se foram as primeiras semanas.

Passávamos as horas livres sentados em botecos ordinários, entre goles de Pernod e a fumaça acre dos Gaulouises, na busca de algumas mulatinhas incautas. Walter era um aventureiro por excelência e um boêmio incorrigível. Nas suas andanças noturnas fez amizade com um coroa francês dono de um pardieiro, situado a alguns quilômetros fora de Caiena, na estrada que vai para Kourou.

O lugar, de péssima fama, localizava-se próximo a um porto de barcos camaroneiros (pesca de camarão) e era uma mistura de restaurante e cabaré. A freqüencia não poderia ser pior: rústicos marujos, garimpeiros, mulheres de baixa extração, bêbados e drogados, jogadores, enfim a fina flor do bas fond de Caiena. E aquele seria nosso endereço nos próximos meses na Guina Francesa...

Continua no próximo post...

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sábado, 25 de setembro de 2010

'THE FIRST TIME EVER I SAW YOUR FACE"

"Perversa Paixão" (Play Misty For Me, no original) é um filme de 1971, dirigido por Clint Eastwood e considerado um dos melhores thrillers do inicio da década de 70. E na sua trilha sonora, numa das mais famosa sequencias do filme e que ajudou a catapultá-lo rumo ao sucesso, estava a quase desconhecida Roberta Flack, interpretando um de seus maiores sucessos, The First Time Ever I Saw Your Face.



A canção se tornou um dos maiores hits da carreira da cantora, alcançando o primeiro lugar dos Top 100 do Billboard de 1972, e presença obrigatória em quase todos os seus shows mundo afora, integrando-se de tal maneira no seu repertório que a maioria atribui a Roberta Flack sua autoria. Mas nada mais falso.


Peggy Seeger canta a versão original da canção folk...

A música foi composta em 1957 pelo cantor, compositor folk e ativista político inglês Ewan MacColl e feita sob encomenda de Peggy Seeger, também cantora folk e mais tarde sua esposa. A música passou a fazer parte do ambiente folk e teve várias gravações nos anos 60, como Elvis Presley, Peter Paul & Mary, Johnny Cash até estourar no mundo pop com a inclusão da canção no primeiro álbum de Roberta Flack, First Take, de 1969.

A versão gravada por Roberta Flack em ritomo de balada romântica, era bem mais lenta e estendida para pouco mais de quatro minutos, o que provocou uma imensa irritação em Ewan MacColl. Mesmo assim foi esta versão que se perpetuou e gerou mais tarde centenas de gravações por outros artistas, elevando "The First Time Ever I Saw Your Face" ao panteão das maiores canções pop de todos os tempos.

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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

DAIQUIRI, EL REY...

Como dizia o colunista social Ibrahim Sued, sorry periferia, mas meu primeiro daiquiri foi mesmo no La Floridita, localizado em Habana Vieja, Cuba e bar favorito de ninguém menos que Ernest Hemingway, que descobriu o lugar no início dos anos 30 e ali da sua mesa preferida rabiscou os manuscritos de "Por Quem Os Sinos Dobram" e outras histórias.

Ernest Hemingway e Constantino Ribalaguaya, no balcão do La Floridita.

O daiquiri, ao lado do mojito, compõe a dupla mais famosa da coquetelaria cubana. E toda grande bebida tem uma grande história por trás e com o daiquiri não poderia ser diferente. Reza a lenda que teria sido criado em 1905 num bar de nome Vênus, em Santiago de Cuba, frequentado por um grupo de engenheiros americanos que trabalhavam numa mina ali perto, de nome Daiquiri. Um deles, Jennings Cox, ao se ver sem gim substituiu o destilado por rum na beberagem que estavam acostumados a tomar e daí nasceu o drinque.

A receita do Daiquiri era extremante similar ao grogue, uma bebida largamente consumida pelos marinheiros britânicos a bordo dos navios por volta de 1740. Era basicamente rum misturado com o suco de laranjas doces e água. Essa era também uma bebida comum em todo Caribe e quando o gelo passou estar disponível também veio a incorporar esse drink.

Com o tempo e pela facilidade de acesso ao limão e açúcar, o drink evoluiu rapidamente pois os trabalhadores da mina de Daiquiri eram agraciados todo os meses com algumas garrafas de Rum Bacardi, fabricado na época em Santiago de Cuba. Originalmente o Daiquiri era servido em copo alto com muito gelo picado, uma colher de açúcar, o suco de um limão e duas partes de rum. Complementando a mistura, uma boa mexida com colher longa para deixar o drink bem gelado.

Com a popularização da bebida em Cuba logo alguém deu uma refinada na receita, passando a ser misturado em coqueteleira com os mesmo ingredientes mas com gelo picado, sendo vigorosamente agitado e servido em copo tipo flûte previamente gelado.

Foi esta a receita que apareceu nas páginas do Miami Herald em março de 1937, passando a bebida a se tornar extremamente popular nos EUA, a ponto de ser homenageada várias vezes no cinema como em "Uma Aventura na Martinica" (Lauren Bacall), "Se Meu Apartamento Falasse" (Shirley McLane), "A Costela de Adão" (com o csal Spencer Tracy e Katherine Hepburn) e Alec Guiness em "Nosso Homem em Havana). Era também a bebida favorita do presidente John Kennedy.


O daiquiri, ensinado por um mestre da coquetelaria, Derivan de Souza.

Um de suas variações mais famosas foi a criada por Constantino Ribalaigua no inicio do século passado, no bar e restaurante La Floridita e onde trabalhou por mais de quarenta anos. Ele juntou uum, açúcar, limão e um leve toque de licor de Maraschino e bateu num liquidificador com muito gelo dando a consistência de frapê. Essa famosa receita consagrou o La Floridita mundialmente como a casa do Daiquiri.

Outra variante notável é o célebre Papa Doble, criado especialmente para Hemingway - que era diabético - preparado sem açúcar, substituído por suco de grapefruit e servido em dose dupla. Conta-se que o escritor chegou a tomar 16 desse drink numa noite.

Hoje existem muitas variações de Daiquiri e poucas remetem à receita original, mas mesmo assim o coquetel é reputado como um dos sete drinques clássicos da coquetelaria mundial.

Tin, tin...

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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

"IL SORPASSO..."

"Il Sorpasso, ("A Ultrapassagem", em italiano), The Easy Life em inglês, e lançado no Brasil como "Aquele Que Sabe Viver" - é um cult movie de 1962 dirigido por Dino Risi e considerado um dos melhores filmes da década de 60, no melhor estilo commedia all´italiana

O roteiro marca o encontro de Roberto, vivido pelo ator francês Jean Louis Trintignant, um tímido e sério estudante de Direito com Bruno (um desempenho excepcional de Vittorio Gassman), quarentão boa vida, exuberante e caprichoso.

Durante dois dias desfilando pelas paisagens exuberantes da costa do Lazio e Toscana, a bordo de uma Lancia Aurelia, esses dois homens passarão por altos e baixos, visitam suas respectivas familias e o tempo que Roberto passa junto a Bruno é, às vezes, hilário mas em outras se transforma num dramático processo de aceleração da maturidade.



Enquanto o estilo despreocupado e sucesso social de Bruno atrai a atenção de Roberto, este aos poucos dá se conta da superficialidade e infelicidade do novo amigo. O título do filme se refere a uma infeliz manobra de Bruno ao volante da Lancia Aurelia, instigada por Roberto, cuja sequencia finaliza a película.

O sucesso de "Il Sorpasso" deve-se a uma série de referencias que se tornariam mandatórias nos cult movies que inspiraria ao longo da década de 1960. Uma delas foi o uso da trilha sonora feita com sucessos da música pop, artifício depois utilizado por Dennis Hopper na direção de "Easy Rider (Sem Destino), assumidamente influenciado por este filme.

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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

DISCO DE BOLSO...

Em 1972 O Pasquim sobrevivia a duras penas. Longe iam os dias em que o semanário carioca representava a linha de frente da resistência ao regime militar. Da brilhante equipe que fundara o pequeno jornal muito pouco restara.

Os que ficaram foram obrigados a diversificar as atividades do jornal, como o lançamento da Editora Codecri (Comitê de Defesa do Crioléu) a fim de editar títulos de intelectuais de esquerda ou de colaboradores sem acesso ao mercado editorial tradicional.

Uma das grandes iniciativas foi o Disco de Bolso. O projeto era uma estreita colaboração de O Pasquim com o produtor Eduardo Athayde e o compositor e diretor musical Sérgio Ricardo.

A idéia era excelente, a democratização da música brasileira ao apresentar de um lado do compacto simples um compositor consagrado e no outro lançar um artista desconhecido.

A primeira edição do Disco de Bolso teve a tiragem de 30.000 exemplares, vendidas unicamente em bancas de revistas. No lado A trazia a primeira gravação de "Águas de Março", composição de nosso maestro maior Antonio Carlos Jobim e interpretada pelo próprio.

Do outro "Agnus Sei", uma intrigante composição de uma dupla que iria dar o que falar nos anos seguintes, o mineiro João Bosco e o carioca Aldir Blanc...

Lembro-me como se fosse hoje. Na época, 1972, eu ainda era rato de biblioteca e habitué de bancas de revistas. E foi numa dessas, em pleno março, que descobri a novidade. Apesar do primor de rima e métrica de "Águas de Março", o que me impressionou mesmo foi o lado B.


"Agnus Sei"
apresentava uma certa religiosidade profana, coisa típica do interior das Gerais, temperada com uma boa dose de cinismo agnóstico vinda da urbanidade carioca de Aldir Blanc, pontuada pela batida flamenca do violão de João Bosco. Uma música perturbadora.

Um ano mais tarde, "Agnus Sei" seria gravada por Elis Regina com o rigor técnico e a impecabilidade vocal de sempre, mas a meu ver perdera a sua veia seminal quando do lançamento com João Bosco.

A segunda edição do Disco de Bolso teve Caetano Veloso cantando uma versão de "A Volta da Asa Branca" de Luiz Gonzaga e no outro lado, o estreante Fagner interpretando "Mucuripe", de sua autoria e Belchior.

Mas uma mensagem no disco, do produtor Sérgio Ricardo encartada no disco e dirigida a Geraldo vandré, onde ele faz uma retrospectiva dos anos de repressão política e cita nominalmente aqueles que haviam retornado do exilio, chamou a atenção da truculenta Censura Federal, que acabou proibindo a circulação do Disco de Bolso, sob a alegação de que o disco-fascículo tinha objetivos políticos.

O Disco de Bolso, apesar de sua curta existência, foi uma experiência vitoriosa de renovação musical e incentivo ao aparecimento de novos valores de nosssa MPB, abrindo espaço e dando voz a alguns compositores e intérpretes que se consagrariam nos anos seguintes.

Mais alguém aí se lembra do Disco de Bolso ?

(fotos reprodução)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

QUEM SE LEMBRA DE...

...Romy Schneider ?

"Romy Schneider era filha dos atores Magda Schneider e Wolf Albach-Retty, e muito bonita desde pequena. Com uma pele rosada e olhos azuis, Romy chamava muita atenção, mas só estreou no cinema aos catorze anos, no filme Quando Voltam a Florescer os Lilases, ao lado da mãe, que controlou sua carreira até que ela se casasse pela primeira vez.

Aos 17 anos, em 1955, Schneider tornava-se famosa ao viver Sissi, a Imperatriz-adolescente da Áustria, no filme do mesmo nome. Era uma personagem bonita, irreverente e capaz de quebrar todos os protocolos da nobreza européia de forma a conquistar o jovem Imperador austríaco Francisco José e os seus súditos.
O filme conquistou as platéias do mundo todo e gerou mais duas continuações, Sissi, a Imperatriz e Sissi E Seu Destino, todos dirigidos por Ernst Marischka e interpretados por Romy, o ator Karlheinz Böhm e a mãe de Romy, Magda Schneider.

Já famosa mundialmente a atriz se recusou a continuar a viver jovens princesas inocentes e partiu para filmes mais adultos, escandalizando seus fãs em 1958 ao participar do filme Senhoritas de Uniforme, que contava a história de lesbianismo em um colégio feminino. No mesmo ano Romy filmou Christine, e se apaixonou perdidamente pelo seu galã, o então também jovem e promissor ator francês Alain Delon.



O romance durou até 1963 e o casamento dos dois foi várias vezes anunciado e outras tantas adiado. Nessa época, ela se encontrou com o diretor Luchino Visconti que mudou radicalmente sua trajetória de atriz, dando-lhe um papel sexy e digno de uma grande atriz em Boccaccio 70.

Seu primeiro casamento foi com o diretor e cenógrafo alemão Harry Meyen, pai de seu filho David. Separaram-se em 1975 e logo depois se casou com seu secretário pessoal, Daniel Biasini, com quem teve uma filha, Sarah e que acabaria também por se separar. Quando morreu, vivia há pouco mais de um mês com o produtor francês Laurent Petain.

A atriz morreu aos 43 anos de uma parada cardíaca, em seu apartamento em Paris, onde vivia com o terceiro marido, a filha e uma empregada. Ela vinha se tratando de uma profunda depressão pelo suicídio do primeiro marido e, logo depois, pela trágica morte do filho de ambos, que ao pular um portão, foi perfurado pelas setas da grade, onde passava férias, e morreu na hora, com apenas 14 anos. Alguns dias antes de falecer, Romy se submeteu a uma operação para a retirada de um rim devido a um tumor."

(texto e fotos reprodução)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

'BYE, BYE, BRASIL..."

"Bye, Bye, Brasil", apesar do título, é um filme brasileiro de 1979, dirigido por Cacá Diegues e produzido pelo ex-homem forte da Globo, Walter Clark. Foi o primeiro filme nacional cuja produção atingiu a cifra de um milhão de dólares, o que causou críticas contundentes da intelligentsia (leia-se a esquerda raivosa) brasileira, levando o diretor a cunhar a expressão "patrulhas ideológicas", que ficaria consagrada por muito anos.

O roteiro descrevia as andanças da Caravana Rólidei, uma trupe de artistas mambembes formada por Lorde Cigano (José Wilker, soberbo e no auge da atuação), Salomé (Betty Faria) e Andorinha (Principe Nabor, ex-lutador de luta livre) que percorriam as cidades miseráveis do interior deste Brasil, vendendo ilusão, sexo e circo.

A eles se juntam numa cidadezinha do Nordeste o sanfoneiro Ciço (papel do então estreante Fábio Jr, recém descoberto no seriado global "Ciranda, Cirandinha") e Dasdô (Zaira Zambelli), sua esposa grávida que acabará dando a luz em plena selva amazônica.

Sofrendo a concorrencia desleal das antenas de TV que rapidamente invadiam as pequenas cidades, promovidas pelas prefeituras, Lorde Cigano acaba descobrindo através de um motorista de caminhão, a existência da cidade de Altamira, que é por este pintada como um novo Eldorado à beira da rodovia Transamazônica.




E é para lá que se dirige a Caravana Rólidei somente para constatar que Altamira já se encontrava também contaminada pelas antenas de TV, chamadas no filme de "espinhas de peixe". Sem maiores alternativas, a trupe se desfaz e Lorde Cigano, Salomé, Ciço e Dasdô se mandam para Belém, onde tentam sobreviver de pequena cafetinagem, prostituição e eventuais truques de falsa vidência.

O filme retrata a maturidade artística de Cacá Dieques que vinha de dois bons filmes: o sucesso de bilheteria "Xica da Silva" e o suave e autoral "Chuvas de Verão". Embalado pela sensacional trilha sonora composta e cantada por Chico Buarque, "Bye, Bye, Brasil" é um filme que não envelheceu, tendo o mérito de ainda se mostrar atual.

Quem envelheceu fomos nós. Ou um outro Brasil...

(foto reprodução)

domingo, 15 de agosto de 2010

O VINIL ESTÁ DE VOLTA...

Quem me avisa é Fábio Aguiar Lopes, executivo da Vox Music e leitor habitual aqui do espaço: os discos de vinil estão de volta.

"Depois de colocar no mercado LPs do casting da gravadora Deckdisc – Fernanda Takai, Pitty, Nação Zumbi –, a Polysom vai lançar em vinil álbuns clássicos da música brasileira ou que foram sucessos de venda no país.

Em série limitada, os LPs são fabricados em 180 gramas de vinil. Até o final do ano, ainda voltam às lojas A Tábua de Esmeralda (1974), de Jorge Ben; os dois primeiros discos do grupo Secos e Molhados; os excelentes (e raros) Todos os Olhos (1973) e Estudando o Samba (1976), de Tom Zé; e Cabeça Dinossauro (1986) e Jesus Não tem Dentes no País dos Banguelas (1987), dos Titãs."
Para quem curte, um prato cheio. Acho que vou dar uma revitalizada na minha "discoteca"...

(foto reprodução)

terça-feira, 10 de agosto de 2010

DISCOTECA BÁSICA...JANE MONHEIT

"Come Dream With Me" - Jane Monheit

Este é o segundo disco de Jane Monheit, inegavelmente uma das maiores revelações do jazz vocal nos últimosanos. Depois de tirar em 1998 o segundo lugar na competição vocal do Thelonious Monk Institute - diante de um júri composto por Dee Dee Bridgewater, Nenna Freelon, Diana Krall, Dianne Reeves e Joe Williams - Jane havia lançado seu primeiro disco, Never Never Land, em 2000.

Primeiro, alguns fatos: Jane Monheit tem uma voz resplandescente, absolutamente excepcional. Timbre puro em toda a extensão, agudos cristalinos, emitidos sem esforço, fraseado ágil e seguro, perfeito controle sobre a amplitude do vibrato imprimido a cada final de frase, e domínio total dos pianíssimos - tudo isso banhado por um swing sutil.

Isso nos faz às vezes pensar que finalmente nos está sendo dado escutar uma criatura cuja existência parecia improvável, senão impossível: uma vocalista que possui a técnica de uma cantora clássica combinada com a flexibilidade e o swing de uma cantora de jazz. (É bom lembrar que as tentativas anteriores de cantoras líricas abordarem o repertório jazzístico se revelaram pífias ou, na melhor das hipóteses, pouco convincentes, mesmo que no fundo sinceras.)

O perfil “clássico” da voz de Monheit foi a razão pela qual alguns críticos logo a classificaram como uma cantora “retrô”, que se abstém de radicalismos ou grandes inovações. De fato, ela pouco faz no sentido de romper com as convenções do canto jazzístico. Jane nunca quebra a porcelana nem risca a prataria; ao contrário, ela faz questão de se manter fiel a um padrão clássico de beleza. Isso não constitui, em si, um grande pecado: afinal, ainda existe muito espaço para que as cantoras desenvolvam o repertório standard com elegância e sutileza.

Os músicos pelos quais Jane se faz acompanhar também fornecem uma moldura mais do que adequada para sua voz. Em Come Dream With Me, Jane Monheit é acompanhada por instrumentistas de qualidade incontestável: o veterano Kenny Barron ao piano, Christian McBride ao contrabaixo e Gregory Hutchinson à bateria, mais participações de Michael Brecker ao sax, Tom Harrell ao trompete e Richard Bona à guitarra. No disco anterior, convém lembrar, o contrabaixista era ninguém menos que o grande Ron Carter.


Com a escolha do repertório, começamos a entrar naqueles aspectos do novo disco de Jane que podem merecer alguns reparos. Nada a censurar quanto à escolha dos standards e mesmo da versão em inglês de “Águas de março” de Tom Jobim. Porém a mistura de alguns temas pop adocicados ao repertório do disco, como “If” (inclusive com direito a dubbing da voz de Jane) e “A Case of You” (onde a interpretação de Jane lembra um bocado a suave cantora folk Jewel Kilcher), para não falar na batida “Over the Rainbow”, é de gosto um tanto duvidoso, embora o resultado não seja desagradável de ouvir.

Mas talvez o maior problema com o estágio atual da arte de Jane Monheit esteja em algo que não é culpa dela, nem precisa constituir, por enquanto, motivo de preocupação para os que acompanham sua carreira. Devido à extraordinária qualidade de sua voz - que parece ter nascido já perfeita, madura e capaz - somos levados a esperar uma igual maturidade em suas interpretações.

E, como se pode perceber escutando Come Dream With Me, ainda é cedo: é preciso deixar que a passagem do tempo some experiência musical e amadurecimento expressivo à sua música. Embora as interpretações de Monheit sejam corretas, às vezes são um tanto preciosistas. Por enquanto, Jane ocasionalmente ainda cai presa da vontade de mostrar o que é capaz de fazer com a própria voz. Ainda lhe falta aquele mergulho interior, próprio das grandes intérpretes, em busca da essência de cada tema, abaixo da superfície, por assim dizer (por mais cintilante que esta possa ser).

A musicalidade inata de Jane Monheit é tão extraordinária que podemos ficar otimistas quanto à perspectiva de seu amadurecimento como intérprete. Enquanto isso, devemos apreciar este seu Come Dream With Me exatamente como ele se coloca, isto é, como um doce de sabor sutil, preparado com genuíno carinho e cuidado, e que prenuncia (assim esperamos) sabores mais ricos e complexos.

Resenha de Valter Alnis Bezerra